domingo, 15 de agosto de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
do lodo, a flor...
do lodo, a flor...
salve arte poética!
que brota dos esgotos
dos ralos
das fossas existenciais
uma roseira há de brotar do lodo
lírios haverão de florir no limbo
um jardim surgirá do lixo
flores miúdas cobrirão o escorregadio limo
ah! poesia salvífica!
faxineira bendita das almas
dos poetas ditos malditos
das meretrizes devassas
poesia carpideira
que vela sobre almas moribundas
que penetra frestas e rachaduras
de feridas abertas sem brandura
salve arte poética adubada pela dor...!
Izabel Lisboa
saudades de mim
ando com umas saudades...
com um não sei quê que me aperta o peito...
desejos de realizar sonhos e concretizar promessas
preparar para minh’alma uma grande festa
na clareza de não viver prisões
na certeza de não ser cativa
expandir o coração e abraçar a vida
abrir portas e janelas sem medo e sem medida
mergulhar nos mistérios que me fazem viva
buscar no fundo de minh’alma a esperança que não foi perdida
ando com umas saudades...
com um não sei quê que me aperta o peito...
Izabel Lisboa
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
O conceito de tempo, do misticismo aos dias modernos
Elcio Abdalla Professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo
In: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-99892009000200005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt#tx01
Desde que o homem se percebeu como inteligência, ele olhou para os céus e perguntou-se sobre a origem de todas as coisas, inclusive de si mesmo. Viu-se também compelido a olhar para os céus como modo de previsão de fenômenos.
Os céus nos dão razões de sobra para que o examinemos. Há uma vertente prática no quotidiano do homem, qual seja, a da marcação do tempo, previsão das colheitas, antecipação meteorológica. O ciclo de verões e de invernos era de vital importância para o homem antigo e uma eventual perda de tal antecipação poderia levar à morte de uma sociedade pela fome.
Há, no entanto, uma segunda vertente, independente e aparentemente longínqua da primeira, mas, ainda assim, indissociável dela, posto que será o outro lado da inquirição científica. Refere-se esta à mitologia e à pergunta sobre a origem do universo e do homem. Essa vertente mística seria a origem da pergunta científica sobre a origem do cosmos, sobre a compreensão do início do mundo e fazia parte, na época, da religiosidade e da mitologia.
Os mitos de criação falam do tempo de uma forma bastante direta e têm uma imagem direta nas diversas interpretações de tempo da física.
Assim, Caos e Noite geraram Érebo (escuridão). Depois vieram Éter (luz) e Hemera (dia). Hemera e Eros criaram Ponto (Mar) e Gaia (Terra), que gerou o Céu (Urano). Essa é a fase análoga ao tempo caótico, sem início ou fim, sem interpretação direta.
Gaia e Urano geraram os doze Titãs, entre eles Cronos e Rhea, três ciclopes e três gigantes. Farta do apetite sexual de Urano, Gaia pediu ajuda aos filhos. Cronos decidiu-se a ajudá-la. Esperou Urano com uma foice, com a qual o castrou, jogando os testículos ao mar, de onde nasceu Afrodite. Do sangue, nasceram as Erínias. Urano amaldiçoou o filho, vaticinando que os filhos de Cronos o trairiam. Cronos casou-se com Rhea. Comia seus filhos por temor de que eles cumprissem a maldição de Cronos. Cronos personifica o tempo, aquele que cria para posteriormente destruir. Representará o tempo da relatividade geral, assim como o tempo das religiões monoteístas, com um início, com uma criação a partir de algo desconhecido, caótico.
De seus filhos, Rhea salvou Zeus dando a Cronos uma pedra embrulhada como se fora o novo filho. Cronos comeu a pedra pensando ser a criança. Zeus foi criado às escondidas, no Monte Ida.
Zeus retorna, exila Cronos e os Titãs no Tártaro, casa-se com Hera. Zeus gerou filhos e filhas, deuses e mortais, abrindo a época dos deuses olímpicos. É a era do tempo clássico, o tempo sem início ou fim, como o tempo de Newton, absoluto.
As religiões monoteístas tiveram, também, suas sugestões quanto à criação do universo e do homem, espelhadas, por exemplo, na arte renascentista. Essa visão de tempo, advinda dos gregos, é bastante ilustrativa e muito característica do pensamento filosófico grego, em que o psíquico e o científico se juntam de modo profundo. O tempo é, de fato, simultaneamente, substância psicológica intrínseca ao homem, que pensa dentro do tempo, e algo científico, aparentemente independente do observador humano, presente em qualquer experiência física realista.
Será interessante observarmos, ao final, que, depois de uma separação entre o tempo psicológico, desprezado pela ciência por séculos, e o tempo físico, realista, presente objetivamente, chegaremos a uma situação em que a própria existência objetiva do tempo fica colocada em questão. Vejamos como isso ocorre.
A metafísica do tempo já foi estudada em profundidade por grandes mentes. Entre os pitagóricos, e para Platão, há uma imagem divina para a origem do tempo. Nessa medida, teria havido a criação do tempo em moldes parecidos com a ideia bíblica. Conforme o dito pitagórico, "[…] Ele resolveu ter uma imagem móvel da realidade, então colocou ordem nos céus, fez desta uma imagem eterna mas não móvel, de acordo com os números, enquanto a eternidade restava em sua unidade, é a esta imagem que damos o nome de tempo". Para Aristóteles, tempo é movimento que admite enumeração.
Em uma interessantíssima série de diálogos públicos na década de 80 entre o físico David Bohm e o pensador indiano Jiddu Krishnamurti, a questão do tempo foi discutida de modo bastante particular, qual seja, no que tange ao tempo psicológico. Na opinião do pensador, o homem deve, de alguma forma, deixar o tempo para sair de seus conflitos e ter um novo começo. Algumas correntes psicológicas falam de um inconsciente irracional fora do tempo, atemporal. As duas opiniões, de origens diferentes, parecem convergir no que diz respeito ao tempo psicológico que poderia correr de modo diferente para cada ser diferente. Perguntaríamos, então, se o tempo poderia ser algo tão sutil, abstrato, a ponto de fugir de nossa interpretação e de ser diverso daquele tempo clássico, medido por um relógio independente do observador.
Dividamos nossa discussão em partes, analisando em primeiro lugar como a ciência viu a evolução do conceito de tempo até seus últimos desenvolvimentos.
Os primeiros conhecimentos científicos, no que tange ao cosmos, vieram dos filósofos gregos. Na Antiguidade, a Terra era tida como plana, como entre os babilônios, ou mesmo entre os primeiros gregos, que pensavam que Apolo levava o Sol diariamente em sua carruagem, de leste para oeste. Há indícios, entre os gregos, já na época de Homero, do conhecimento de dias extremamente longos, o que dá uma indicação da esfericidade da Terra. Posteriormente, segundo Heródoto, os fenícios, ao circum-navegarem a África, viram o Sol à sua direita ao caminharem em direção ao poente, o que indica, conforme a interpretação de Terra esférica, que eles estavam abaixo da linha do equador. As primeiras interpretações mais diretas e incisivas sobre a esfericidade da Terra deram-se com os pitagóricos. Ainda entre os gregos, formou-se a ideia de que a Terra, redonda, seria o centro do universo, as estrelas se moveriam em uma esfera exterior, a esfera celeste, com período fixo1. Os movimentos foram conhecidos através da sombra de uma vara vertical fixa ao solo, vara esta denominada gnomon. O movimento da sombra indicava não apenas o horário durante o dia, mas o movimento do sol durante o ano.
O conhecimento mais detalhado e científico do cosmos evoluiu bastante. As medidas de tempo através da observação da sombra do gnomon e o conhecimento das estações do ano permitiram as primeiras medidas de tempo. Os babilônios introduziram um ano de 360 dias, corrigido para 365 pelos egípcios. O calendário juliano foi introduzido por Júlio César com a ajuda de astrônomos egípcios e apresentava a novidade do ano bissexto, um ano de 366 dias a cada quatro anos. Tal calendário durou cerca de 1.500 anos.
O calendário foi de grande importância histórica em nossa compreensão da física e da medida do tempo. Não o foi de modo intrínseco, mas sua compreensão levou a descobertas muito importantes. Por volta do século XVI, a data da Páscoa havia se adiantado no calendário juliano. Essa data é definida através de uma combinação dos calendários lunar e solar. O calendário solar é melhor para as colheitas, pois segue o curso natural das estações do ano, mas o calendário lunar é de mais fácil apreciação pelo homem. O domingo de Páscoa é definido como o primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio de primavera do hemisfério norte. Portanto, depende de fenômenos solares e lunares. É claro que o período solar não era necessariamente comensurável com o período de 365 dias e um quarto definido pelo calendário juliano; uma revisão era necessária. Nicolau Copérnico, astrônomo polonês nascido em 1473 e falecido em 1643, fez essa revisão. Apesar de anteriormente a ele sábios gregos, indianos e árabes terem proposto um sistema heliocêntrico, tal hipótese ganhou força com o calendário proposto por Copérnico. Copérnico usou o heliocentrismo como método de trabalho, mas posteriormente essa hipótese foi vista como realidade física.
O calendário de Copérnico foi instituído pelo papa Gregório XIII em 1582, tendo sido então chamado de calendário gregoriano2. A grande vantagem dessa nova era, no que tange à marcação de tempo, não foi o calendário em si, mas o fato de que o sistema heliocêntrico, com observações posteriores do dinamarquês Tycho Brahe, foi utilizado por Johannes Kepler para formular as três leis de Kepler do movimento planetário. Subsequentemente, Descartes e Galileu formularam o método científico, utilizado por Galileu e por Newton para descrever a mecânica. Dentro da mecânica temos o conceito clássico de tempo.
O tempo clássico é o tempo absoluto, um fluir perpétuo de algo que não sabemos definir, mas que bem podemos intuir. O tempo newtoniano clássico é o tempo de Zeus, um perpétuo movimento observado pelos deuses de seu assento olímpico. É a passagem inexorável associada ao movimento eterno das coisas. Foi também a definição do determinismo clássico, com a previsão de todos os fenômenos, desde que saibamos a configuração atual do mundo. Conforme Laplace, se um ser for capaz de saber todos os detalhes do universo hoje, assim como as leis da mecânica, todo o futuro estará, para aquele ser, determinado.
No entanto, a visão determinista da física sofre um impacto brutal vindo de uma outra teoria física bem conhecida, o eletromagnetismo. Conhecidos desde a Antiguidade, os fenômenos elétricos e magnéticos foram, no século XIX, reunidos em uma só teoria por James Clerk Maxwell, corroborada pela experiência e que trazia em seu bojo algo preocupante do ponto de vista clássico: a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores, ou seja, se eu correr atrás da luz jamais a alcançarei, e se for em direção a ela, não a encontrarei mais rápido. Albert Einstein teve a grande ideia de interpretar o resultado dizendo que o tempo e o espaço estão reunidos de forma inseparável, ou seja, o mundo físico é um contínuo quadridimensional espaço-tempo. Era a teoria da relatividade especial, formulada no anus mirabili de 1905, quando Einstein escreveu nada menos que três trabalhos que revolucionaram a física.
Com o conhecimento das leis do eletromagnetismo vieram os primeiros abalos da física clássica: o eletromagnetismo parecia incompatível com o conceito de tempo absoluto, especialmente com as conclusões tiradas da experiência de Michelson e Morley e com a confirmação das equações de Maxwell através das ondas hertzianas (as ondas eletromagnéticas). De fato, concluiu-se então que as verdadeiras leis de transformação são as de Lorentz, que se tornaram uma das pedras angulares da nova física por se iniciar. O significado físico era grande. Em primeiro lugar, o tempo já não era absoluto, e observadores em movimento tinham escalas de tempo diferentes, uns com respeito aos outros. Objetos físicos também se comportavam de modo estranho, passando a se comprimir ao se moverem com velocidades muito grandes. Essa é a nova física da teoria da relatividade, e de um modo muito simples, uma das mais conhecidas novidades é que o tempo não se move da mesma maneira para os vários observadores3.
De modo concomitante, outros problemas, ainda tidos como pequenos, escapavam a uma solução. O que não se sabia é que, no final do século XIX, começava-se a avistar a pequena ponta de um enorme iceberg em rota de colisão com a titânica física clássica. Se nos for permitido um desvio de assunto, podemos dizer que se via uma falsa calma da passagem do século, calmaria essa representada pela era vitoriana, mas que continha uma monumental tempestade que varreria toda a face da Terra, mudando de modo completo e sem volta os contornos planetários, com uma mudança fundamental na visão de mundo e na interpretação filosófica.
Mas, no que diz respeito ao tempo, uma revolução maior ainda estava por acontecer. Durante alguns anos, Einstein estudou como estender os resultados obtidos para o caso de haver forças gravitacionais, o que conseguiu ao formular a teoria da relatividade geral, que foi bem estabelecida do ponto de vista observacional pelas suas previsões sobre a órbita do planeta Mercúrio e principalmente pelo desvio de luz das estrelas pelo Sol, observado em um eclipse solar na cidade de Sobral, no Ceará, em 1919.
O resultado positivo da relatividade geral para o movimento planetário permitiu que se pudesse aplicar a teoria para se descrever o cosmos. Procurou-se então uma chamada solução cosmológica da teoria. O que se procurava, na relatividade geral, seria uma chamada métrica, ou seja, uma régua e um relógio específicos4 para a descrição do cosmos. Tal problema foi resolvido supondo-se um chamado princípio cosmológico, que diz que não há lugares privilegiados no universo. A solução para a métrica é aquela de Friedmann-Lemaître-Robertson-Walker, e descreve um espaço em evolução, com uma régua que se alonga com o tempo. Ou seja, o universo expande-se continuamente!
Einstein não se satisfez com a solução, pois esperava um universo estático. Tentou modificar suas equações introduzindo a chamada constante cosmológica, que posteriormente qualificou como o maior erro de sua vida5. A solução cosmológica acima foi confirmada pelas observações do astrônomo Edwin Hubble cerca de 80 anos atrás.
Como o universo encontrava-se em expansão, olhando-se para trás podemos antever um instante em que todo o universo estaria concentrado em um só ponto: seria o instante inicial do universo, a criação do próprio espaço-tempo, o instante da criação do universo! É a própria criação do tempo, o tempo de Cronos, o tempo de Agostinho, o instante anterior ao qual não havia tempo! É interessante a argumentação de Santo Agostinho. Argumentava-se, na época, que a criação, sendo perfeita, deveria ter ocorrido antes, e Deus não poderia ter simplesmente esperado. A resposta do santo é que o tempo não existia antes da criação. Sendo eterna, a divindade transcende o próprio tempo, e para Ele tudo é presente, não existindo ordem temporal. Assim, no século IV, Agostinho usou conceitos que amadureceram apenas com o advento da teoria da relatividade no século XX.
Assim, após o tempo de Zeus, o tempo clássico, olímpico, compreendemos o tempo criado, o tempo de Cronos. O tempo da relatividade geral aproxima-se da noção de criação, da ideia de ciclo, tal como espelhada na arte católica da Capela Sistina. Contrapõe-se ao tempo de Zeus, que, sem início ou fim, concorda melhor com as ideias clássicas de determinismo.
No entanto, outra revolução científica se dá no início do século XX, que fará mudar nossas concepções de espaço-tempo. Trata-se da mecânica quântica. A mecânica quântica nasceu com a tentativa de explicar os fenômenos associados ao muito pequeno, às partículas elementares, âmbito no qual a teoria clássica, abarcando a mecânica clássica e o eletromagnetismo, tem dificuldades intrínsecas insuperáveis. A teoria quântica evoluiu, para explicar todos os tipos de fenômenos associados ao muito pequeno, para uma concepção totalmente nova na explicação dos fenômenos físicos, com a inclusão do observador que passa a ser parte do fenômeno a ser estudado. Tal concepção é totalmente estranha à física clássica, em que o observador é completamente externo e estranho ao fenômeno estudado, devendo assim permanecer de modo a não borrar os resultados experimentais. Na mecânica quântica isso é impossível! Os fenômenos, na ausência de observador, são probabilísticos, e uma das possibilidades só ocorre na presença do observador ou, melhor ainda, no caso de uma observação.
A mecânica quântica tem um formalismo muito rico e pode ser descrita de diversas maneiras diferentes. Em particular, há uma maneira elegante e instrutiva de se definir a mecânica quântica. Como tudo são probabilidades em mecânica quântica6, a trajetória de um ponto pode ser qualquer uma, e a trajetória real será uma média ponderada, sendo a ponderação definida através de uma constante fundamental introduzida por Max Planck quando do primeiro trabalho histórico que trouxe a teoria quântica para a física.
A mecânica quântica entra na história do universo em dois pontos importantes. O primeiro diz respeito à evolução cósmica dentro do âmbito da relatividade geral através da teoria das partículas elementares. Isso decorre do fato de que quanto mais próximas as partículas (o que ocorre no universo primordial devido à contração do espaço) mais quente o universo, e a descrição das partículas será eminentemente quântica.
Mostra-se que a história cósmica tem fases e pode, de modo simplificado, ser descrita em termos de três épocas fundamentais. A primeira, chamada de fase de radiação, contém uma sopa quentíssima de partículas a uma temperatura tão alta que as diferentes interações elementares se confundem. No final dessa fase, certas marcas foram deixadas nos céus e somos capazes de corroborar certas facetas das teorias das partículas elementares. Posteriormente, temos a fase da matéria, mais fria, em que as estruturas cosmológicas (aglomerados de galáxias, galáxias, estrelas) foram formadas. Finalmente, temos a fase moderna, de expansão acelerada através da energia escura.
A mecânica quântica foi essencial para essa descrição e para as previsões que levaram os físicos a afiançar a teoria padrão do início do universo. A essa descrição chamaremos de descrição de Cronos, sendo a mesma da relatividade geral vista anteriormente, mas muito mais sofisticada.
No entanto, há outra faceta da descrição do universo que será ainda mais elaborada e chega a ser quase mitológica, na medida em que não há, dentro da tecnologia atual, possibilidade de corroborar os detalhes dessa teoria. O fato é que a teoria da relatividade e a mecânica quântica pareciam, até um quarto de século atrás, misteriosamente imiscíveis. A descoberta da teoria das cordas em um contexto de física nuclear foi singularmente interessante. A teoria foi reinterpretada em termos da relatividade geral e se descobriu que ela descrevia a teoria quântica da gravitação, ou seja, a relatividade geral quântica, pela primeira vez depois de três quartos de século!
A teoria das cordas (de fato, teoria das supercordas7) tem características peculiares. Em particular, ela está definida em um espaço-tempo com várias dimensões: a teoria das supercordas está definida em nove dimensões de espaço e um tempo. Assim sendo, como na arte e na ficção, temos um universo multidimensional! Em particular, como na mecânica quântica temos criação de partículas e antipartículas e várias trajetórias multiprováveis, podemos ter vários universos com tempos independentes e não-relacionados.
Assim, temos não somente um universo multidimensional, mas uma infinidade de universos com tempos e espaços diferentes e independentes. Nosso conceito de tempo se esvai e relativiza-se, pois diferentes observadores em diferentes universos não podem se comunicar visto que seus tempos são incompatíveis. Temos, então, a volta de um tempo caótico, antes de Cronos! O tempo de Cronos não passa de uma pálida faceta de tempo, entre tantos e tantos tempos que povoam o Multiverso, agora bem mais maiúsculo. O Multiverso contém uma infinitude de diferentes universos, alguns chamamos de pântanos ou brejos, onde a vida não é possível, e outros que chamamos de paisagens, onde a vida é possível.
Caso essa teoria seja realmente correta em seus detalhes, talvez tenham razão Edward Witten e David Gross, que afirmam: "Maybe space-time is doomed", ou seja, talvez os conceitos de espaço e de tempo estejam fadados à ruína.
Discussões envolvendo a mecânica quântica são extremamente complexas e de difícil interpretação. Na teoria quântica da gravitação tal como proposta pela teoria das cordas, o tempo é uma das variáveis físicas e, da maneira como o conhecemos, só existe como um epifenômeno. Dessa maneira retornamos às dúvidas dos filósofos do século XVIII, como David Hume, que colocava em dúvida a própria causalidade. Essa interpretação empírica da realidade deve ser comparada seriamente com a teoria quântica: embora a mecânica quântica seja descrita por equações diferenciais bem definidas, com previsões exatas, essas previsões referem-se a uma densidade de probabilidade, e apenas depois de feita uma medida podemos dizer o resultado do experimento. Assim, uma realidade física fica por debaixo de um véu, e não temos uma ideia precisa de seu significado. Conforme dizia Niels Bohr sobre a realidade do mundo quântico, "não há um mundo quântico. Há apenas uma descrição abstrata da mecânica quântica. É errado pensar que a meta da física seja descobrir como é a Natureza. Física concerne ao que sabemos dizer sobre a Natureza".
Assim, especialmente quando chegamos ao âmago do espaço-tempo, podemos afirmar que de fato não sabemos, ao certo, o que é o tempo. Essa é uma das mais fascinantes questões da física, e talvez jamais possamos, dentro desta geração, ter uma resposta definitiva e final. No entanto, poderíamos dizer que esses conceitos estão em um domínio metacientífico, tal como a questão da efetividade da matemática como descrição da natureza. São questões que talvez não possam ser respondidas dentro da ciência, podemos apenas intuir sobre sua veracidade e corroborar sua acurácia na descrição dos fenômenos naturais. Certamente outras questões se colocam com tão grande veemência, como a possibilidade de se viajar no tempo ou, no caso de outros espaços-tempos, termos que interpretar o significado desses diferentes espaços e tempos para os diferentes mundos.
É claro que essas questões são, no momento, mais da metafísica que propriamente da física. Voltamos a ter opiniões, e não só provas e demonstrações, quanto ao que concerne a assuntos de tamanho vulto. A questão nem mesmo é quando conseguiremos compreender esses mistérios, mas até mesmo se a civilização humana é capaz de resolvê-los através da capacidade intelectual do homem moderno, ou se seria necessário outra civilização intrinsecamente mais adiantada para fazê-lo.
_________________________________________________________
1 Esse período é de 23 horas e 56 minutos, 4 minutos a menos que o dia solar médio, em vista do movimento de translação da Terra. É claro que os gregos não conheciam todos esses detalhes.
2 O calendário gregoriano é definido da seguinte maneira: ao dia 4 de outubro de 1582 seguiu-se o dia 15 de outubro de 1582. Os anos bissextos múltiplos de 100, mas não de 400, foram eliminados (assim, 1900 não foi bissexto, mas 2000 o foi, enquanto 2100 não o será.)
3 Não é verdade, no entanto, que a física não seja a mesma, apenas as aparências são outras.
4 Devemos, neste ponto, nos lembrar que agora não descrevemos a física pela velha geometria de Euclides, mas por uma nova geometria que inclui o tempo. Denominamos o procedimento de se achar a geometria apropriada, ou seja, a régua e o relógio apropriados para cada problema físico, de se achar a métrica do problema.
5 É de se notar aqui que hoje a constante cosmológica é frequentemente utilizada para uma possível explicação da chamada energia escura que parece permear todo o universo fazendo-o acelerar sem parar.
6 Na verdade, a situação é um pouco mais complicada, pois as probabilidades quânticas não se somam como as probabilidades clássicas. Por essa razão elas se chamam amplitudes de probabilidade. Podem inclusive ser negativas ou mesmo números complexos. No entanto, este é um ponto técnico que não nos interessa neste momento.
7 A supersimetria é uma importante simetria relacionada às partículas elementares, essencial para uma descrição consistente da teoria das cordas, daí o nome, teoria das supercordas.
In: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-99892009000200005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt#tx01
Desde que o homem se percebeu como inteligência, ele olhou para os céus e perguntou-se sobre a origem de todas as coisas, inclusive de si mesmo. Viu-se também compelido a olhar para os céus como modo de previsão de fenômenos.
Os céus nos dão razões de sobra para que o examinemos. Há uma vertente prática no quotidiano do homem, qual seja, a da marcação do tempo, previsão das colheitas, antecipação meteorológica. O ciclo de verões e de invernos era de vital importância para o homem antigo e uma eventual perda de tal antecipação poderia levar à morte de uma sociedade pela fome.
Há, no entanto, uma segunda vertente, independente e aparentemente longínqua da primeira, mas, ainda assim, indissociável dela, posto que será o outro lado da inquirição científica. Refere-se esta à mitologia e à pergunta sobre a origem do universo e do homem. Essa vertente mística seria a origem da pergunta científica sobre a origem do cosmos, sobre a compreensão do início do mundo e fazia parte, na época, da religiosidade e da mitologia.
Os mitos de criação falam do tempo de uma forma bastante direta e têm uma imagem direta nas diversas interpretações de tempo da física.
Assim, Caos e Noite geraram Érebo (escuridão). Depois vieram Éter (luz) e Hemera (dia). Hemera e Eros criaram Ponto (Mar) e Gaia (Terra), que gerou o Céu (Urano). Essa é a fase análoga ao tempo caótico, sem início ou fim, sem interpretação direta.
Gaia e Urano geraram os doze Titãs, entre eles Cronos e Rhea, três ciclopes e três gigantes. Farta do apetite sexual de Urano, Gaia pediu ajuda aos filhos. Cronos decidiu-se a ajudá-la. Esperou Urano com uma foice, com a qual o castrou, jogando os testículos ao mar, de onde nasceu Afrodite. Do sangue, nasceram as Erínias. Urano amaldiçoou o filho, vaticinando que os filhos de Cronos o trairiam. Cronos casou-se com Rhea. Comia seus filhos por temor de que eles cumprissem a maldição de Cronos. Cronos personifica o tempo, aquele que cria para posteriormente destruir. Representará o tempo da relatividade geral, assim como o tempo das religiões monoteístas, com um início, com uma criação a partir de algo desconhecido, caótico.
De seus filhos, Rhea salvou Zeus dando a Cronos uma pedra embrulhada como se fora o novo filho. Cronos comeu a pedra pensando ser a criança. Zeus foi criado às escondidas, no Monte Ida.
Zeus retorna, exila Cronos e os Titãs no Tártaro, casa-se com Hera. Zeus gerou filhos e filhas, deuses e mortais, abrindo a época dos deuses olímpicos. É a era do tempo clássico, o tempo sem início ou fim, como o tempo de Newton, absoluto.
As religiões monoteístas tiveram, também, suas sugestões quanto à criação do universo e do homem, espelhadas, por exemplo, na arte renascentista. Essa visão de tempo, advinda dos gregos, é bastante ilustrativa e muito característica do pensamento filosófico grego, em que o psíquico e o científico se juntam de modo profundo. O tempo é, de fato, simultaneamente, substância psicológica intrínseca ao homem, que pensa dentro do tempo, e algo científico, aparentemente independente do observador humano, presente em qualquer experiência física realista.
Será interessante observarmos, ao final, que, depois de uma separação entre o tempo psicológico, desprezado pela ciência por séculos, e o tempo físico, realista, presente objetivamente, chegaremos a uma situação em que a própria existência objetiva do tempo fica colocada em questão. Vejamos como isso ocorre.
A metafísica do tempo já foi estudada em profundidade por grandes mentes. Entre os pitagóricos, e para Platão, há uma imagem divina para a origem do tempo. Nessa medida, teria havido a criação do tempo em moldes parecidos com a ideia bíblica. Conforme o dito pitagórico, "[…] Ele resolveu ter uma imagem móvel da realidade, então colocou ordem nos céus, fez desta uma imagem eterna mas não móvel, de acordo com os números, enquanto a eternidade restava em sua unidade, é a esta imagem que damos o nome de tempo". Para Aristóteles, tempo é movimento que admite enumeração.
Em uma interessantíssima série de diálogos públicos na década de 80 entre o físico David Bohm e o pensador indiano Jiddu Krishnamurti, a questão do tempo foi discutida de modo bastante particular, qual seja, no que tange ao tempo psicológico. Na opinião do pensador, o homem deve, de alguma forma, deixar o tempo para sair de seus conflitos e ter um novo começo. Algumas correntes psicológicas falam de um inconsciente irracional fora do tempo, atemporal. As duas opiniões, de origens diferentes, parecem convergir no que diz respeito ao tempo psicológico que poderia correr de modo diferente para cada ser diferente. Perguntaríamos, então, se o tempo poderia ser algo tão sutil, abstrato, a ponto de fugir de nossa interpretação e de ser diverso daquele tempo clássico, medido por um relógio independente do observador.
Dividamos nossa discussão em partes, analisando em primeiro lugar como a ciência viu a evolução do conceito de tempo até seus últimos desenvolvimentos.
Os primeiros conhecimentos científicos, no que tange ao cosmos, vieram dos filósofos gregos. Na Antiguidade, a Terra era tida como plana, como entre os babilônios, ou mesmo entre os primeiros gregos, que pensavam que Apolo levava o Sol diariamente em sua carruagem, de leste para oeste. Há indícios, entre os gregos, já na época de Homero, do conhecimento de dias extremamente longos, o que dá uma indicação da esfericidade da Terra. Posteriormente, segundo Heródoto, os fenícios, ao circum-navegarem a África, viram o Sol à sua direita ao caminharem em direção ao poente, o que indica, conforme a interpretação de Terra esférica, que eles estavam abaixo da linha do equador. As primeiras interpretações mais diretas e incisivas sobre a esfericidade da Terra deram-se com os pitagóricos. Ainda entre os gregos, formou-se a ideia de que a Terra, redonda, seria o centro do universo, as estrelas se moveriam em uma esfera exterior, a esfera celeste, com período fixo1. Os movimentos foram conhecidos através da sombra de uma vara vertical fixa ao solo, vara esta denominada gnomon. O movimento da sombra indicava não apenas o horário durante o dia, mas o movimento do sol durante o ano.
O conhecimento mais detalhado e científico do cosmos evoluiu bastante. As medidas de tempo através da observação da sombra do gnomon e o conhecimento das estações do ano permitiram as primeiras medidas de tempo. Os babilônios introduziram um ano de 360 dias, corrigido para 365 pelos egípcios. O calendário juliano foi introduzido por Júlio César com a ajuda de astrônomos egípcios e apresentava a novidade do ano bissexto, um ano de 366 dias a cada quatro anos. Tal calendário durou cerca de 1.500 anos.
O calendário foi de grande importância histórica em nossa compreensão da física e da medida do tempo. Não o foi de modo intrínseco, mas sua compreensão levou a descobertas muito importantes. Por volta do século XVI, a data da Páscoa havia se adiantado no calendário juliano. Essa data é definida através de uma combinação dos calendários lunar e solar. O calendário solar é melhor para as colheitas, pois segue o curso natural das estações do ano, mas o calendário lunar é de mais fácil apreciação pelo homem. O domingo de Páscoa é definido como o primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio de primavera do hemisfério norte. Portanto, depende de fenômenos solares e lunares. É claro que o período solar não era necessariamente comensurável com o período de 365 dias e um quarto definido pelo calendário juliano; uma revisão era necessária. Nicolau Copérnico, astrônomo polonês nascido em 1473 e falecido em 1643, fez essa revisão. Apesar de anteriormente a ele sábios gregos, indianos e árabes terem proposto um sistema heliocêntrico, tal hipótese ganhou força com o calendário proposto por Copérnico. Copérnico usou o heliocentrismo como método de trabalho, mas posteriormente essa hipótese foi vista como realidade física.
O calendário de Copérnico foi instituído pelo papa Gregório XIII em 1582, tendo sido então chamado de calendário gregoriano2. A grande vantagem dessa nova era, no que tange à marcação de tempo, não foi o calendário em si, mas o fato de que o sistema heliocêntrico, com observações posteriores do dinamarquês Tycho Brahe, foi utilizado por Johannes Kepler para formular as três leis de Kepler do movimento planetário. Subsequentemente, Descartes e Galileu formularam o método científico, utilizado por Galileu e por Newton para descrever a mecânica. Dentro da mecânica temos o conceito clássico de tempo.
O tempo clássico é o tempo absoluto, um fluir perpétuo de algo que não sabemos definir, mas que bem podemos intuir. O tempo newtoniano clássico é o tempo de Zeus, um perpétuo movimento observado pelos deuses de seu assento olímpico. É a passagem inexorável associada ao movimento eterno das coisas. Foi também a definição do determinismo clássico, com a previsão de todos os fenômenos, desde que saibamos a configuração atual do mundo. Conforme Laplace, se um ser for capaz de saber todos os detalhes do universo hoje, assim como as leis da mecânica, todo o futuro estará, para aquele ser, determinado.
No entanto, a visão determinista da física sofre um impacto brutal vindo de uma outra teoria física bem conhecida, o eletromagnetismo. Conhecidos desde a Antiguidade, os fenômenos elétricos e magnéticos foram, no século XIX, reunidos em uma só teoria por James Clerk Maxwell, corroborada pela experiência e que trazia em seu bojo algo preocupante do ponto de vista clássico: a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores, ou seja, se eu correr atrás da luz jamais a alcançarei, e se for em direção a ela, não a encontrarei mais rápido. Albert Einstein teve a grande ideia de interpretar o resultado dizendo que o tempo e o espaço estão reunidos de forma inseparável, ou seja, o mundo físico é um contínuo quadridimensional espaço-tempo. Era a teoria da relatividade especial, formulada no anus mirabili de 1905, quando Einstein escreveu nada menos que três trabalhos que revolucionaram a física.
Com o conhecimento das leis do eletromagnetismo vieram os primeiros abalos da física clássica: o eletromagnetismo parecia incompatível com o conceito de tempo absoluto, especialmente com as conclusões tiradas da experiência de Michelson e Morley e com a confirmação das equações de Maxwell através das ondas hertzianas (as ondas eletromagnéticas). De fato, concluiu-se então que as verdadeiras leis de transformação são as de Lorentz, que se tornaram uma das pedras angulares da nova física por se iniciar. O significado físico era grande. Em primeiro lugar, o tempo já não era absoluto, e observadores em movimento tinham escalas de tempo diferentes, uns com respeito aos outros. Objetos físicos também se comportavam de modo estranho, passando a se comprimir ao se moverem com velocidades muito grandes. Essa é a nova física da teoria da relatividade, e de um modo muito simples, uma das mais conhecidas novidades é que o tempo não se move da mesma maneira para os vários observadores3.
De modo concomitante, outros problemas, ainda tidos como pequenos, escapavam a uma solução. O que não se sabia é que, no final do século XIX, começava-se a avistar a pequena ponta de um enorme iceberg em rota de colisão com a titânica física clássica. Se nos for permitido um desvio de assunto, podemos dizer que se via uma falsa calma da passagem do século, calmaria essa representada pela era vitoriana, mas que continha uma monumental tempestade que varreria toda a face da Terra, mudando de modo completo e sem volta os contornos planetários, com uma mudança fundamental na visão de mundo e na interpretação filosófica.
Mas, no que diz respeito ao tempo, uma revolução maior ainda estava por acontecer. Durante alguns anos, Einstein estudou como estender os resultados obtidos para o caso de haver forças gravitacionais, o que conseguiu ao formular a teoria da relatividade geral, que foi bem estabelecida do ponto de vista observacional pelas suas previsões sobre a órbita do planeta Mercúrio e principalmente pelo desvio de luz das estrelas pelo Sol, observado em um eclipse solar na cidade de Sobral, no Ceará, em 1919.
O resultado positivo da relatividade geral para o movimento planetário permitiu que se pudesse aplicar a teoria para se descrever o cosmos. Procurou-se então uma chamada solução cosmológica da teoria. O que se procurava, na relatividade geral, seria uma chamada métrica, ou seja, uma régua e um relógio específicos4 para a descrição do cosmos. Tal problema foi resolvido supondo-se um chamado princípio cosmológico, que diz que não há lugares privilegiados no universo. A solução para a métrica é aquela de Friedmann-Lemaître-Robertson-Walker, e descreve um espaço em evolução, com uma régua que se alonga com o tempo. Ou seja, o universo expande-se continuamente!
Einstein não se satisfez com a solução, pois esperava um universo estático. Tentou modificar suas equações introduzindo a chamada constante cosmológica, que posteriormente qualificou como o maior erro de sua vida5. A solução cosmológica acima foi confirmada pelas observações do astrônomo Edwin Hubble cerca de 80 anos atrás.
Como o universo encontrava-se em expansão, olhando-se para trás podemos antever um instante em que todo o universo estaria concentrado em um só ponto: seria o instante inicial do universo, a criação do próprio espaço-tempo, o instante da criação do universo! É a própria criação do tempo, o tempo de Cronos, o tempo de Agostinho, o instante anterior ao qual não havia tempo! É interessante a argumentação de Santo Agostinho. Argumentava-se, na época, que a criação, sendo perfeita, deveria ter ocorrido antes, e Deus não poderia ter simplesmente esperado. A resposta do santo é que o tempo não existia antes da criação. Sendo eterna, a divindade transcende o próprio tempo, e para Ele tudo é presente, não existindo ordem temporal. Assim, no século IV, Agostinho usou conceitos que amadureceram apenas com o advento da teoria da relatividade no século XX.
Assim, após o tempo de Zeus, o tempo clássico, olímpico, compreendemos o tempo criado, o tempo de Cronos. O tempo da relatividade geral aproxima-se da noção de criação, da ideia de ciclo, tal como espelhada na arte católica da Capela Sistina. Contrapõe-se ao tempo de Zeus, que, sem início ou fim, concorda melhor com as ideias clássicas de determinismo.
No entanto, outra revolução científica se dá no início do século XX, que fará mudar nossas concepções de espaço-tempo. Trata-se da mecânica quântica. A mecânica quântica nasceu com a tentativa de explicar os fenômenos associados ao muito pequeno, às partículas elementares, âmbito no qual a teoria clássica, abarcando a mecânica clássica e o eletromagnetismo, tem dificuldades intrínsecas insuperáveis. A teoria quântica evoluiu, para explicar todos os tipos de fenômenos associados ao muito pequeno, para uma concepção totalmente nova na explicação dos fenômenos físicos, com a inclusão do observador que passa a ser parte do fenômeno a ser estudado. Tal concepção é totalmente estranha à física clássica, em que o observador é completamente externo e estranho ao fenômeno estudado, devendo assim permanecer de modo a não borrar os resultados experimentais. Na mecânica quântica isso é impossível! Os fenômenos, na ausência de observador, são probabilísticos, e uma das possibilidades só ocorre na presença do observador ou, melhor ainda, no caso de uma observação.
A mecânica quântica tem um formalismo muito rico e pode ser descrita de diversas maneiras diferentes. Em particular, há uma maneira elegante e instrutiva de se definir a mecânica quântica. Como tudo são probabilidades em mecânica quântica6, a trajetória de um ponto pode ser qualquer uma, e a trajetória real será uma média ponderada, sendo a ponderação definida através de uma constante fundamental introduzida por Max Planck quando do primeiro trabalho histórico que trouxe a teoria quântica para a física.
A mecânica quântica entra na história do universo em dois pontos importantes. O primeiro diz respeito à evolução cósmica dentro do âmbito da relatividade geral através da teoria das partículas elementares. Isso decorre do fato de que quanto mais próximas as partículas (o que ocorre no universo primordial devido à contração do espaço) mais quente o universo, e a descrição das partículas será eminentemente quântica.
Mostra-se que a história cósmica tem fases e pode, de modo simplificado, ser descrita em termos de três épocas fundamentais. A primeira, chamada de fase de radiação, contém uma sopa quentíssima de partículas a uma temperatura tão alta que as diferentes interações elementares se confundem. No final dessa fase, certas marcas foram deixadas nos céus e somos capazes de corroborar certas facetas das teorias das partículas elementares. Posteriormente, temos a fase da matéria, mais fria, em que as estruturas cosmológicas (aglomerados de galáxias, galáxias, estrelas) foram formadas. Finalmente, temos a fase moderna, de expansão acelerada através da energia escura.
A mecânica quântica foi essencial para essa descrição e para as previsões que levaram os físicos a afiançar a teoria padrão do início do universo. A essa descrição chamaremos de descrição de Cronos, sendo a mesma da relatividade geral vista anteriormente, mas muito mais sofisticada.
No entanto, há outra faceta da descrição do universo que será ainda mais elaborada e chega a ser quase mitológica, na medida em que não há, dentro da tecnologia atual, possibilidade de corroborar os detalhes dessa teoria. O fato é que a teoria da relatividade e a mecânica quântica pareciam, até um quarto de século atrás, misteriosamente imiscíveis. A descoberta da teoria das cordas em um contexto de física nuclear foi singularmente interessante. A teoria foi reinterpretada em termos da relatividade geral e se descobriu que ela descrevia a teoria quântica da gravitação, ou seja, a relatividade geral quântica, pela primeira vez depois de três quartos de século!
A teoria das cordas (de fato, teoria das supercordas7) tem características peculiares. Em particular, ela está definida em um espaço-tempo com várias dimensões: a teoria das supercordas está definida em nove dimensões de espaço e um tempo. Assim sendo, como na arte e na ficção, temos um universo multidimensional! Em particular, como na mecânica quântica temos criação de partículas e antipartículas e várias trajetórias multiprováveis, podemos ter vários universos com tempos independentes e não-relacionados.
Assim, temos não somente um universo multidimensional, mas uma infinidade de universos com tempos e espaços diferentes e independentes. Nosso conceito de tempo se esvai e relativiza-se, pois diferentes observadores em diferentes universos não podem se comunicar visto que seus tempos são incompatíveis. Temos, então, a volta de um tempo caótico, antes de Cronos! O tempo de Cronos não passa de uma pálida faceta de tempo, entre tantos e tantos tempos que povoam o Multiverso, agora bem mais maiúsculo. O Multiverso contém uma infinitude de diferentes universos, alguns chamamos de pântanos ou brejos, onde a vida não é possível, e outros que chamamos de paisagens, onde a vida é possível.
Caso essa teoria seja realmente correta em seus detalhes, talvez tenham razão Edward Witten e David Gross, que afirmam: "Maybe space-time is doomed", ou seja, talvez os conceitos de espaço e de tempo estejam fadados à ruína.
Discussões envolvendo a mecânica quântica são extremamente complexas e de difícil interpretação. Na teoria quântica da gravitação tal como proposta pela teoria das cordas, o tempo é uma das variáveis físicas e, da maneira como o conhecemos, só existe como um epifenômeno. Dessa maneira retornamos às dúvidas dos filósofos do século XVIII, como David Hume, que colocava em dúvida a própria causalidade. Essa interpretação empírica da realidade deve ser comparada seriamente com a teoria quântica: embora a mecânica quântica seja descrita por equações diferenciais bem definidas, com previsões exatas, essas previsões referem-se a uma densidade de probabilidade, e apenas depois de feita uma medida podemos dizer o resultado do experimento. Assim, uma realidade física fica por debaixo de um véu, e não temos uma ideia precisa de seu significado. Conforme dizia Niels Bohr sobre a realidade do mundo quântico, "não há um mundo quântico. Há apenas uma descrição abstrata da mecânica quântica. É errado pensar que a meta da física seja descobrir como é a Natureza. Física concerne ao que sabemos dizer sobre a Natureza".
Assim, especialmente quando chegamos ao âmago do espaço-tempo, podemos afirmar que de fato não sabemos, ao certo, o que é o tempo. Essa é uma das mais fascinantes questões da física, e talvez jamais possamos, dentro desta geração, ter uma resposta definitiva e final. No entanto, poderíamos dizer que esses conceitos estão em um domínio metacientífico, tal como a questão da efetividade da matemática como descrição da natureza. São questões que talvez não possam ser respondidas dentro da ciência, podemos apenas intuir sobre sua veracidade e corroborar sua acurácia na descrição dos fenômenos naturais. Certamente outras questões se colocam com tão grande veemência, como a possibilidade de se viajar no tempo ou, no caso de outros espaços-tempos, termos que interpretar o significado desses diferentes espaços e tempos para os diferentes mundos.
É claro que essas questões são, no momento, mais da metafísica que propriamente da física. Voltamos a ter opiniões, e não só provas e demonstrações, quanto ao que concerne a assuntos de tamanho vulto. A questão nem mesmo é quando conseguiremos compreender esses mistérios, mas até mesmo se a civilização humana é capaz de resolvê-los através da capacidade intelectual do homem moderno, ou se seria necessário outra civilização intrinsecamente mais adiantada para fazê-lo.
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1 Esse período é de 23 horas e 56 minutos, 4 minutos a menos que o dia solar médio, em vista do movimento de translação da Terra. É claro que os gregos não conheciam todos esses detalhes.
2 O calendário gregoriano é definido da seguinte maneira: ao dia 4 de outubro de 1582 seguiu-se o dia 15 de outubro de 1582. Os anos bissextos múltiplos de 100, mas não de 400, foram eliminados (assim, 1900 não foi bissexto, mas 2000 o foi, enquanto 2100 não o será.)
3 Não é verdade, no entanto, que a física não seja a mesma, apenas as aparências são outras.
4 Devemos, neste ponto, nos lembrar que agora não descrevemos a física pela velha geometria de Euclides, mas por uma nova geometria que inclui o tempo. Denominamos o procedimento de se achar a geometria apropriada, ou seja, a régua e o relógio apropriados para cada problema físico, de se achar a métrica do problema.
5 É de se notar aqui que hoje a constante cosmológica é frequentemente utilizada para uma possível explicação da chamada energia escura que parece permear todo o universo fazendo-o acelerar sem parar.
6 Na verdade, a situação é um pouco mais complicada, pois as probabilidades quânticas não se somam como as probabilidades clássicas. Por essa razão elas se chamam amplitudes de probabilidade. Podem inclusive ser negativas ou mesmo números complexos. No entanto, este é um ponto técnico que não nos interessa neste momento.
7 A supersimetria é uma importante simetria relacionada às partículas elementares, essencial para uma descrição consistente da teoria das cordas, daí o nome, teoria das supercordas.
CASAMENTO RELATIVO
Fofoca histórico-biográfica. Imaginem se Ratinho, Sonia Abrão. Marcia Goldsmith ou Cristina Rocha ficam sabendo do babado!!! Daria ótimo tema para um "CASOS DE FAMÍLIA"! rs
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CASAMENTO RELATIVO
Em 1914, às vésperas da primeira guerra mundial, Einstein se mudara a pouco de Zurique para Berlim com a primeira esposa Mileva Maric e os dois filhos crianças. Sua vida profissional e financeira melhorara muito com a mudança para Berlim - a capital mundial da ciência - porém, o casamento há muito tempo já estava desgastado e nesse ano de 1914, à beira de um ataque de nervos.
Foi nesse estado de pressão psicológica, alienação emocional, hostilidade pessoal, um novo amor, como é tão humano nas relações desde Shakespeare... que Einstein, 35 anos, já amante da prima de primeiro grau Elsa, 36, em Berlim, escreveu este bilhete proposta contratual e "brutal ultimato de cessar-fogo" para a esposa Mileva Maric:
Condições:
A. Você garantirá
1. que minhas roupas sejam mantidas em ordem;
2. que receberei três refeições regularmente, em meu quarto;
3. que meu quarto e meu escritório sejam mantidos em ordem, e sobretudo que minha escrivaninha seja
deixada apenas para meu uso.
***
B. Você renunciará a qualquer relacionamento pessoal comigo que não seja completamente necessário por razões sociais. Especificamente, você se absterá de
1. minha companhia em casa;
2. sair ou viajar comigo.
***
C. Você obedecerá aos seguintes pontos em seu relacionamento comigo:
1. não esperará nenhuma intimidade de mim, nem me censurará de nenhum modo;
2. parará de falar comigo quando eu assim exigir;
3. deixará meu quarto ou meu escritório imediatamente, sem protestar, quando eu assim exigir.
***
D. Você aceitará não me hostilizar na presença de nossos filhos, nem com palavras nem com atitudes.
"Mileva Maric aceitou os termos. Quando Haber ( um cientista amigo do casal) entregou a resposta a Einstein, este insistiu em escrever a ela outra vez, "para que você fique completamente esclarecida sobre a situação". Ele estava preparado para viver de novo com ela, "porque não quero perder meus filhos e não quero que eles se percam de mim". Estava fora de questão ter um relacionamento "amigável" com ela, então procuraria uma relação "profissional". "Os aspectos pessoais devem ser reduzidos ao mínimo indispensável", disse. "Em troca, asseguro um comportamento adequado de minha parte, o qual eu teria com qualquer estranha."
in "Einstein - sua vida, seu universo", de Walter Isaacson, 2007
In: http://versoeprosa.ning.com/profiles/blogs/casamento-relativo
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CASAMENTO RELATIVO
Em 1914, às vésperas da primeira guerra mundial, Einstein se mudara a pouco de Zurique para Berlim com a primeira esposa Mileva Maric e os dois filhos crianças. Sua vida profissional e financeira melhorara muito com a mudança para Berlim - a capital mundial da ciência - porém, o casamento há muito tempo já estava desgastado e nesse ano de 1914, à beira de um ataque de nervos.
Foi nesse estado de pressão psicológica, alienação emocional, hostilidade pessoal, um novo amor, como é tão humano nas relações desde Shakespeare... que Einstein, 35 anos, já amante da prima de primeiro grau Elsa, 36, em Berlim, escreveu este bilhete proposta contratual e "brutal ultimato de cessar-fogo" para a esposa Mileva Maric:
Condições:
A. Você garantirá
1. que minhas roupas sejam mantidas em ordem;
2. que receberei três refeições regularmente, em meu quarto;
3. que meu quarto e meu escritório sejam mantidos em ordem, e sobretudo que minha escrivaninha seja
deixada apenas para meu uso.
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B. Você renunciará a qualquer relacionamento pessoal comigo que não seja completamente necessário por razões sociais. Especificamente, você se absterá de
1. minha companhia em casa;
2. sair ou viajar comigo.
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C. Você obedecerá aos seguintes pontos em seu relacionamento comigo:
1. não esperará nenhuma intimidade de mim, nem me censurará de nenhum modo;
2. parará de falar comigo quando eu assim exigir;
3. deixará meu quarto ou meu escritório imediatamente, sem protestar, quando eu assim exigir.
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D. Você aceitará não me hostilizar na presença de nossos filhos, nem com palavras nem com atitudes.
"Mileva Maric aceitou os termos. Quando Haber ( um cientista amigo do casal) entregou a resposta a Einstein, este insistiu em escrever a ela outra vez, "para que você fique completamente esclarecida sobre a situação". Ele estava preparado para viver de novo com ela, "porque não quero perder meus filhos e não quero que eles se percam de mim". Estava fora de questão ter um relacionamento "amigável" com ela, então procuraria uma relação "profissional". "Os aspectos pessoais devem ser reduzidos ao mínimo indispensável", disse. "Em troca, asseguro um comportamento adequado de minha parte, o qual eu teria com qualquer estranha."
in "Einstein - sua vida, seu universo", de Walter Isaacson, 2007
In: http://versoeprosa.ning.com/profiles/blogs/casamento-relativo
Café Filosófico
- A morte como ritual – Eduardo Viveiros de Castro:
In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/10/a-morte-como-ritual-eduardo-viveiros-de-castro/
- A morte como Encantamento – Antônio Mourão Cavalcante:
In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/12/a-morte-como-encantamento-antonio-mourao-cavalcante/
- A morte como um acontecimento – Daniel Lins
In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/13/a-morte-como-um-acontecimento-daniel-lins/
- A morte como ritual – Eduardo Viveiros de Castro:
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- A morte como Encantamento – Antônio Mourão Cavalcante:
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- A morte como um acontecimento – Daniel Lins
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
O AMOR E A POESIA SÃO AS ÚLTIMAS TRINCHEIRAS CONTRA A ANESTESIA GERAL DAS CONSCIÊNCIAS E A DOMESTICAÇÃO
Ainda que pouca gente saiba, o amor e a poesia são as últimas trincheiras contra a mercantilização de tudo –inclusive das pessoas. Mas não é fácil visualizar com clareza essa questão. Afinal, existe toda uma orquestração que procura disfarçar o aspecto revolucionário do amor e da poesia. E não adianta dizer que o amor é pros trouxas e pros otários e o sexo é pros espertos.
É preciso não esquecer que o amor proporciona um contato revitalizador entre as pessoas, potencialmente transformador, já que os apaixonados são desobedientes e menos susceptíveis às barganhas e às propostas de renúncia da liberdade em troca de segurança. Os apaixonados estão na chuva pra se molhar , pois o amor potencializa os amantes para a rebeldia e para a criação.
É nessa direção que o livro de André Gorz, Carta a D, História de um amor , abre um hiato, restabelecendo essa vibração afetiva, incontida, desmesurada. Algo que nos faz lembrar de Tristão e Isolda, matriz das histórias de amor em que os apaixonados se amam loucamente e morrem de amar, contra tudo e todos, contra o mundo.
O livro abre com estas palavras: você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Confesso jamais ter lido algo semelhante em toda a minha vida. Fiquei literalmente de ponta cabeça. Imediatamente lembrei de Alvaro de Campos(um dos heterônimos do Pessoa) ironizando: Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Lembrei, também, do deplorável lugar reservado aos velhos em um mundo regido pelos princípios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.
Desfilaram pela minha cabeça certas noções indissociáveis da velhice: doenças, solidão, desânimo, dependência, asilo, preconceito--e o banco preferencial no ônibus. Mas os idosos, embora relegados, marginalizados e acusados de não entenderem nada, nao são refratários ao amor. E já foi provado: não se verifica na velhice a suposta desistência da vida sexual e amorosa, pois essas energias são pulsionais e, portanto, inesgotáveis. Claro que uma declaração de amor aos 80 anos só pode provocar estranheza, admiração, perplexidade. Na verdade, fiquei estupefacto, encantado –e muito, muito emocionado.
O imperdível Carta a D, História de um amor, é o último livro de André Gorz(2006). Antes dele, nos anos de repressão da ditadura militar brasileira, quando a polícia fazia a devassa de materiais subversivos, ter na estante um livro de Gorz era considerado delito especial, que merecia pena especial -- conforme depoimento de Ecléa Bosi.
Mas vamos situar melhor este autor que sempre esteve envolvido com temas relevantes da teoria social e da política contemporânea. André Gorz foi filósofo, discípulo e amigo de Sartre, e atuou como jornalista em Le Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. Foi considerado um dos principais inspiradores do movimento de Maio de 68 na França. E já nos anos 70 escreveu três livros e diversos artigos que se tornaram referência para os movimentos ecológicos. Isso sem falar da campanha que fez contra as usinas nucleares.
Apesar de tudo isso, do engajamento ideológico, da fama mundial e das proposições de políticas públicas que apontam uma solução radical para a crise social atual, André Gorz confessou desejar a morte dessa sociedade que agoniza para que uma outra que possa nascer de suas cinzas. Textualmente diz: é preciso aprender a enxergar , por detrás das resistências, das disfunções, dos impasses de que é feito o presente, os contornos de uma outra sociedade.
Voltando ao livro, Carta a D, História de um amor , veja o que o André Gorz diz: você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda: meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei palavras que nunca soubera pronunciar: palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre...
Não estávamos unidos apenas em nossa vida privada, mas também por uma atividade comum, na esfera pública...
Na primavera de 1950, quando os Citoyens du Monde me deixaram desempregado, você me disse, de maneira bem simples: A gente vai conseguir se virar sem eles. E, depois disso, encarou quase alegremente um longuíssimo ano de dureza. Você era o rochedo sobre o qual nós dois, nossa união podia ser construída...
Nosso espaço de vida em comum nunca tinha sido tão ampliado como passou a ser a partir da minha entrada nessa revista. Nós éramos complementares. Nós tínhamos , eu e você, adquirido a fama de inseparáveis obsessivamente dedicados um ao outro como escreveria Jean Daniel mais tarde.
Pra finalizar é necessário dizer que em torno da casa onde queria envelhecer com Dorine, Gorz plantou duzentas árvores. Aquela casa era mágica. Na primeira noite, nós não dormimos. Um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol se pôs a cantar, e um segundo, mais longe, a lhe responder.
Tudo indicava uma velhice serena para os dois lutadores apaixonados. Mas uma doença, contraída por Dorine, atrapalha todos os planos e eles vivem anos a fio procurando vencer essa batalha. Gorz deixa o jornalismo, aprende a cozinhar e cuidar da casa. E em 22 de setembro de 2007, o suicídio de André Gorz e Dorine confirma que ele não seria capaz de viver um segundo sequer sem a presença dela.
***
Publicado por Rubens Jardim em 08/08/2010 às 20h07
In: http://www.rubensjardim.com/blog.php
É preciso não esquecer que o amor proporciona um contato revitalizador entre as pessoas, potencialmente transformador, já que os apaixonados são desobedientes e menos susceptíveis às barganhas e às propostas de renúncia da liberdade em troca de segurança. Os apaixonados estão na chuva pra se molhar , pois o amor potencializa os amantes para a rebeldia e para a criação.
É nessa direção que o livro de André Gorz, Carta a D, História de um amor , abre um hiato, restabelecendo essa vibração afetiva, incontida, desmesurada. Algo que nos faz lembrar de Tristão e Isolda, matriz das histórias de amor em que os apaixonados se amam loucamente e morrem de amar, contra tudo e todos, contra o mundo.
O livro abre com estas palavras: você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Confesso jamais ter lido algo semelhante em toda a minha vida. Fiquei literalmente de ponta cabeça. Imediatamente lembrei de Alvaro de Campos(um dos heterônimos do Pessoa) ironizando: Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Lembrei, também, do deplorável lugar reservado aos velhos em um mundo regido pelos princípios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.
Desfilaram pela minha cabeça certas noções indissociáveis da velhice: doenças, solidão, desânimo, dependência, asilo, preconceito--e o banco preferencial no ônibus. Mas os idosos, embora relegados, marginalizados e acusados de não entenderem nada, nao são refratários ao amor. E já foi provado: não se verifica na velhice a suposta desistência da vida sexual e amorosa, pois essas energias são pulsionais e, portanto, inesgotáveis. Claro que uma declaração de amor aos 80 anos só pode provocar estranheza, admiração, perplexidade. Na verdade, fiquei estupefacto, encantado –e muito, muito emocionado.
O imperdível Carta a D, História de um amor, é o último livro de André Gorz(2006). Antes dele, nos anos de repressão da ditadura militar brasileira, quando a polícia fazia a devassa de materiais subversivos, ter na estante um livro de Gorz era considerado delito especial, que merecia pena especial -- conforme depoimento de Ecléa Bosi.
Mas vamos situar melhor este autor que sempre esteve envolvido com temas relevantes da teoria social e da política contemporânea. André Gorz foi filósofo, discípulo e amigo de Sartre, e atuou como jornalista em Le Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. Foi considerado um dos principais inspiradores do movimento de Maio de 68 na França. E já nos anos 70 escreveu três livros e diversos artigos que se tornaram referência para os movimentos ecológicos. Isso sem falar da campanha que fez contra as usinas nucleares.
Apesar de tudo isso, do engajamento ideológico, da fama mundial e das proposições de políticas públicas que apontam uma solução radical para a crise social atual, André Gorz confessou desejar a morte dessa sociedade que agoniza para que uma outra que possa nascer de suas cinzas. Textualmente diz: é preciso aprender a enxergar , por detrás das resistências, das disfunções, dos impasses de que é feito o presente, os contornos de uma outra sociedade.
Voltando ao livro, Carta a D, História de um amor , veja o que o André Gorz diz: você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda: meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei palavras que nunca soubera pronunciar: palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre...
Não estávamos unidos apenas em nossa vida privada, mas também por uma atividade comum, na esfera pública...
Na primavera de 1950, quando os Citoyens du Monde me deixaram desempregado, você me disse, de maneira bem simples: A gente vai conseguir se virar sem eles. E, depois disso, encarou quase alegremente um longuíssimo ano de dureza. Você era o rochedo sobre o qual nós dois, nossa união podia ser construída...
Nosso espaço de vida em comum nunca tinha sido tão ampliado como passou a ser a partir da minha entrada nessa revista. Nós éramos complementares. Nós tínhamos , eu e você, adquirido a fama de inseparáveis obsessivamente dedicados um ao outro como escreveria Jean Daniel mais tarde.
Pra finalizar é necessário dizer que em torno da casa onde queria envelhecer com Dorine, Gorz plantou duzentas árvores. Aquela casa era mágica. Na primeira noite, nós não dormimos. Um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol se pôs a cantar, e um segundo, mais longe, a lhe responder.
Tudo indicava uma velhice serena para os dois lutadores apaixonados. Mas uma doença, contraída por Dorine, atrapalha todos os planos e eles vivem anos a fio procurando vencer essa batalha. Gorz deixa o jornalismo, aprende a cozinhar e cuidar da casa. E em 22 de setembro de 2007, o suicídio de André Gorz e Dorine confirma que ele não seria capaz de viver um segundo sequer sem a presença dela.
***
Publicado por Rubens Jardim em 08/08/2010 às 20h07
In: http://www.rubensjardim.com/blog.php
terça-feira, 10 de agosto de 2010
que bom!
que bom!
os rios estão nos leitos
a água continua matando a sede
o sol brilhará amanhã
tudo que sobe tem descido
a sujeira está sob o capacho
Kierkeggard Sartre e Nietzsche estão mortos
e bem enterrados
os macacos evoluíram
os pingos estão nos is
os pecadores irão para o inferno
os escolhidos para o céu
reina a paz na terra do nunca
todos seremos [?] para sempre
gozemos...
que bom!
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
mercado[livre?]
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estão aqui
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***
Izabel Lisboa
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***
Izabel Lisboa
fiat lux
derrama-se a lua sobre a rua nua
tênue véu da noite
entrecortado tão somente
pelo frêmito das asas
e o voo trêmulo
de mariposas excitadas
em torno às indiferentes incandescentes
no mais
a rua está muda e imóvel
a madrugada arrasta-se pesadamente
e pacientemente aguarda
até que o tempo ditador implacável
artífice derradeiro
decida-se emoldurar em tons vibrantes
a ensolarada paisagem matinal...
entrarão em cena novos atores:
madames e totós babás e bebês
padeiros e pães carteiros e cartas
pedreiros e pedras jardineiros e jardins
porteiros e portas jornaleiros e jornais
burburinhos matinais...
***
Izabel Lisboa
tênue véu da noite
entrecortado tão somente
pelo frêmito das asas
e o voo trêmulo
de mariposas excitadas
em torno às indiferentes incandescentes
no mais
a rua está muda e imóvel
a madrugada arrasta-se pesadamente
e pacientemente aguarda
até que o tempo ditador implacável
artífice derradeiro
decida-se emoldurar em tons vibrantes
a ensolarada paisagem matinal...
entrarão em cena novos atores:
madames e totós babás e bebês
padeiros e pães carteiros e cartas
pedreiros e pedras jardineiros e jardins
porteiros e portas jornaleiros e jornais
burburinhos matinais...
***
Izabel Lisboa
tempo morto
definhava dia após dia
macerado o corpo
em dores [i]lícitas
e [i]morais
mendigava olhares
migalhas de salvação
para o inferno
sabia que não iria
já estava nele
agarrou-se à missão
impossível
de matar o tempo
munido apenas
de ressentimento
tentativas metódicas
apesar do esforço
e da boa vontade
conseguiu apenas
quebrar três relógios...
***
Izabel Lisboa
áurea lei
o teu olhar
sim
esse teu olhar
que agora me lê
é olhar outro
único biográfico [livre]
capaz de fazer dos textos
e dos contextos
a leitura que bem
[ou mal] entender
***
Izabel Lisboa
sim
esse teu olhar
que agora me lê
é olhar outro
único biográfico [livre]
capaz de fazer dos textos
e dos contextos
a leitura que bem
[ou mal] entender
***
Izabel Lisboa
ser poeta
tênue idéia
lançar um olhar lírico sobre dores e amores
sorver e absorver a essência das aparências
abismar-se diante dos abismos existenciais
pontuar as possibilidades [ou a falta de]
arremeter a alma ao céu quando for impossível pousar
pousar quando for imprescindível
deixar espaços em branco nas margens e entrelinhas.
abusar das exclamações interrogações e reticências...
um eterno não dar conta...
***
Izabel Lisboa
lançar um olhar lírico sobre dores e amores
sorver e absorver a essência das aparências
abismar-se diante dos abismos existenciais
pontuar as possibilidades [ou a falta de]
arremeter a alma ao céu quando for impossível pousar
pousar quando for imprescindível
deixar espaços em branco nas margens e entrelinhas.
abusar das exclamações interrogações e reticências...
um eterno não dar conta...
***
Izabel Lisboa
Stand By Me | Playing For Change | Song Around the World
Algumas canções tem a força de verdadeiros TRATADOS DE PAZ!!!
Vídeo esplendido!!! Músicos de rua de várias partes do mundo reunidos numa MARAVILHOSA gravação!
domingo, 8 de agosto de 2010
Dia dos pais
MEU PAI
Quando pequena eu tinha muito medo de chuva forte. Meu pai me acalmava dizendo que não precisava ter medo, pois a chuva lavava tudo, e levava embora todos os males e as dores da terra... Perto dele aprendi a não ter mais medo da chuva forte... Longe dele aprendi a sentir saudades...Izabel Lisboa
08/08/2010
Paternidade animal
Ache outros vídeos como este em Academia Feminina Espirito-santense de Letras
Essas coisas de lamber a cria, catar piolho, fazer cafuné, é bom demais e eu sou adepta fervorosa! Tenho um filho que já está com 22 anos e mesmo ele não sendo mais criança pequena quando vi o vídeo senti essa vontade animal de abraçá-lo e beijá-lo!
A violência contra a criança é chocante. A disparidade entre a inocencia da criança e a perversidade do adulto que pratica contra ela o ato de violência é pavorosa e infelizmente é uma realidade que deixa marcas terríveis para o resto da vida. É preciso denunciá-la e combatê-la. Apesar do vídeo se restringir aos maus tratos paternos no âmbito doméstico, a violência no que concerne ao descaso público com a saúde, educação, lazer, etc. da criança, não só no Brasil, mas no mundo todo, é outra face terrível dessa realidade.
Izabel Lisboa
Lógica do perdão, texto de Jacques Derrida
Conferência do autor de ‘A farmácia de Platão’, em agosto passado, no Rio, em uma de suas últimas aparições públicas. Derrida discute o processo de reconciliação na África do Sul pós-Aprtheid e no Chile depois de Pinochet.
*** ***
Estaríamos, portanto, no teatro, dentro de um teatro, nele, mas também perante uma corte, no momento em que não se resolveu a questão de saber se o tribunal, a comissão, a instância do veredicto é humana ou divina, se se trata do julgamento dos homens ou do Juízo Final.
Não é certo que o perdão ainda faça parte de uma lógica do julgamento, mas, se fizesse, seria e continua sendo difícil saber quem perdoa a quem, o quê, a quem e se Deus é ou não a última instância de apelação.
Há sempre essa dualidade das ordens: humana ou divina. Tal dualidade compartilha ou disputa o conceito mesmo de perdão e sobretudo o momento de reconciliação.
A reconciliação pode acontecer entre os homens e Deus, mas é verdade que na maior parte das vezes a temática da reconciliação, embora se faça pela mediação de Deus, tende sempre a humanizar as coisas, a abrandar a dureza do veredicto ou do dever.
Provavelmente nada disso é fortuito: o tema da reconciliação, que certamente não está ausente de nenhuma tradição abraâmica, parece mais cristão do que judeu ou muçulmano; a mediação de Cristo ou do ‘homem Deus’ desempenha um papel que lembrávamos há pouco ao evocar Lutero ou Calvino (o calvinismo marcou profundamente a comunidade branca da África do Sul) e ao recordar que nossos quatro personagens em cena – Hegel, Mandela, Clinton, Tutu – eram cristãos e protestantes, a despeito das diferenças mais ou menos discretas que os opõem e de alguns diferendos que não demoraram a aparecer, por exemplo, entre Tutu e Mandela.
Exceção absoluta
Em ‘O Mercador de Veneza’ [de Shakespeare], assiste-se à astúcia que consiste em fingir colocar o perdão acima do direito:
‘When mercy seasons justice’, como dizia Portia, a mulher disfarçada de advogado, representando os interesses do monarca, do doge e do Estado teológico-político cristão.
Ela (ele) tencionava, a um só tempo, convencer, fingir convencer, na verdade vencer, enganar e converter o judeu etc.
Como em certo texto de Kant, que inscreve a exceção metajurídica do direito de indulto na lei e no fundamento da lei, quisemos assim reconhecer um lugar (o direito de indulto concedido ao soberano, o indulto concedido pelo soberano) em que se juntavam o teológico e o político, o divino e o humano, o celeste e o terrestre.
Esse lugar permanece tanto mais notável por situar a um só tempo uma exceção absoluta – a inscrição do não-jurídico no jurídico, do para-além-da-lei na lei, a transcendência na imanência, e uma exceção que funda a unidade do corpo social e do Estado-nação.
Certamente isso é verdade, ainda hoje, em toda parte o¬nde o direito de indulto continua existindo, mesmo fora das monarquias (na França ou nos EUA, por exemplo), mas também, ‘a contrario’, como uma lei acima das leis, por meio da própria noção de imprescritibilidade.
Quando a noção de imprescritibilidade é inscrita na lei -como é o caso na França, desde 1964, para os crimes contra a humanidade-, ela se torna assim, para além da temporalidade jurídica e portanto humana, um conceito jurídico.
Este leva a compreender que nenhuma lei dos homens, no tempo dos homens, pode subtrair o criminoso ao julgamento.
Não é o oposto do direito de indulto, já que o chefe de Estado ainda pode agraciar um homem condenado por crime contra a humanidade (como acredito que fez Pompidou com Touvier, em nome da reconciliação e da reconstituição da unidade da nação).
Instância transcendente
A imprescritibilidade tem de análogo com o direito de indulto, com o indulto a que parece se opor, o fato de em ambos os casos a ordem humana da lei e o tempo humano do julgamento serem ultrapassados por uma instância transcendente.
Os homens não têm o direito de subtrair o – ou de se subtrair ao – julgamento, qualquer que seja o tempo decorrido após cometer a falta.
A esse respeito, do mesmo modo que o direito de indulto imita o poder divino, de que emana e com que se autoriza, a idéia de imprescritibilidade (algo bastante moderno, enquanto fenômeno jurídico e contemporâneo apenas, ao que saiba, do conceito igualmente moderno de crime contra a humanidade, que é seu correlato na França desde 1964) imita o Juízo Final.
Ele se dirige a um ‘até o final dos tempos’, portanto até um ‘para além do tempo’: um tempo até o final dos tempos.
Mas, como a ordem do prescritível ou do imprescritível não é a do perdoável ou do imperdoável – os quais não têm mais nada a ver, em princípio, com o judiciário ou o penal -, então essa hipérbole do direito sinaliza contudo para um perdão, a saber, um excesso no excesso, um suplemento de transcendência (pode-se, ao mesmo tempo em que se condena perante a corte de Justiça, perdoar o imperdoável) ou ainda para uma reapropriação humanizadora, uma reimanentização da lógica do perdão.
Essa reimanentização, essa reapropriação humanizadora organiza sempre o que está em jogo num debate religioso, o qual não pode deixar de passar pela sacralidade, pela indenidade, pela imunidade (‘Heiligkeit’) religiosa.
Debate religioso também entre as religiões que, como cada uma das religiões abraâmicas, trata diferentemente da reconciliação, da mediação humana na relação com Deus, da encarnação, dos profetas, do messias e do profeta.
Jesus, intercessor junto de Deus para que perdoe os que não sabem (pelo menos segundo Lucas), não é o messias para todo mundo. Não é o messias para os judeus e é somente um profeta para os muçulmanos.
Redenção de Pinochet
Sabemos que também foi notória no Chile essa dimensão cristã ou cristianizadora do processo em curso.
Pinochet foi redimido no começo da democratização e depois das eleições, mas redimido no sentido de Hegel, ‘aufgehoben’, conservado e ao mesmo tempo deslocado, já que continuou sendo chefe das Forças Armadas e uma grande voz do país, quando já havia cedido o poder.
Ora, no começo da era pós-Pinochet, no instante de uma anistia geral, é a mais alta hierarquia da igreja que hoje apregoa a reconciliação nacional.
É verdade que, em 1973, após o assassinato de [Salvador] Allende, o cardeal Raul Silva Henríquez tinha corajosamente declarado que ‘os direitos do homem são sagrados’, opondo-se em seguida a Pinochet, à sua maneira.
Porém, velho e doente, ele foi hoje rendido por um arcebispo de Santiago, monsenhor Francisco Javier Errazuriz, que insiste na ‘necessidade de perdoar’.
Será excessivo lembrar que esse arcebispo teve um cargo no Vaticano e na Alemanha, que pertence a uma das famílias mais ricas do país e que seu irmão é um militante do partido de direita chamado Renovação Nacional?
Cabe sempre lembrar, pois se trata de uma situação típica, que, se a Igreja chilena é predominantemente conservadora (o Chile faz parte dos países cristãos o¬nde o divórcio é proibido), também houve padres que lutaram contra a ditadura, pagando com a própria vida.
O mesmo aconteceu na África do Sul: se certa ‘ideologia’ teológica calvinista contribuiu em profundidade para o estabelecimento, justificação e manutenção do apartheid, é preciso, em contrapartida, saudar alguns teólogos e todo um movimento cristão, que corajosamente lutaram contra o racismo de Estado.
Que a Igreja cristã, portanto, em sua fala autorizada, sustente hoje o discurso da reconciliação, que ela ofereça a ‘palavra de reconciliação’, que a reconciliação seja não apenas sua língua mas a língua em que se traduzem - com o conhecimento ou não dos sujeitos envolvidos, todos os discursos mundiais da reconciliação - é algo que nos é confirmado de mil maneiras.
Tradução de Evandro Nascimento.
In: http://www6.ufrgs.br/idea/?page_id=188
*** ***
Estaríamos, portanto, no teatro, dentro de um teatro, nele, mas também perante uma corte, no momento em que não se resolveu a questão de saber se o tribunal, a comissão, a instância do veredicto é humana ou divina, se se trata do julgamento dos homens ou do Juízo Final.
Não é certo que o perdão ainda faça parte de uma lógica do julgamento, mas, se fizesse, seria e continua sendo difícil saber quem perdoa a quem, o quê, a quem e se Deus é ou não a última instância de apelação.
Há sempre essa dualidade das ordens: humana ou divina. Tal dualidade compartilha ou disputa o conceito mesmo de perdão e sobretudo o momento de reconciliação.
A reconciliação pode acontecer entre os homens e Deus, mas é verdade que na maior parte das vezes a temática da reconciliação, embora se faça pela mediação de Deus, tende sempre a humanizar as coisas, a abrandar a dureza do veredicto ou do dever.
Provavelmente nada disso é fortuito: o tema da reconciliação, que certamente não está ausente de nenhuma tradição abraâmica, parece mais cristão do que judeu ou muçulmano; a mediação de Cristo ou do ‘homem Deus’ desempenha um papel que lembrávamos há pouco ao evocar Lutero ou Calvino (o calvinismo marcou profundamente a comunidade branca da África do Sul) e ao recordar que nossos quatro personagens em cena – Hegel, Mandela, Clinton, Tutu – eram cristãos e protestantes, a despeito das diferenças mais ou menos discretas que os opõem e de alguns diferendos que não demoraram a aparecer, por exemplo, entre Tutu e Mandela.
Exceção absoluta
Em ‘O Mercador de Veneza’ [de Shakespeare], assiste-se à astúcia que consiste em fingir colocar o perdão acima do direito:
‘When mercy seasons justice’, como dizia Portia, a mulher disfarçada de advogado, representando os interesses do monarca, do doge e do Estado teológico-político cristão.
Ela (ele) tencionava, a um só tempo, convencer, fingir convencer, na verdade vencer, enganar e converter o judeu etc.
Como em certo texto de Kant, que inscreve a exceção metajurídica do direito de indulto na lei e no fundamento da lei, quisemos assim reconhecer um lugar (o direito de indulto concedido ao soberano, o indulto concedido pelo soberano) em que se juntavam o teológico e o político, o divino e o humano, o celeste e o terrestre.
Esse lugar permanece tanto mais notável por situar a um só tempo uma exceção absoluta – a inscrição do não-jurídico no jurídico, do para-além-da-lei na lei, a transcendência na imanência, e uma exceção que funda a unidade do corpo social e do Estado-nação.
Certamente isso é verdade, ainda hoje, em toda parte o¬nde o direito de indulto continua existindo, mesmo fora das monarquias (na França ou nos EUA, por exemplo), mas também, ‘a contrario’, como uma lei acima das leis, por meio da própria noção de imprescritibilidade.
Quando a noção de imprescritibilidade é inscrita na lei -como é o caso na França, desde 1964, para os crimes contra a humanidade-, ela se torna assim, para além da temporalidade jurídica e portanto humana, um conceito jurídico.
Este leva a compreender que nenhuma lei dos homens, no tempo dos homens, pode subtrair o criminoso ao julgamento.
Não é o oposto do direito de indulto, já que o chefe de Estado ainda pode agraciar um homem condenado por crime contra a humanidade (como acredito que fez Pompidou com Touvier, em nome da reconciliação e da reconstituição da unidade da nação).
Instância transcendente
A imprescritibilidade tem de análogo com o direito de indulto, com o indulto a que parece se opor, o fato de em ambos os casos a ordem humana da lei e o tempo humano do julgamento serem ultrapassados por uma instância transcendente.
Os homens não têm o direito de subtrair o – ou de se subtrair ao – julgamento, qualquer que seja o tempo decorrido após cometer a falta.
A esse respeito, do mesmo modo que o direito de indulto imita o poder divino, de que emana e com que se autoriza, a idéia de imprescritibilidade (algo bastante moderno, enquanto fenômeno jurídico e contemporâneo apenas, ao que saiba, do conceito igualmente moderno de crime contra a humanidade, que é seu correlato na França desde 1964) imita o Juízo Final.
Ele se dirige a um ‘até o final dos tempos’, portanto até um ‘para além do tempo’: um tempo até o final dos tempos.
Mas, como a ordem do prescritível ou do imprescritível não é a do perdoável ou do imperdoável – os quais não têm mais nada a ver, em princípio, com o judiciário ou o penal -, então essa hipérbole do direito sinaliza contudo para um perdão, a saber, um excesso no excesso, um suplemento de transcendência (pode-se, ao mesmo tempo em que se condena perante a corte de Justiça, perdoar o imperdoável) ou ainda para uma reapropriação humanizadora, uma reimanentização da lógica do perdão.
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Redenção de Pinochet
Sabemos que também foi notória no Chile essa dimensão cristã ou cristianizadora do processo em curso.
Pinochet foi redimido no começo da democratização e depois das eleições, mas redimido no sentido de Hegel, ‘aufgehoben’, conservado e ao mesmo tempo deslocado, já que continuou sendo chefe das Forças Armadas e uma grande voz do país, quando já havia cedido o poder.
Ora, no começo da era pós-Pinochet, no instante de uma anistia geral, é a mais alta hierarquia da igreja que hoje apregoa a reconciliação nacional.
É verdade que, em 1973, após o assassinato de [Salvador] Allende, o cardeal Raul Silva Henríquez tinha corajosamente declarado que ‘os direitos do homem são sagrados’, opondo-se em seguida a Pinochet, à sua maneira.
Porém, velho e doente, ele foi hoje rendido por um arcebispo de Santiago, monsenhor Francisco Javier Errazuriz, que insiste na ‘necessidade de perdoar’.
Será excessivo lembrar que esse arcebispo teve um cargo no Vaticano e na Alemanha, que pertence a uma das famílias mais ricas do país e que seu irmão é um militante do partido de direita chamado Renovação Nacional?
Cabe sempre lembrar, pois se trata de uma situação típica, que, se a Igreja chilena é predominantemente conservadora (o Chile faz parte dos países cristãos o¬nde o divórcio é proibido), também houve padres que lutaram contra a ditadura, pagando com a própria vida.
O mesmo aconteceu na África do Sul: se certa ‘ideologia’ teológica calvinista contribuiu em profundidade para o estabelecimento, justificação e manutenção do apartheid, é preciso, em contrapartida, saudar alguns teólogos e todo um movimento cristão, que corajosamente lutaram contra o racismo de Estado.
Que a Igreja cristã, portanto, em sua fala autorizada, sustente hoje o discurso da reconciliação, que ela ofereça a ‘palavra de reconciliação’, que a reconciliação seja não apenas sua língua mas a língua em que se traduzem - com o conhecimento ou não dos sujeitos envolvidos, todos os discursos mundiais da reconciliação - é algo que nos é confirmado de mil maneiras.
Tradução de Evandro Nascimento.
In: http://www6.ufrgs.br/idea/?page_id=188
sábado, 7 de agosto de 2010
Filosofia como disciplina do ensino médio.
A obrigatoriedade da Filosofia no ensino médio já é uma realidade, isso agora é fato, pois agora é lei. Penso, porém, que não devemos sobrecarregar a Filosofia, como disciplina obrigatória do ensino médio, com expectativas muito grandes como se ela fosse a salvação da Pátria que vai resolver todos os problemas por que passa o sistema educacional brasileiro e de lambuja sanará outras questões sociais e estruturais básicas por que passa a nação brasileira.
Essa idéia se fundamenta na crença de que o estudante ou o trabalhador, não tem senso crítico, não sabe pensar a realidade criticamente, sendo assim, é preciso que venha de fora alguém com um saber verdadeiro, uma intervenção quase que divina para conscientizar as mentes atrofiadas. E essa sobrecarga, essa intermediação, é colocada sobre os ombros do professor, e no caso em questão por conta da recente obrigatoriedade pode ser colocada, também, sobre o professor de Filosofia. Claro que não quero aqui negar a importância do espaço da Escola como lugar privilegiado para mudanças e transformações sociais. Fazer isso seria negar a própria História!
Porém, as experiência de estágio que realizei no curso de Licenciatura em Filosofia junto as Escolas de ensino médio, mostraram que a realidade é bem diferente, ou seja, senso crítico é o que não falta entre os estudantes, e o professor não deve se sobrecarregar em sua prática com uma auto-cobrança exacerbada no que se refere a provocar acentuadas reviravoltas na vida dos indivíduos e na realidade à sua volta.
Aprendi em minhas experiências como Assistente Social que essa sobrecarga de expectativas somente trás angústia para o profissional, que tem afetada sua saúde física e psíquica. A Síndrome de Burnout¹ é uma evidência dessa sobrecarga.
Quando cursava Bacharelado em Serviço Social eu percebia que havia de forma latente entre alunos e profissionais da área - e por observações que tenho feito acredito que ainda há - uma ansiedade e uma frustração muito grande, pois introjetamos um forte idealismo de mudar a realidade, de conscientizar, de transformar a sociedade, e isso de um dia para o outro. Creio que a forte conotação marxista do referencial teórico do próprio curso gera essa auto-cobrança. No entanto, essas mudanças bruscas no âmbito político, social, econômico com maior freqüência acontecem quando há insurgência de revoltas, manifestações e revoluções populares - que são importantíssimas para os saltos qualitativos que acontecem na História e que, sem dúvida, a prática e o compromisso do professor pode (ou não) instigar.
Outro aspecto a se notar é que o profissional acaba por passar para os indivíduos com os quais trabalha a mesma angústia. No caso dos alunos, o professor sendo muitas vezes referência simbólica e arquétipo para sua formação, essa angústia pode ser elemento absorvido fortemente pela personalidade de muitos alunos. Ou seja, angústia gerando angústia. Com certeza esse seria um bom tema para um Projeto de Pesquisa, em?!
Enfim, credito que essa expectativa exagerada também se aplica à Filosofia como disciplina.
Creio, todavia, que a postura filosófica de um professor é provocar e fazer fluir dos próprios indivíduos, ou seja, dos alunos, aquele conhecimento que já está nele.
Trata-se de uma prática provocativa, que faz vir à superfície um saber já existente e que ao mesmo tempo é novo. Sendo assim, leitura que o aluno fará da realidade a sua volta pode divergir daquela que o professor sustenta, e o rumo, ou a aplicação na prática que o aluno dará ao conhecimento que porventura fluir dessas provocações dependerá dos impulsos individuais do aluno.
A idéia que temos da prática de um professor em sala de aula é a de dar aos alunos respostas prontas, que os alunos esperam que o professor tenha, e, que o próprio professor mesmo acredita que tem, e, que imagina que tem que ter. É a velha história do professor ser o detentor do saber, enquanto o aluno o ignorante que precisa aprender do mestre.
Acredito que o diferencial da Filosofia é o espaço em branco, o algo mais por trás das palavras, por trás das respostas prontas, até mesmo por trás dos silêncios e das interrogações que os indivíduos após as aulas podem levar consigo e que podem provocar neles um saudável movimento interior... Os movimentos exteriores, se acontecerem, serão conseqüência das definições que o próprio indivíduo formulou, dos conceitos que ele mesmo inventou.
Extirpa-se, assim, do professor a culpa, o remorso, a sobrecarga de ter de conscientizar e não conseguir fazê-lo, de ter que formar cidadãos críticos e criativos e não conseguir formá-los, de ter que ser portador de um saber verdadeiro, que deve ser bem transmitido para ser plenamente absorvido pelos alunos, de ter, de ter, de ter e de ter...
No entanto não se trata de uma postura descompromissada diante dos alunos e da realidade, se trata de não rotular o professor de filosofia como salvador da pátria e portador de uma sabedoria sublime e exclusiva!
Creio que isso representa uma pequena pista do que seja a prática da Filosofia como disciplina... Temos que buscar juntos outras pistas...
1- A Síndrome de Burnout é causada por circunstâncias relativas às atividades profissionais, ocasionando sintomas físicos, comportamentais, afetivos e cognitivos. Inicialmente foi observada em trabalhadores da área da saúde que desempenham uma função assistencial, caracterizada por um estado de atenção intenso e prolongado com pessoas em situação de necessidade e dependência. Com o passar do tempo, pôde ser identificada em outras profissões, entre elas a de professor.
De acordo com a pesquisadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB (Universidade de Brasília), Iône Vasques-Menezes, no caso do professor, a razão para a incidência da síndrome está ligada, sobretudo, à falta de reconhecimento. "A desvalorização do professor, seja ela por parte do sistema, dos alunos e da própria sociedade, é um dos maiores agentes para a ocorrência do Burnout", explica.
O Burnout em professores pode ser caracterizado por um estresse crônico produzido pelo contato com as demandas do ambiente acadêmico e suas problemáticas. Para a pesquisadora, especialmente aquelas que não dependem apenas da ação dos docentes para serem resolvidas. "Existem problemas que estão muito além da ação direta dos professores, principalmente onde há uma situação de degradação do sistema. Nestes casos, a sensação de impotência é mais acentuada", revela.
Além disso, o posicionamento dos alunos em sala de aula também contribui para um maior desgaste. Em muitos casos, a indisciplina é a grande responsável por uma eventual sensação de frustração e até a desmotivação do profissional. Segundo Iône, não são raros os professores que se queixam da falta de interesse dos alunos e assumem a culpa por este fato acreditando que deveriam dominar as mais diferentes técnicas para estimular o aprendizado.
In: http://www.universia.com.br/docente/materia.jsp?materia=5750
Izabel Lisboa
Julho/2008
Essa idéia se fundamenta na crença de que o estudante ou o trabalhador, não tem senso crítico, não sabe pensar a realidade criticamente, sendo assim, é preciso que venha de fora alguém com um saber verdadeiro, uma intervenção quase que divina para conscientizar as mentes atrofiadas. E essa sobrecarga, essa intermediação, é colocada sobre os ombros do professor, e no caso em questão por conta da recente obrigatoriedade pode ser colocada, também, sobre o professor de Filosofia. Claro que não quero aqui negar a importância do espaço da Escola como lugar privilegiado para mudanças e transformações sociais. Fazer isso seria negar a própria História!
Porém, as experiência de estágio que realizei no curso de Licenciatura em Filosofia junto as Escolas de ensino médio, mostraram que a realidade é bem diferente, ou seja, senso crítico é o que não falta entre os estudantes, e o professor não deve se sobrecarregar em sua prática com uma auto-cobrança exacerbada no que se refere a provocar acentuadas reviravoltas na vida dos indivíduos e na realidade à sua volta.
Aprendi em minhas experiências como Assistente Social que essa sobrecarga de expectativas somente trás angústia para o profissional, que tem afetada sua saúde física e psíquica. A Síndrome de Burnout¹ é uma evidência dessa sobrecarga.
Quando cursava Bacharelado em Serviço Social eu percebia que havia de forma latente entre alunos e profissionais da área - e por observações que tenho feito acredito que ainda há - uma ansiedade e uma frustração muito grande, pois introjetamos um forte idealismo de mudar a realidade, de conscientizar, de transformar a sociedade, e isso de um dia para o outro. Creio que a forte conotação marxista do referencial teórico do próprio curso gera essa auto-cobrança. No entanto, essas mudanças bruscas no âmbito político, social, econômico com maior freqüência acontecem quando há insurgência de revoltas, manifestações e revoluções populares - que são importantíssimas para os saltos qualitativos que acontecem na História e que, sem dúvida, a prática e o compromisso do professor pode (ou não) instigar.
Outro aspecto a se notar é que o profissional acaba por passar para os indivíduos com os quais trabalha a mesma angústia. No caso dos alunos, o professor sendo muitas vezes referência simbólica e arquétipo para sua formação, essa angústia pode ser elemento absorvido fortemente pela personalidade de muitos alunos. Ou seja, angústia gerando angústia. Com certeza esse seria um bom tema para um Projeto de Pesquisa, em?!
Enfim, credito que essa expectativa exagerada também se aplica à Filosofia como disciplina.
Creio, todavia, que a postura filosófica de um professor é provocar e fazer fluir dos próprios indivíduos, ou seja, dos alunos, aquele conhecimento que já está nele.
Trata-se de uma prática provocativa, que faz vir à superfície um saber já existente e que ao mesmo tempo é novo. Sendo assim, leitura que o aluno fará da realidade a sua volta pode divergir daquela que o professor sustenta, e o rumo, ou a aplicação na prática que o aluno dará ao conhecimento que porventura fluir dessas provocações dependerá dos impulsos individuais do aluno.
A idéia que temos da prática de um professor em sala de aula é a de dar aos alunos respostas prontas, que os alunos esperam que o professor tenha, e, que o próprio professor mesmo acredita que tem, e, que imagina que tem que ter. É a velha história do professor ser o detentor do saber, enquanto o aluno o ignorante que precisa aprender do mestre.
Acredito que o diferencial da Filosofia é o espaço em branco, o algo mais por trás das palavras, por trás das respostas prontas, até mesmo por trás dos silêncios e das interrogações que os indivíduos após as aulas podem levar consigo e que podem provocar neles um saudável movimento interior... Os movimentos exteriores, se acontecerem, serão conseqüência das definições que o próprio indivíduo formulou, dos conceitos que ele mesmo inventou.
Extirpa-se, assim, do professor a culpa, o remorso, a sobrecarga de ter de conscientizar e não conseguir fazê-lo, de ter que formar cidadãos críticos e criativos e não conseguir formá-los, de ter que ser portador de um saber verdadeiro, que deve ser bem transmitido para ser plenamente absorvido pelos alunos, de ter, de ter, de ter e de ter...
No entanto não se trata de uma postura descompromissada diante dos alunos e da realidade, se trata de não rotular o professor de filosofia como salvador da pátria e portador de uma sabedoria sublime e exclusiva!
Creio que isso representa uma pequena pista do que seja a prática da Filosofia como disciplina... Temos que buscar juntos outras pistas...
1- A Síndrome de Burnout é causada por circunstâncias relativas às atividades profissionais, ocasionando sintomas físicos, comportamentais, afetivos e cognitivos. Inicialmente foi observada em trabalhadores da área da saúde que desempenham uma função assistencial, caracterizada por um estado de atenção intenso e prolongado com pessoas em situação de necessidade e dependência. Com o passar do tempo, pôde ser identificada em outras profissões, entre elas a de professor.
De acordo com a pesquisadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB (Universidade de Brasília), Iône Vasques-Menezes, no caso do professor, a razão para a incidência da síndrome está ligada, sobretudo, à falta de reconhecimento. "A desvalorização do professor, seja ela por parte do sistema, dos alunos e da própria sociedade, é um dos maiores agentes para a ocorrência do Burnout", explica.
O Burnout em professores pode ser caracterizado por um estresse crônico produzido pelo contato com as demandas do ambiente acadêmico e suas problemáticas. Para a pesquisadora, especialmente aquelas que não dependem apenas da ação dos docentes para serem resolvidas. "Existem problemas que estão muito além da ação direta dos professores, principalmente onde há uma situação de degradação do sistema. Nestes casos, a sensação de impotência é mais acentuada", revela.
Além disso, o posicionamento dos alunos em sala de aula também contribui para um maior desgaste. Em muitos casos, a indisciplina é a grande responsável por uma eventual sensação de frustração e até a desmotivação do profissional. Segundo Iône, não são raros os professores que se queixam da falta de interesse dos alunos e assumem a culpa por este fato acreditando que deveriam dominar as mais diferentes técnicas para estimular o aprendizado.
In: http://www.universia.com.br/docente/materia.jsp?materia=5750
Izabel Lisboa
Julho/2008
eis a razão dos meus poemas
para que não te esqueças dos meus beijos
dos meus olhos
e do meu desejo
e de cada afago
daquela nossa emoção
só nossa
e da minha saudade
e do meu amor constante
eis a razão dos meus poemas
nossa terna comunicação
nosso oásis em meio à seca
uma ponte que nos faz um
que encurta nossa trágica distância
eis a razão dos meus poemas
e quando chegar o frio
e quando a dor no peito apertar
e não me tiveres por perto para te acalentar
eis a razão dos meus poema
e quando quiseres voltar
mas o rumo que traz até mim
você não encontrar
eis a razão dos meus poemas
que fiz para te nortear
***
Izabel Lisboa
dos meus olhos
e do meu desejo
e de cada afago
daquela nossa emoção
só nossa
e da minha saudade
e do meu amor constante
eis a razão dos meus poemas
nossa terna comunicação
nosso oásis em meio à seca
uma ponte que nos faz um
que encurta nossa trágica distância
eis a razão dos meus poemas
e quando chegar o frio
e quando a dor no peito apertar
e não me tiveres por perto para te acalentar
eis a razão dos meus poema
e quando quiseres voltar
mas o rumo que traz até mim
você não encontrar
eis a razão dos meus poemas
que fiz para te nortear
***
Izabel Lisboa
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
As Palavras
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.
José Saramago
[In: Deste Mundo e do Outro – Crônicas – 2ª Edição (1985)]
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.
José Saramago
[In: Deste Mundo e do Outro – Crônicas – 2ª Edição (1985)]
Sócrates era sabidinho!
Nas férias do final do ano passado li, pela primeira vez, a obra O Banquete de Platão. Espero que seja compreensível esse meu pecado em ler tão tarde obra tão importante para quem trilha os caminhos da senhora Sofia (estou terminando o curso de Licenciatura em Filosofia), mas sou nova nesse vasto campo da literatura dos grandes pensadores. Mas um dia eu chego lá! Aguarde e confie!
E lá estou eu lendo O Banquete, e lá estavam eles, os dignos e sábios gregos, reunidos para beber, comer, pensar e dialogar, aliás, como falam bonito os devotados senhores, em?!
Presente estava Sócrates. O velho e sapientíssimo Sócrates! Conversa vai, conversa vem, entre um elogio e outro, resolvem elogiar o deus Amor. E tome eloqüência, falatório interminável. Como dizia um padre conhecido meu, professor de Filosofia da UFES, que ao se deparar com um grupo de paroquianas mais afoitas no falatório, exclamava com um sorrisinho maroto, “parecem um bando de periquitos numa fruteira”. Pois é, apesar da pompa dos nobres gregos, refestelados em seu banquete, tive essa imagem e impressão do tal palavrório, ainda mais por que o vinho, a marvada pinga dos gregos, rolava solta.
Enfim, voltemos ao Amor. Depois de discursos animados e eloqüentes os convivas querem ouvir o venelável mestle Sócrates. Imagino que nesse momento ninguém nem respirava, afinal era o home que iria falar!
E para minha surpresa o que faz o senhor Sócrates?! Toma emprestado o pensamento e o discurso de uma mulher para falar do Amor! Olha que coisa fofa!
Li em uma nota de rodapé, do tradutor da coleção Os Pensadores, que há um forte indício de que a alusão a essa sacerdotisa deveria ser um fato fictício relatado por Sócrates. Mas isso não é relevante! Se o fato é fictício, isso mostra que o imaginário de Sócrates estava impregnado de uma delicada valoração com relação ao sexo feminino! Olha que menino maroto!
Veja como ele começa seu elogio ao Amor: “[...] o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros – foi ela que uma vez, porque os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos recuar a doença, e era ela que me instruía nas questões de amor – o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir-vos [...]” (PLATÃO, 1996, p. 33) *
Descobri que a Filosofia Antiga não é tão antiga assim. Sócrates colocando em destaque o pensamento de uma mulher é esplendido. Depois dessa to me achando!
Sócrates era sabidinho, em?! Agora não venham me dizer que mulher era coisa de segunda categoria da Grécia Antiga, Sócrates mostrou o contrário!
Izabel Lisboa
Nas férias do final do ano passado li, pela primeira vez, a obra O Banquete de Platão. Espero que seja compreensível esse meu pecado em ler tão tarde obra tão importante para quem trilha os caminhos da senhora Sofia (estou terminando o curso de Licenciatura em Filosofia), mas sou nova nesse vasto campo da literatura dos grandes pensadores. Mas um dia eu chego lá! Aguarde e confie!
E lá estou eu lendo O Banquete, e lá estavam eles, os dignos e sábios gregos, reunidos para beber, comer, pensar e dialogar, aliás, como falam bonito os devotados senhores, em?!
Presente estava Sócrates. O velho e sapientíssimo Sócrates! Conversa vai, conversa vem, entre um elogio e outro, resolvem elogiar o deus Amor. E tome eloqüência, falatório interminável. Como dizia um padre conhecido meu, professor de Filosofia da UFES, que ao se deparar com um grupo de paroquianas mais afoitas no falatório, exclamava com um sorrisinho maroto, “parecem um bando de periquitos numa fruteira”. Pois é, apesar da pompa dos nobres gregos, refestelados em seu banquete, tive essa imagem e impressão do tal palavrório, ainda mais por que o vinho, a marvada pinga dos gregos, rolava solta.
Enfim, voltemos ao Amor. Depois de discursos animados e eloqüentes os convivas querem ouvir o venelável mestle Sócrates. Imagino que nesse momento ninguém nem respirava, afinal era o home que iria falar!
E para minha surpresa o que faz o senhor Sócrates?! Toma emprestado o pensamento e o discurso de uma mulher para falar do Amor! Olha que coisa fofa!
Li em uma nota de rodapé, do tradutor da coleção Os Pensadores, que há um forte indício de que a alusão a essa sacerdotisa deveria ser um fato fictício relatado por Sócrates. Mas isso não é relevante! Se o fato é fictício, isso mostra que o imaginário de Sócrates estava impregnado de uma delicada valoração com relação ao sexo feminino! Olha que menino maroto!
Veja como ele começa seu elogio ao Amor: “[...] o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros – foi ela que uma vez, porque os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos recuar a doença, e era ela que me instruía nas questões de amor – o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir-vos [...]” (PLATÃO, 1996, p. 33) *
Descobri que a Filosofia Antiga não é tão antiga assim. Sócrates colocando em destaque o pensamento de uma mulher é esplendido. Depois dessa to me achando!
Sócrates era sabidinho, em?! Agora não venham me dizer que mulher era coisa de segunda categoria da Grécia Antiga, Sócrates mostrou o contrário!
Izabel Lisboa
fardo
Carrega o fardo do teu lirismo poeta
rasga o espaço e o agora
sustenta tu’alma atada ao corpo, que persiste apesar
re-significa o mundo poeta
teu lugar é lugar nenhum, e
em cada partida tua
espalha teus lírios...
Acorda com eles a alma dos homens
Izabel Lisboa
vida de cão
vida de cão em?!
nem vem
nessa de culpas
e desculpas
não caio mais
lava primeiro a cara
esfrega a alma
enxágua
e se refaz
vida bandida em?!
purificar-se dói
da lama
da poça
da sarna
do fundo
do poço
da vida
de nós
vida precária em?!
de cão
pulguento
sarnento
virador de latas
virador de mundos
do avesso virando
batendo
menos que apanhando
vida sórdida em?!
da mesma laia
somos todos nós
engolindo seco
chutando o balde
amanhã tem mais
voltaremos
à lama
e ao banho após
***
Izabel Lisboa
volta
no fundo de minhas gavetas
pedras de naftalina impedem as traças
de corroerem os teus retratos
e as tuas cartas...
- O que foi que eu não te fiz?!
Izabel Lisboa
pedras de naftalina impedem as traças
de corroerem os teus retratos
e as tuas cartas...
- O que foi que eu não te fiz?!
Izabel Lisboa
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
resumo
espera
fecha as cortinas
guarda silêncio
o mistério é doce
amo
a penumbra
e tua fala quente
monossilábica
na minha nuca
Izabel Lisboa
fecha as cortinas
guarda silêncio
o mistério é doce
amo
a penumbra
e tua fala quente
monossilábica
na minha nuca
Izabel Lisboa
fluidez
as vezes parece que liquidifico-me
ali derramada como poça d'agua
suplico alguém para me sorver
para reconstituir minha solidez perdida
aquilo que eu pensava dar sentido à vida
ledo engano
derramar-me é o essencial
solidez é trivial
Izabel Lisboa
ali derramada como poça d'agua
suplico alguém para me sorver
para reconstituir minha solidez perdida
aquilo que eu pensava dar sentido à vida
ledo engano
derramar-me é o essencial
solidez é trivial
Izabel Lisboa
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