segunda-feira, 25 de abril de 2011
desconcerto
sobrevoando o tronco seco de uma árvore
um corvo agourento espreita
-Alan Poe foi um profeta...
um vento estranho assobia e varre a terra
talvez prenuncio de um inverno fora de hora
de um avesso do avesso desconhecido...desconcertante
ontem os feixes eram levados entre lágrimas
abundante fé num céu vindouro
certeza de uma terra prometida...
hoje?! cadê o cheiro de terra depois da chuva...cheiro de vida
cadê a terra...nossos sete palmos dela
nosso repouso eterno...cadê?!
o mundo concreto é de concreto
mesmo as covas...
são de frio concreto...muito frio...muito
nem os trinta e dois dentes brilhantes e brancos
do sorriso de Berenice
me trazem paz
sobrevoando o tronco seco de uma árvore
um corvo agourento espreita
-Alan Poe foi um profeta...Alan Poe foi um profeta...
Izabel Lisboa
domingo, 24 de abril de 2011
A carne alva de Proserpina
Gianlorenzo Bernini - O Rapto de Proserpina
chegarei à tua alma
somente isso almejo
nela farei meu ancoradouro
aportarei para sempre ali
sou deus
minha divindade te subjugará
ante tamanho fascínio te levarei comigo
rumo às profundezas dos abismos da terra fértil
percorrerei trilhas e desfiladeiros
vales e cavernas misteriosas
deleitosos caminhos de tua carne alva
sorverei o néctar dos sulcos mais profundos
que nenhum mortal ousou tocar
despojado de minha divindade
serei escravo de tuas entranhas
nos verões e primaveras
os que habitam a superfície da terra
gozarão saciados com tua presença
padecerei fome...
nos invernos e outonos
tu serás minha...
ai dos homens... será para eles tempo de penúria
sábado, 23 de abril de 2011
tal & qual
e esse seu lado pragmático
e essa sua cara lavada
e toda essa sua estupidez
de agredir primeiro
e ponderar depois
ambíguo insensato nada sutil
cheio de artimanhas
dizendo que isso faz parte
afinal você é humano
não obstante
na maioria das vezes... desumano!
buscando suas certezas
tateando seu chão
aos trancos e barrancos
de um jeito ou de outro
tentando amenizar o seu desgosto
de maneira insana
as vezes camusiana
[absurdamente]
ou kierkegaardiana
[desesperadamente]
contudo
apesar de tão diferentes
há entre nós certa simbiose...
buscamos juntos
à mesma proporção
cada um a sua maneira
aquela mesma emoção...
revolta armada
- uma cabeça quente não pensa,
uma cabeça quente ferve, fervilha
e isso é bom... isso é muito bom
enfiaram-me goela abaixo
os disparates de sempre
agora é hora do vômito:
- não venham falar em liberdade
carcereiros de plantão
pregadores da liberdade, vocês outros
enquanto constroem prisões
desfiam rosários de compaixão
trancafiam uma alma
apenas com um olhar
seus navios, ontem negreiros
hoje empilham em seus porões
todas as cores do arco-íris
- éramos todos prisioneiros
quando fizemos aquelas promessas
não passávamos de prisioneiros
tínhamos tampões nos olhos
como as viseiras dos animais de carga
tínhamos mãos e pés acorrentados
aprendemos somente depois
em nossas lutas
no campo de batalha
que verdadeira quimera
é não ter o rabo preso e
conservar sempre, sempre
a língua solta... E afiada
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Under Pressure
"E o amor te desafia a se importar com
As pessoas no limite da noite,
E o amor desafia você a mudar nosso modo de
Nos preocupar com nós mesmos
Esta é nossa última dança
Esta é nossa última dança
Isto somos nós mesmos
Sob pressão
Sob pressão
Pressão..."
quinta-feira, 21 de abril de 2011
um [?] colecionador de alter egos
persona
quebrou seu melhor espelho
em mil e Um fragmentos de si
semeou eus
embrenhou-se naquela multidão pessoal
[e virtual]
desocupou-se de si
descongestionou-se de si
ocultou-se [neles e deles]
espalhou seus cacos
fez-se anônimo
pseudônimo[s]
num caleidoscópio de si
[e era tão bom
que todos pediam bis...]
que todos pediam bis...]
resposta pro Chico
sem me afobar ter que esperar milênios
e guardar no fundo de um armário
o amor que hoje não posso te dar
- terei eu esse frio sangue?
de aguardar um escafandrista chegar
e num futuro remoto e distante
numa cidade submersa explorar
minha casa
meu quarto
minhas coisas
meus desvãos
aguardar e aguardar
que sábios decifrem
o eco de minhas palavras
os fragmentos de meus poemas
tendo de me contentar
que futuros amantes se amem
sem saber
com o amor que um dia
deixei pra você?
- sobre-humana paciência...
quarta-feira, 20 de abril de 2011
o cheiro do ralo
Ele entra. Coloca o violino em minha mesa. Não fala nada. Nem boa tarde. Fico em silêncio.
Afinal o interesse é dele. Então ele fala, quanto? Chuto, tanto. Ele coça a barba.
Esse violino deve ter história, chuto. Ele me olha. Seu olhar me incomoda. Ele pega o violino e sai.
Mas antes de fechar a porta, solta:
Aqui cheira a merda.
É o ralo.
Não. Não é não.
Claro que é.
O cheiro vem do ralo.
Ele entra e fecha a porta.
O cheiro vem de você.
Olha lá.
Levanto e caminho até o banheirinho.
Olha lá, o cheiro vem do ralinho.
Ele ri coçando a barba.
Quem usa esse banheiro?
Eu.
Quem mais?
Só eu.
Ele continua com o sorriso no rosto, solta:
E então, de onde vem o cheiro?"
(trecho de O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli - livro que inspirou o filme).
Afinal o interesse é dele. Então ele fala, quanto? Chuto, tanto. Ele coça a barba.
Esse violino deve ter história, chuto. Ele me olha. Seu olhar me incomoda. Ele pega o violino e sai.
Mas antes de fechar a porta, solta:
Aqui cheira a merda.
É o ralo.
Não. Não é não.
Claro que é.
O cheiro vem do ralo.
Ele entra e fecha a porta.
O cheiro vem de você.
Olha lá.
Levanto e caminho até o banheirinho.
Olha lá, o cheiro vem do ralinho.
Ele ri coçando a barba.
Quem usa esse banheiro?
Eu.
Quem mais?
Só eu.
Ele continua com o sorriso no rosto, solta:
E então, de onde vem o cheiro?"
(trecho de O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli - livro que inspirou o filme).
terça-feira, 19 de abril de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
de Lisboa à Vera Cruz
ser Lisboa...
Pessoa
lusitana
mais que além mar
sobre cascos de caravelas
inundar o Atlântico
em prantos
não querendo ir
não podendo ficar
para não esquecer os poetas de cá:
doce seria morrer no mar...
entre pátrias
entre vagas e borrascas
gaivotas e fragatas
entre pátrias amadas
fados e pagodes
descobrindo Brasis
recitando Camões
desmascarando Cabrais
resgatando Portugais
mundo velho
novo mundo
por aqui
por lá
lusitanamente
brasileiramente
mamelucamente
ser...
Izabel Lisboa
terça-feira, 12 de abril de 2011
apetrechos e cangalhas
o dotô sabe das coisa
é letrado nos conhecimento
eu, de minha parte
aprendi a vida no lombo de um jumento
levando caçuás na canga
e sol à queimar as venta
quem sabe num era eu o bicho
que devia servir de assento
ao invés do pobre jumento?!
Izabel Lisboa
sábado, 9 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
é
um fio de suspiro
com hálito de vida
uma pequena janela da alma
donde se debruçam olhares
um minúsculo grão de areia
com jeito nobre de esperança
um bater de asas de colibri
onde as almas se refrescam
um contínuo aperto no peito
que nas ausências inunda os leitos
um não sei que com jeito de dor
que os poetas chamam: amor
Izabel Lisboa
domingo, 3 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
o pior cego...
máscaras gastas
não escondem a mesmice de sempre
onde tudo é nada
onde tudo é fuga
pela porta dos fundos
ou por buracos de esgoto
onde lixo e luxo se devoram
regados a vinho tinto
sob a luz de velas brancas
[enquanto]do lado de fora
homens morrem dormentes
carregando no lombo as dores
de contemporâneos quilombos
e para muito além
de onde a vista alcança
a manada pasta
[despreocupada]
desavisada à beira do precipício
cozinhando em banho-maria
[a vida]
ao sol de qualquer meio dia
***
Izabel Lisboa
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