terça-feira, 10 de agosto de 2010

que bom!
















que bom!

os rios estão nos leitos
a água continua matando a sede
o sol brilhará amanhã
tudo que sobe tem descido
a sujeira está sob o capacho
Kierkeggard Sartre e Nietzsche estão mortos
e bem enterrados
os macacos evoluíram
os pingos estão nos is
os pecadores irão para o inferno
os escolhidos para o céu
reina a paz na terra do nunca
todos seremos [?] para sempre
gozemos...

que bom!
              eu...

Vanessa Mae : Fantasy on a theme from Caravans

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

mercado[livre?]

aprenda línguas estudando em casa
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***

Izabel Lisboa

fiat lux

derrama-se a lua sobre a rua nua
tênue véu da noite
entrecortado tão somente
pelo frêmito das asas
e o voo trêmulo
de mariposas excitadas
em torno às indiferentes incandescentes
no mais
a rua está muda e imóvel
a madrugada arrasta-se pesadamente
e pacientemente aguarda
até que o tempo ditador implacável
artífice derradeiro
decida-se emoldurar em tons vibrantes
a ensolarada paisagem matinal...
entrarão em cena novos atores:
madames e totós babás e bebês
padeiros e pães carteiros e cartas
pedreiros e pedras jardineiros e jardins
porteiros e portas jornaleiros e jornais
burburinhos matinais...
***
Izabel Lisboa

tempo morto




















definhava dia após dia
macerado o corpo
em dores [i]lícitas
e [i]morais

mendigava olhares
migalhas de salvação
para o inferno
sabia que não iria
já estava nele

agarrou-se à missão
impossível
de matar o tempo
munido apenas
de ressentimento

tentativas metódicas
apesar do esforço
e da boa vontade
conseguiu apenas
quebrar três relógios...
***
Izabel Lisboa

áurea lei

o teu olhar
sim
esse teu olhar
que agora me lê
é olhar outro
único biográfico [livre]
capaz de fazer dos textos
e dos contextos
a leitura que bem
[ou mal] entender
***
Izabel Lisboa
eu...


ser poeta

tênue idéia
lançar um olhar lírico sobre dores e amores
sorver e absorver a essência das aparências
abismar-se diante dos abismos existenciais
pontuar as possibilidades [ou a falta de]
arremeter a alma ao céu quando for impossível pousar
pousar quando for imprescindível
deixar espaços em branco nas margens e entrelinhas.
abusar das exclamações interrogações e reticências...
um eterno não dar conta...
***
Izabel Lisboa

Stand By Me | Playing For Change | Song Around the World


Algumas canções tem a força de verdadeiros TRATADOS DE PAZ!!!
Vídeo esplendido!!! Músicos de rua de várias partes do mundo reunidos numa MARAVILHOSA gravação
!

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos pais

MEU PAI
Quando pequena eu tinha muito medo de chuva forte. Meu pai me acalmava dizendo que não precisava ter medo, pois a chuva lavava tudo, e levava embora todos os males e as dores da terra... Perto dele aprendi a não ter mais medo da chuva forte... Longe dele aprendi a sentir saudades...
Izabel Lisboa
08/08/2010

Paternidade animal


Ache outros vídeos como este em Academia Feminina Espirito-santense de Letras

Essas coisas de lamber a cria, catar piolho, fazer cafuné, é bom demais e eu sou adepta fervorosa! Tenho um filho que já está com 22 anos e mesmo ele não sendo mais criança pequena quando vi o vídeo senti essa vontade animal de abraçá-lo e beijá-lo!

A violência contra a criança é chocante. A disparidade entre a inocencia da criança e a perversidade do adulto que pratica contra ela o ato de violência é pavorosa e infelizmente é uma realidade que deixa marcas terríveis para o resto da vida. É preciso denunciá-la e combatê-la. Apesar do vídeo se restringir aos maus tratos paternos no âmbito doméstico, a violência no que concerne ao descaso público com a saúde, educação, lazer, etc. da criança, não só no Brasil, mas no mundo todo, é outra face terrível dessa realidade.

Izabel Lisboa

Mulher - Flor de Jardim

Lógica do perdão, texto de Jacques Derrida

Conferência do autor de ‘A farmácia de Platão’, em agosto passado, no Rio, em uma de suas últimas aparições públicas. Derrida discute o processo de reconciliação na África do Sul pós-Aprtheid e no Chile depois de Pinochet.
*** ***
Estaríamos, portanto, no teatro, dentro de um teatro, nele, mas também perante uma corte, no momento em que não se resolveu a questão de saber se o tribunal, a comissão, a instância do veredicto é humana ou divina, se se trata do julgamento dos homens ou do Juízo Final.

Não é certo que o perdão ainda faça parte de uma lógica do julgamento, mas, se fizesse, seria e continua sendo difícil saber quem perdoa a quem, o quê, a quem e se Deus é ou não a última instância de apelação.

Há sempre essa dualidade das ordens: humana ou divina. Tal dualidade compartilha ou disputa o conceito mesmo de perdão e sobretudo o momento de reconciliação.

A reconciliação pode acontecer entre os homens e Deus, mas é verdade que na maior parte das vezes a temática da reconciliação, embora se faça pela mediação de Deus, tende sempre a humanizar as coisas, a abrandar a dureza do veredicto ou do dever.

Provavelmente nada disso é fortuito: o tema da reconciliação, que certamente não está ausente de nenhuma tradição abraâmica, parece mais cristão do que judeu ou muçulmano; a mediação de Cristo ou do ‘homem Deus’ desempenha um papel que lembrávamos há pouco ao evocar Lutero ou Calvino (o calvinismo marcou profundamente a comunidade branca da África do Sul) e ao recordar que nossos quatro personagens em cena – Hegel, Mandela, Clinton, Tutu – eram cristãos e protestantes, a despeito das diferenças mais ou menos discretas que os opõem e de alguns diferendos que não demoraram a aparecer, por exemplo, entre Tutu e Mandela.

Exceção absoluta

Em ‘O Mercador de Veneza’ [de Shakespeare], assiste-se à astúcia que consiste em fingir colocar o perdão acima do direito:

‘When mercy seasons justice’, como dizia Portia, a mulher disfarçada de advogado, representando os interesses do monarca, do doge e do Estado teológico-político cristão.

Ela (ele) tencionava, a um só tempo, convencer, fingir convencer, na verdade vencer, enganar e converter o judeu etc.

Como em certo texto de Kant, que inscreve a exceção metajurídica do direito de indulto na lei e no fundamento da lei, quisemos assim reconhecer um lugar (o direito de indulto concedido ao soberano, o indulto concedido pelo soberano) em que se juntavam o teológico e o político, o divino e o humano, o celeste e o terrestre.

Esse lugar permanece tanto mais notável por situar a um só tempo uma exceção absoluta – a inscrição do não-jurídico no jurídico, do para-além-da-lei na lei, a transcendência na imanência, e uma exceção que funda a unidade do corpo social e do Estado-nação.

Certamente isso é verdade, ainda hoje, em toda parte o¬nde o direito de indulto continua existindo, mesmo fora das monarquias (na França ou nos EUA, por exemplo), mas também, ‘a contrario’, como uma lei acima das leis, por meio da própria noção de imprescritibilidade.

Quando a noção de imprescritibilidade é inscrita na lei -como é o caso na França, desde 1964, para os crimes contra a humanidade-, ela se torna assim, para além da temporalidade jurídica e portanto humana, um conceito jurídico.

Este leva a compreender que nenhuma lei dos homens, no tempo dos homens, pode subtrair o criminoso ao julgamento.

Não é o oposto do direito de indulto, já que o chefe de Estado ainda pode agraciar um homem condenado por crime contra a humanidade (como acredito que fez Pompidou com Touvier, em nome da reconciliação e da reconstituição da unidade da nação).

Instância transcendente

A imprescritibilidade tem de análogo com o direito de indulto, com o indulto a que parece se opor, o fato de em ambos os casos a ordem humana da lei e o tempo humano do julgamento serem ultrapassados por uma instância transcendente.

Os homens não têm o direito de subtrair o – ou de se subtrair ao – julgamento, qualquer que seja o tempo decorrido após cometer a falta.

A esse respeito, do mesmo modo que o direito de indulto imita o poder divino, de que emana e com que se autoriza, a idéia de imprescritibilidade (algo bastante moderno, enquanto fenômeno jurídico e contemporâneo apenas, ao que saiba, do conceito igualmente moderno de crime contra a humanidade, que é seu correlato na França desde 1964) imita o Juízo Final.

Ele se dirige a um ‘até o final dos tempos’, portanto até um ‘para além do tempo’: um tempo até o final dos tempos.

Mas, como a ordem do prescritível ou do imprescritível não é a do perdoável ou do imperdoável – os quais não têm mais nada a ver, em princípio, com o judiciário ou o penal -, então essa hipérbole do direito sinaliza contudo para um perdão, a saber, um excesso no excesso, um suplemento de transcendência (pode-se, ao mesmo tempo em que se condena perante a corte de Justiça, perdoar o imperdoável) ou ainda para uma reapropriação humanizadora, uma reimanentização da lógica do perdão.

Essa reimanentização, essa reapropriação humanizadora organiza sempre o que está em jogo num debate religioso, o qual não pode deixar de passar pela sacralidade, pela indenidade, pela imunidade (‘Heiligkeit’) religiosa.

Debate religioso também entre as religiões que, como cada uma das religiões abraâmicas, trata diferentemente da reconciliação, da mediação humana na relação com Deus, da encarnação, dos profetas, do messias e do profeta.

Jesus, intercessor junto de Deus para que perdoe os que não sabem (pelo menos segundo Lucas), não é o messias para todo mundo. Não é o messias para os judeus e é somente um profeta para os muçulmanos.

Redenção de Pinochet

Sabemos que também foi notória no Chile essa dimensão cristã ou cristianizadora do processo em curso.

Pinochet foi redimido no começo da democratização e depois das eleições, mas redimido no sentido de Hegel, ‘aufgehoben’, conservado e ao mesmo tempo deslocado, já que continuou sendo chefe das Forças Armadas e uma grande voz do país, quando já havia cedido o poder.

Ora, no começo da era pós-Pinochet, no instante de uma anistia geral, é a mais alta hierarquia da igreja que hoje apregoa a reconciliação nacional.

É verdade que, em 1973, após o assassinato de [Salvador] Allende, o cardeal Raul Silva Henríquez tinha corajosamente declarado que ‘os direitos do homem são sagrados’, opondo-se em seguida a Pinochet, à sua maneira.

Porém, velho e doente, ele foi hoje rendido por um arcebispo de Santiago, monsenhor Francisco Javier Errazuriz, que insiste na ‘necessidade de perdoar’.

Será excessivo lembrar que esse arcebispo teve um cargo no Vaticano e na Alemanha, que pertence a uma das famílias mais ricas do país e que seu irmão é um militante do partido de direita chamado Renovação Nacional?

Cabe sempre lembrar, pois se trata de uma situação típica, que, se a Igreja chilena é predominantemente conservadora (o Chile faz parte dos países cristãos o¬nde o divórcio é proibido), também houve padres que lutaram contra a ditadura, pagando com a própria vida.

O mesmo aconteceu na África do Sul: se certa ‘ideologia’ teológica calvinista contribuiu em profundidade para o estabelecimento, justificação e manutenção do apartheid, é preciso, em contrapartida, saudar alguns teólogos e todo um movimento cristão, que corajosamente lutaram contra o racismo de Estado.

Que a Igreja cristã, portanto, em sua fala autorizada, sustente hoje o discurso da reconciliação, que ela ofereça a ‘palavra de reconciliação’, que a reconciliação seja não apenas sua língua mas a língua em que se traduzem - com o conhecimento ou não dos sujeitos envolvidos, todos os discursos mundiais da reconciliação - é algo que nos é confirmado de mil maneiras.



Tradução de Evandro Nascimento.

In: http://www6.ufrgs.br/idea/?page_id=188

sábado, 7 de agosto de 2010

Filosofia como disciplina do ensino médio.

A obrigatoriedade da Filosofia no ensino médio já é uma realidade, isso agora é fato, pois agora é lei. Penso, porém, que não devemos sobrecarregar a Filosofia, como disciplina obrigatória do ensino médio, com expectativas muito grandes como se ela fosse a salvação da Pátria que vai resolver todos os problemas por que passa o sistema educacional brasileiro e de lambuja sanará outras questões sociais e estruturais básicas por que passa a nação brasileira.

Essa idéia se fundamenta na crença de que o estudante ou o trabalhador, não tem senso crítico, não sabe pensar a realidade criticamente, sendo assim, é preciso que venha de fora alguém com um saber verdadeiro, uma intervenção quase que divina para conscientizar as mentes atrofiadas. E essa sobrecarga, essa intermediação, é colocada sobre os ombros do professor, e no caso em questão por conta da recente obrigatoriedade pode ser colocada, também, sobre o professor de Filosofia. Claro que não quero aqui negar a importância do espaço da Escola como lugar privilegiado para mudanças e transformações sociais. Fazer isso seria negar a própria História!

Porém, as experiência de estágio que realizei no curso de Licenciatura em Filosofia junto as Escolas de ensino médio, mostraram que a realidade é bem diferente, ou seja, senso crítico é o que não falta entre os estudantes, e o professor não deve se sobrecarregar em sua prática com uma auto-cobrança exacerbada no que se refere a provocar acentuadas reviravoltas na vida dos indivíduos e na realidade à sua volta.

Aprendi em minhas experiências como Assistente Social que essa sobrecarga de expectativas somente trás angústia para o profissional, que tem afetada sua saúde física e psíquica. A Síndrome de Burnout¹ é uma evidência dessa sobrecarga.

Quando cursava Bacharelado em Serviço Social eu percebia que havia de forma latente entre alunos e profissionais da área - e por observações que tenho feito acredito que ainda há - uma ansiedade e uma frustração muito grande, pois introjetamos um forte idealismo de mudar a realidade, de conscientizar, de transformar a sociedade, e isso de um dia para o outro. Creio que a forte conotação marxista do referencial teórico do próprio curso gera essa auto-cobrança. No entanto, essas mudanças bruscas no âmbito político, social, econômico com maior freqüência acontecem quando há insurgência de revoltas, manifestações e revoluções populares - que são importantíssimas para os saltos qualitativos que acontecem na História e que, sem dúvida, a prática e o compromisso do professor pode (ou não) instigar.

Outro aspecto a se notar é que o profissional acaba por passar para os indivíduos com os quais trabalha a mesma angústia. No caso dos alunos, o professor sendo muitas vezes referência simbólica e arquétipo para sua formação, essa angústia pode ser elemento absorvido fortemente pela personalidade de muitos alunos. Ou seja, angústia gerando angústia. Com certeza esse seria um bom tema para um Projeto de Pesquisa, em?!

Enfim, credito que essa expectativa exagerada também se aplica à Filosofia como disciplina.

Creio, todavia, que a postura filosófica de um professor é provocar e fazer fluir dos próprios indivíduos, ou seja, dos alunos, aquele conhecimento que já está nele.

Trata-se de uma prática provocativa, que faz vir à superfície um saber já existente e que ao mesmo tempo é novo. Sendo assim, leitura que o aluno fará da realidade a sua volta pode divergir daquela que o professor sustenta, e o rumo, ou a aplicação na prática que o aluno dará ao conhecimento que porventura fluir dessas provocações dependerá dos impulsos individuais do aluno.

A idéia que temos da prática de um professor em sala de aula é a de dar aos alunos respostas prontas, que os alunos esperam que o professor tenha, e, que o próprio professor mesmo acredita que tem, e, que imagina que tem que ter. É a velha história do professor ser o detentor do saber, enquanto o aluno o ignorante que precisa aprender do mestre.

Acredito que o diferencial da Filosofia é o espaço em branco, o algo mais por trás das palavras, por trás das respostas prontas, até mesmo por trás dos silêncios e das interrogações que os indivíduos após as aulas podem levar consigo e que podem provocar neles um saudável movimento interior... Os movimentos exteriores, se acontecerem, serão conseqüência das definições que o próprio indivíduo formulou, dos conceitos que ele mesmo inventou.

Extirpa-se, assim, do professor a culpa, o remorso, a sobrecarga de ter de conscientizar e não conseguir fazê-lo, de ter que formar cidadãos críticos e criativos e não conseguir formá-los, de ter que ser portador de um saber verdadeiro, que deve ser bem transmitido para ser plenamente absorvido pelos alunos, de ter, de ter, de ter e de ter...

No entanto não se trata de uma postura descompromissada diante dos alunos e da realidade, se trata de não rotular o professor de filosofia como salvador da pátria e portador de uma sabedoria sublime e exclusiva!

Creio que isso representa uma pequena pista do que seja a prática da Filosofia como disciplina... Temos que buscar juntos outras pistas...

1- A Síndrome de Burnout é causada por circunstâncias relativas às atividades profissionais, ocasionando sintomas físicos, comportamentais, afetivos e cognitivos. Inicialmente foi observada em trabalhadores da área da saúde que desempenham uma função assistencial, caracterizada por um estado de atenção intenso e prolongado com pessoas em situação de necessidade e dependência. Com o passar do tempo, pôde ser identificada em outras profissões, entre elas a de professor.


De acordo com a pesquisadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB (Universidade de Brasília), Iône Vasques-Menezes, no caso do professor, a razão para a incidência da síndrome está ligada, sobretudo, à falta de reconhecimento. "A desvalorização do professor, seja ela por parte do sistema, dos alunos e da própria sociedade, é um dos maiores agentes para a ocorrência do Burnout", explica.


O Burnout em professores pode ser caracterizado por um estresse crônico produzido pelo contato com as demandas do ambiente acadêmico e suas problemáticas. Para a pesquisadora, especialmente aquelas que não dependem apenas da ação dos docentes para serem resolvidas. "Existem problemas que estão muito além da ação direta dos professores, principalmente onde há uma situação de degradação do sistema. Nestes casos, a sensação de impotência é mais acentuada", revela.


Além disso, o posicionamento dos alunos em sala de aula também contribui para um maior desgaste. Em muitos casos, a indisciplina é a grande responsável por uma eventual sensação de frustração e até a desmotivação do profissional. Segundo Iône, não são raros os professores que se queixam da falta de interesse dos alunos e assumem a culpa por este fato acreditando que deveriam dominar as mais diferentes técnicas para estimular o aprendizado.
 In: http://www.universia.com.br/docente/materia.jsp?materia=5750 
  

Izabel Lisboa

Julho/2008

eis a razão dos meus poemas

para que não te esqueças dos meus beijos
dos meus olhos
e do meu desejo
e de cada afago
daquela nossa emoção
só nossa
e da minha saudade
e do meu amor constante
eis a razão dos meus poemas
nossa terna comunicação
nosso oásis em meio à seca
uma ponte que nos faz um
que encurta nossa trágica distância
eis a razão dos meus poemas
e quando chegar o frio
e quando a dor no peito apertar
e não me tiveres por perto para te acalentar
eis a razão dos meus poema
e quando quiseres voltar
mas o rumo que traz até mim
você não encontrar
eis a razão dos meus poemas
que fiz para te nortear
***

Izabel Lisboa

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

CHOPIN : nocturne no.19 op.72 Fujiko Heming

eu...


As Palavras


As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.


O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.


José Saramago


[In: Deste Mundo e do Outro – Crônicas – 2ª Edição (1985)]
eu...