sábado, 14 de janeiro de 2012

Sobre Movimentos e Estudantes


É uma pena que estejamos assistindo em nossos dias a falência do Movimento Estudantil, historicamente tão presente, politizado e atuante nas lutas pela conquista da Democracia desse País. Hoje o Movimento Estudantil se mostra esquálido e desprovido de sua força propulsora, ou seja, o engajamento da GRANDE MASSA estudantil nos movimentos e lutas organizadas. Ou será que se nessas últimas manifestações acontecidas em Vitória, uma grande massa de estudantes fossem as ruas (e não um ínfimo número) organizadamente, com pauta de reivindicações, etc, será que não seriam ouvidos, recebidos pelos governantes e até mesmo conseguiriam ser atendidos em parte ou na totalidade de suas reivindicações?!  

É bom que se tenha claro que, onde há movimentos sociais, especialmente com protestos públicos, lá estarão os representantes de partidos políticos tentando tirar proveitos eleitoreiros da situação. É assim hoje e foi assim sempre; ou seja, não é a rapinagem partidária a grande questão nessa situação específica.

A grande questão é que o Movimento Estudantil, hoje, praticamente inexiste; isso porque a mentalidade dos estudantes universitários está voltada para o empreendedorismo (praga capitalista), onde o individualismo e a competitividade imperam e a dimensão do comunitário, do coletivo, que sempre permeou esses movimentos, perdeu espaço e valor diante do individualismo que é marca desses nossos tempos. Na mentalidade de hoje a "culpa" não é mais do "governo", um ser abstrato que precisa ser vencido e dominado (dimenção utópica, porém que possui grande força no movimento reivindicatórios das grandes massas populacionais), a culpa é do indivíduo que não tem "competência" para alcançar um lugar ao sol no almejado mercado de trabalho - que abriga a todos que tenham um arrojado espírito empreendedor. Hoje os estudantes não se sentem mais navegando num mesmo barco, mas cada um navega em seu próprio barquinho individual! Sinal de que a ideologia neoliberal teve, e continua a ter, êxito na formação da subjetividade, fazendo da comunidade dos estudantes universitários mais um rebanho "de leite e corte"...exército de reserva...massa de manobra...alvo certeiro para que os governantes consigam desautorizá-los diante da opinião pública e desmoralizá-los taxando-os como "um pequeno grupo de baderneiros". Ou seja, a mobilização da grande massa populacional é fundamental; e a história nos mostra que às vezes é necessário o surgimento de um mártir para que ela aconteça o movimento cresça e se firme como vitorioso!

Izabel Lisboa

asas à imaginação


Steven Kenny / Fredge
 

vaguei-as ali
no campo das palavras e da imaginação
e ali encontras o infinito
[tão finito...]
a imaginação apenas te leva aos confins
d'uma metafísica tão rala
d'uma imanência tão gasta
falida a priori
[mais ainda a posteriori]
imaginas tantos mundos
tantos sois e tantas luas
novos céus e novas terras
mares d'antes nunca navegados...
só... imaginas
quando despertas do sonho
[dogmático...]
queres mais... na veia...
os alucinógenos...
as palavras
os arroubos e ilusões alheias
as teias poéticas...
[made of imagination]
e NADA mais...

Izabel Lisboa

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

o comedor de palavras e a borboleta

[se falassem]
do que falariam as borboletas
de uma fome que não se mata
de uma sede que não se aplaca
de uma dor que não se estanca
por isso voam as borboletas
em ziguezague em vai e vem
desordenadamente
desobrigadamente
esfomeadamente
sem metas e sem retas
*deparou-se um dia a borboleta
com um comedor de palavras
- sacio minha fome comendo
palavras
[disse ele]
- a fome que tenho não se acaba
a sede que sinto não se aplaca
minha dor não se estanca
[disse ela]
e era um mar tão vasto entre eles...
[um mar de palavras]

Izabel Lisboa


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

abastados em fome




alastra-se  a penúria numa terra que incita ao gozo
diante da mesa posta
da fartura exposta...
a fome
a sede
o interdito...

Izabel Lisboa

sábado, 31 de dezembro de 2011

deslocamentos

        zenós frudakis

em quais recôncavos dormem as almas livres 
[... da culpa dos pecados mortais?]
onde perecem aqueles pensamentos esfomeados
que cultivam imagens seminuas com a benção dos deuses pagãos?
ali onde o consenso míngua até a morte
onde desmoronam-se alicerces de velhos mundos
e seus frigidos desejos concretados e mesquinhos
incrustados na miséria e na fome
_ fome de querer mais
[muito mais]
que um punhado de leis e de nãos
[que os infelizes impõem a si mesmos]
_ que mal há no desvio das rotas
para um astronauta prenhe de novos mundos...?
[ _ um prisioneiro do tempo há de
se extasiar com a mutabilidade do voo das borboletas...]
e há...
Izabel Lisboa


sábado, 10 de dezembro de 2011

da inércia


despiu-se
mas foi do gelo
daquele vazio vintém
arrombador tenaz
de suas frestas
farejador sabujo de
suas possíveis rotas
invasor
em cada uma de suas festas
[ontem]
esse maldito investidor
esvaziou seus potes
avidamente secou seu leite
[que um dia foi farto]
deixou nódoa indelével
na brancura de seu lençol
e...quem diria...
provocou curto-circuito
naquele seu cáustico
[e íntimo]
sol nascente...
[hoje]
um burburinho moveu-a
[necessidades
e urgências]
de [re]amar e
remar a vida
reatar a lida
em direção
outra...
que não a mesma
...que não a morte

Izabel Lisboa

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

sem atalhos

calejada avidez da busca
a mão...sedenta mão...
impura
de fome atordoada
daquela pureza nunca suficiente
para almejar alturas e
apalpar avidamente
as asas d'um anjo distraído...

Izabel Lisboa

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Se o imperativo categórico kantiano não fosse uma utopia (e as leis fossem realmente e justamente aplicadas) não chegariam até nós notícias como essa que repasso abaixo.
Em um momento em que o Brasil acompanha a polemica tramitação do Projeto de Lei para aprovação do Novo Código Florestal, notícias como essa tornam urgente não só a renovação ou a modernização das Lei, mas, medidas governamentais mais severas para se fazer cumprir Leis que já existem e não são acatadas, como é o caso do Código Florestal vigente, que nunca foi respeitado pelos grandes proprietários rurais. Pelo conteúdo da notícia abaixo percebe-se o quão difícil é coibir ações criminosas motivadas pela ganância dos abastados, e a ausência total de consciência crítica em relação a preservação do meio ambiente.
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Denunciamos o assassinato covarde de mais um defensor da natureza na Amazônia.
Sábado foi assassinado o líder comunitário João Chupel Primo em Miritutuba, município de Itaituba, PA. Conheci o João foi em sua comunidade que realizei as primeiras crismas como bispo de Itaituba.
Eu o tinha encarregado de fundar uma nova comunidade. Justamente no dia da crisma em junho deste ano, ele deixou de ser o coordenador da Comunidade Nossa Senhora de Nazaré de Miritituba para poder se dedicar à fundação da nova comunidade.
Ele vinha fazendo denúncias sobre grilos de terras e extração ilegal de madeira (veja a nota). Por isso foi assassinado brutalmente com um tiro na testa sábado passado.
Quando os defensores da natureza e da legalidade vão deixar de serem mortos? Quando o Governo Federal colocará pra valer a Polícia Federal para agir no Pará?
Fraternalmente
Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.
Bispo da Prelazia de Itaituba, Pará - Brasil
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Coordenador da Comunidade de Miritituba/ Itaituba - PA é assassinado
Sábado, dia 22 por volta das 14 horas, foi assassinado com um tiro na cabeça João Chupel Primo, com 55 anos. Ele trabalhava numa oficina mecânica onde o crime ocorreu, ao lado de seu escritório.
João denunciava a grilagem de terras e extração ilegal de madeira, feitas por um consorcio criminoso. Ele tem vários Boletins de ocorrências de ameaças de morte na Policia local. E fez várias denuncias ao ICMBIO e a Policia Federal, que iniciaram uma operação na região.
A madeira é retirada da Flona Trairão, e da Reserva do Riozinho do Anfrizio. Onde as portas de entrada para essa região, que faz parte do mosaico da Terra do Meio, se dá pela BR 163 Vicinal do Brabo cortada até o Areia; entrando pelo Areia (Trairão) cortada até Uruará. Pela BR 230: vicinal do Km 80. Vicinal do km 95. Vicinal do 115. A operação do ICMBIO, que recebeu apoio da Policia Federal, Guarda Nacional e Exercito não teve muito êxito, pois toda noite ainda saem 15 a 20 caminhões de madeira.
Dizem que não foi dado continuidade na operação por medida de segurança. Um soldado do Exército trocou tiro com pessoas que cuidavam da picada quilômetros adentro da mata e ficou perdido 5 dias no mato. O Exercito retirou o apoio. A Policia Militar também não quis dar apoio.
A responsabilidade de mais uma vida ceifada na Amazonia, recai sobre o atual governo, o IBAMA/ICMBIO, Policia Federal, que não deram continuidade a operação iniciada para coibir essa prática de morte, tanto da vida da Floresta como de pessoas humanas.
Desde 2005 até os dias atuais, já foram assassinadas mais de 20 pessoas nessa região.
Quantas vidas humanas e lideranças ainda tombarão???
Itaituba, 24 de Outubro de 2011.
CPT – BR163
Prelazia de Itaituba

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Para que SERVE a filosofia?

"[...] para o que serve poder perguntar pela utilidade, ou seja, para que serve ir ao cinema? É muito diferente da pergunta: para que serve ir ao banco? Vamos ao banco para pagar uma conta. Se não tivéssemos uma conta para pagar, não iríamos ao banco. Ou seja, vamos porque existe uma utilidade. Agora, não vamos ao cinema por uma utilidade concreta. Vamos porque isso nos dá um sentido, porque nossa vida se torna diferente, porque nos faz perceber coisas distintas. A filosofia é mais próxima do cinema do que do banco. Nós a fazemos não porque tenhamos um produto concreto e satisfeito, e ficamos tranquilos. É ao contrário. Assim, como quando vamos ao cinema, ficamos pensando no filme depois, e isso tem efeitos que não podemos notar tão claramente. O que fazemos em filosofia é a mesma coisa. Às vezes uma pergunta, um questionamento, uma maneira diferente de pensar têm um efeito em nossa vida, têm um sentido para nossa vida que não percebemos imediatamente."

Walter Kohan
http://tvbrasil.org.br/saltoparaofuturo/entrevista.asp?cod_Entrevista=125

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Gattaca - Experiência Genética

Ficha técnica:
Título original: (Gattaca)
Lançamento: 1997 (EUA)
Direção: Andrew Niccol
Atores: Ethan Hawke, Uma Thurman, Jude Law, Gore Vidal.
Duração: 112 min
Gênero: Ficção Científica

O filme Gattaca - Experiência Genética, apresenta uma sociedade futurista onde os seres humanos são gerados geneticamente em laboratório. Aqueles indivíduos que são concebidos de forma biologicamente natural são rotulados de incapazes e discriminados socialmente.
Nesse contexto, marcado por uma cultura excludente, um jovem astronauta é selecionado para uma importante Missão, tripulada, de um ano para Titã, 14ª lua de Saturno. A seleção de Jerome foi virtualmente garantida ao nascer. Através da engenharia genética e da reprodução assistida lhe foi garantido todos os dons exigidos para tal empreendimento: ele é geneticamente superior, portanto apto para tal Missão.
Tudo estaria dentro da ordem vigente se, através de fraude e falsidade ideológica, Vincent Freeman, um incapaz, inválido geneticamente, não burlasse o rígido "controle de qualidade" escondendo sua verdadeira identidade e conquistando um lugar de destaque na corporação: Vincent simplesmente passa-se por Jerome, indivíduo apto geneticamente, mas inválido devido a um acidente que o deixou paraplégico, portanto, inválido fisicamente.
Um misterioso assassinato dará um rumo inusitado à trama.
*** *** ***
Gattaca desencadeia no espectador uma série de reflexões críticas que vão ao encontro de questões e implicações éticas que permeiam as pesquisas e manipulações genética: Até onde pode chegar o homem nessa área do conhecimento científico? Existe limitações para esse tipo de experiência? O que é eticamente adequado e inadequado nessas pesquisas? Essas experiências estão livres de pressupostos eugênicos, ou teriam justamente esses pressupostos implícitos como mola propulsora?
A pesquisa genética avançou a passos largos nas últimas décadas. As notícias que nos chegam através da mídia, ou de revistas e periódicos especializados (da ovelha Dolly ao Projeto Genoma), vêm comprovar esse inquestionável avanço e trazer ao senso comum uma série de dúvidas, inquietações, questionamentos e expectativas.
Grande parte da comunidade científica aplaude cada conquista e cada descoberta feita. As instituições religiosas, juntamente com aqueles indivíduos preocupados com os aspectos éticos e a responsabilidade social, imbuídos de zelo, pedem prudência e bom senso aos pesquisadores, e, sobretudo, respeito à vida e ao ser humano em sua dignidade. A população, de forma geral, diante das "boas novas", quer usufruir dos benefícios quase que miraculosos propagados pelos mais entusiasmados. Enfim, é um caldeirão de sentimentos que entrou em ebulição: dúvidas, euforias, questionamentos, expectativas, medos e esperanças, afinal não dá para ficar impassível diante de tantas promessas: a cura ou erradicação de inúmeras doenças, o prolongamento da vida - que tem como pano de fundo o desejo da imortalidade - enfim, todo esse promissor horizonte que se abre com as descobertas através das pesquisas genéticas mexe com o imaginário e o universo simbólico no qual todos nós seres humano de alguma forma estamos inserido.
Segundo Marcelo A. Costa Lima, professor do Departamento de Genética da UERJ (http://tvescola.mec.gov.br/index.php?option=com_zoo&view=item&item_id=7272), nas duas últimas décadas, no Brasil, os investimentos financeiros no âmbito das pesquisas genéticas aumentaram significativamente e possibilitaram um acentuado incremento da produção científica nessa área. São muitas as descobertas no campo da genética que podem ser aplicadas em nossas vidas, como por exemplo:
- novos procedimentos técnicos que permitem realizar diagnóstico de doenças;
- produção de embriões em laboratório / reprodução assistida;
- detectar fator de risco - suscetibilidade a algumas doenças, para possível prevenção; etc.
Um marco importantíssimo nesse sentido é o Projeto Genoma, uma iniciativa múltiinstitucional que envolveu vários países e que começou na década de 80; teve como objetivo mapear toda a sequencia do material genético da espécie humana. Tal Projeto atingiu sua finalização, teve seu objetivo alcançado em 2003 e trouxe uma série de informações que possibilitaram inúmeras descobertas.
Apesar da velocidade das descobertas e dos avanços das pesquisas genéticas, tudo ainda é muito recente nessa área da ciência. No entanto, junto com a euforia das novas descobertas multiplicam-se consideravelmente os questionamentos e as expectativas diante desse "algo novo" que mescla paradoxalmente o extraordinário ao assustador.
Para exemplificar esse paradoxo para além da ficção:

Manipulação Genética / Ternura e Fidelidade:

Experiências inéditas, de manipulação genética, muda comportamento de uma espécie
tornando ratos mais fiéis e ternos para com suas fêmeas.
A experiência, apresentada no jornal eletrônico Journal of Neuroscience, (http://www.jneurosci.org/ ): Pesquisadores da Universidade Emory, usaram um vírus para inserir um gene específico na área do cérebro de roedores, responsável por sensações de recompensa e habituação. O que impressiona, e assusta, é que nos seres humanos essa área tem as mesmas funções.
O investigador Larry Young, que participou no estudo, disse que o interesse dos pesquisadores foi descobrir como é que o cérebro estabelece determinadas relações sociais, a partir daí poderiam desvendar por qual motivo, em algumas doenças, as pessoas perdem o interesse pelas outras, como por exemplo no autismo.
Um especialista da Universidade de Bristol, em um depoimento no site da revista Nature, define assim seus sentimentos em relação a essa experiência : "É extraordinário e quase assustador como se pode mudar o comportamento relativo à relação entre seres, mudando um único receptor no cérebro".

Izabel Lisboa