quarta-feira, 13 de julho de 2011

Andrômeda


Gustave Dore - Andrômeda


Andrômeda
a vaidade gerou vingança
e sede de devastar...
em oferta de sacrifício
um talismã de carne e sangue
atado ao rochedo em Jaffá...
 Izabel Lisboa



segunda-feira, 11 de julho de 2011

deus está nu


- deus está nu no parapeito do precipício
deus está nu...
- despiu-se de sua divindade
e de sua eternidade...
 - perpétuo penúltimo ato
[estamos salvos]
Izabel Lisboa



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Porque não aceitei o prêmio do PNBE






Blog da Professora Amanda Gurgel: http://blogdaamanda.com.br/

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Oi,
Nesta segunda,o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio "Brasileiros de Valor 2011". O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio.
Mandei essa carta aí embaixo para a organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra.
Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações e campanhas que se dizem "amigas da escola".

Amanda
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Natal, 2 de julho de 2011

Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,

Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.

Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald's, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.

A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.

Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.

Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Saudações,

Professora Amanda Gurgel
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Bravo!!!

E parafraseando Gonçalves Dias:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui Amanda Gurgeiam,
não Amanda Gurgeiam como Lá

Bravíssimo!!!
Izabel Lisboa



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Infâncias & Lembranças

[Texto atualizado/reeditado – 07/11/2009]
Conheci no Colégio de freiras, as tais vias pedagógicas à antiga de mandar criança “lavar a boca” quando o desajuizado órgão proferia palavreado de baixo calão; que por descuido nosso, ou não, feriam os ouvidos santos das devotadas mestras. O interessante é o uso que fazíamos disso! Quando entediadas (o colégio só aceitava meninas) com a rígida disciplina de sala de aula proferíamos propositalmente os tais palavrões, para sermos encaminhadas ao pátio no andar inferior do colégio para lavarmos a maldita boca e salvar a alma do fogo da Geena! Bons tempos aqueles! Infringir a “lei” é excitante, e criança sabe bem disso! Chama-se: fazer arte! Perfeito!!! Uma criança arteira é uma criança esperta!
Contei isso para a turma do 8º ano do ensino fundamental onde concluí um de meus estágios vinculados ao curso de Licenciatura em Filosofia, os alunos arregalaram os olhos espantados e nada disseram, provavelmente riram por dentro, afinal esse é um tipo de infração fichinha diante das infrações que ocorrem hoje em dia em algumas escolas!
Não narro esse fato por saudosismo, afinal a violência do “vigiar e punir”, apesar de suas sutilezas, deixou marcas e traumas terríveis incrustados na alma de gerações inteiras. Mas, como disse anteriormente, infringir a lei é excitante. É justamente desse impulso de questionar e transgredir o estabelecido que nascem as revoluções e as significativas mudanças históricas. Há no jovem, e na criança especialmente, uma energia que impulsiona a alterar uma determinada ordem vigente. É próprio da juventude questionar e buscar implantar uma nova ordem permeada por novos valores e desejos de novos horizontes. O ímpeto dos Movimentos Estudantis, por exemplo, sempre foi fator decisivo em inúmeras revoluções no mundo inteiro.
No entanto, essa energia, se canalizada apenas para a violência destrutiva e nada mais, sem ter a reboque uma reflexão politizada que, além de derrubar valores e dogmas vislumbre e construa essa almejada nova ordem, pode levar, não à destruição da ordem vigente que se questiona, mas à própria autodestruição, à implosão daquilo que é imprescindível para saltos qualitativos na história de um povo: a força da juventude.
E pelo andar da carruagem...
Matéria de capa do Jornal A Tribuna de hoje, 07/07/2011:
Pancadaria e ameaça de morte em escolas da grande Vitória.
Um estudante foi agredido por 50 colegas em Cariacica e, em Vitória, uma menina foi atacada por 15 pessoas. Os casos foram parar na polícia. Na Serra sindicato afirma que professores e alunos foram ameaçados de morte.
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Izabel Lisboa


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Slavoj Zizek - Entrelinhas 19/06/2011




["Os poetas são perigosos"]
- Slavoj Zizek é professor, sociólogo, filósofo e teórico crítico esloveno. Estudou Psicanálise na Universidade de Paris.
- Blog que reune conteúdo em português de Zizek:
   
http://slavoj-zizek.blogspot.com/ 
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Teoria: o real, o simbólico e o imaginário
O real
Segundo Žižek, o "real" resulta ser um termo bastante enigmático, e não deve ser equiparado com a realidade, uma vez que a nossa realidade está construída simbolicamente; o real, pelo contrário, é um núcleo duro, algo traumático que não pode ser simbolizado (isto é, expressado com palavras). O real não tem existência positiva; só existe como abstracto.
Para Žižek, a realidade pode ser desmascarado como uma ficção; basta ter presente certos aspectos - pontos indeterminados - que têm que ver com o antagonismo social, a vida, a morte, e a sexualidade. Temos que enfrentar com estes aspectos se quisermos simbolizá-los. O real não é nenhuma espécie de realidade atrás da realidade, mas sim o vazio que deixa a própria realidade incompleta e inconsistente. É o espectro do fantasma; o próprio espectro em si é o que distorce a nossa percepção da realidade. A trilogia do simbólico/imaginário/real se reproduz dentro de cada parte individual da subdivisão. Há também três modalidades do real:
  • O "real simbólico": o significante reduzido a uma fórmula sem sentido (como em física quântica, que como toda ciência parece arranhar o real mas só produz conceitos apenas compreensíveis)
  • O "real real": uma coisa horrível, aquilo que transmite o sentido do terror nas películas de terror.
  • O "real imaginário": algo insondável que permeia as coisas como um pedaço do sublime. Esta forma do real torna-se perceptível na película Full Monty, por exemplo, no facto de que na nudez dos protagonistas desempregados, estes devem despir-se por completo; noutras palavras, através deste gesto extra de degradação "voluntária", algo da ordem do sublime se faz visível.
A psicanálise ensina que a realidade (pós-moderna) precisamente não deve ser vista como uma narrativa, mas como o sujeito o há de reconhecer, suportar e ficcionar o núcleo duro do real dentro de sua própria ficção.
O simbólico
Žižek afirma que o simbólico inaugura-se com a aquisição da linguagem; é mutuamente relacional. Assim, sucede aquilo de que "um homem só é rei porque os seus súbditos se comportam perante ele como um rei". Ao mesmo tempo, permanece sempre uma certa distancia no que diz respeito ao real (excepto na paranóia): nem só é louco o mendigo que pensa que é rei, também aquele rei que verdadeiramente crê que é um rei. Uma vez que efectivamente, este último só tem o "mandato simbólico" de rei.
  • O real simbólico é o significante reduzido a uma fórmula sem sentido.
  • O imaginário simbólico qual símbolos jungianos.
  • O simbólico simbólico como o falar e a linguagem como sentido em si.
  • O visor do monitor como forma de comunicação no ciberespaço: como um interface que nos leva a uma mediação simbólica da comunicação, a um abismo entre quem seja que fala e a "posição de falar" em si (p.ex. a alcunha, ou a direcção de correio). "Eu" nunca "de facto" coincido exactamente com o significante, não me invento a mim mesmo; em contrapartida, a minha existência virtual foi, em certo sentido, já confundida com o surgimento do ciberespaço. Aqui cada um, deve chegar a entender-se com uma certa insegurança, mas não pode ser resolvida como num simulacro de contingente pós-moderno.
Aqui também, como na vida social, as redes simbólicas circulam á volta dos núcleos do real, deste modo, as redes simbólicas, são a nossa realidade social.
O imaginário
O imaginário, segundo Žižek, encontra-se situado ao nível da relação do sujeito consigo mesmo. É como o olhar do Outro na etapa do espelho, a falta em esse reconhecimento ilusório, como conclui Jacques Lacan citando a Arthur Rimbaud: "Eu sou um outro" ("Je suis un autre"). O imaginário é a fantasia fundamental que é inacessível á nossa experiência psíquica e se eleva do espectro fantasmático em que encontramos objectos de desejo. Aqui também podemos dividir o imaginário entre um real (o fantasma que assume o lugar do real), um imaginário (a imagem/espectral em si que serve como isco) e um simbólico imaginário (os arquétipos de Jung e o pensamento New Age). O imaginário nunca pode ser agarrado, já que todo discurso sobre ele sempre estará localizado no simbólico.
Todos os níveis estão interligados, de acordo com Jacques Lacan (desde o seminário XX para a frente), numa forma de nó gordiano, como três anéis enlaçados juntos de maneira que se um deles se desenlaçar, o resto também cairia.
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sábado, 2 de julho de 2011

Paco de Lucia - Entre dos Aguas

celeiros abarrotados


e quem te pediu o sol
para inquietares tu'alma
e a chuva
para perderes o tino
e quem te pediu o vento
para estremeceres em sobressaltos
e o céu
para importunares os deuses
nada te foi pedido
nada me foi negado
sobre todos velam os deuses
com brandura...e com furor
a cada um: fardos e dádivas
árvores serão eternamente prisioneiras do solo
e do fogo quando esse se alastra...
mas...a cabeleira do vento dança
sobre a magnífica copa das árvores
e carrega sementes e faz promessas...
em metáforas de liberdade
rege a orquestra da natureza em regozijo
mas...assusta e faz calar tambores...

Izabel Lisboa

segunda-feira, 27 de junho de 2011

da visão



Não me canso de lançar a vista até onde a vista alcança
Vejo chegar de lá estrondosos ecos de adormecidos sonhos...
A nostalgia vem junto aguar as sementes

Izabel Lisboa









pintor_iraniano/ imagem google


sábado, 25 de junho de 2011

dos meus (des)equilíbrios...e paradoxos



amo a imensidão do desconhecido cuja metáfora o mar e a poesia encarnam
amo o amálgama com que o poeta entrelaça e vivifica as palavras
a trama dos arranjos com que dispõem no poema os versos
sim eu amo...e disseram-me que há um enorme perigo em amar assim
- a alma dos poetas trilha a bamba corda dos habilidosos (des)equilibristas
a ginga do cai não cai dos malabaristas e trapezistas...
[ai de mim...que almejo a lua...mas tenho pavor das alturas]

Izabel Lisboa



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Quero você...

por Paulo Jonas de Lima Piva

Quero você perigueti. Quero você perigueti sim, o máximo de perigueti que você conseguir ser. Quero você perigueti também. Com minissaia, com microshort e decote, vestido curto apertado, com a barriga de fora e o peircing do umbigo fazendo o universo girar em torno dele. Quero você maquiada, perfumada, os cabelos selvagens, tudo em exagero. Esqueça o pudor. Quero você com aquele batom, aquele que depois de bêbada faz você deixar pistas. Essa tribal nas costas, esse beija-flor na cintura, pode deixá-los à mostra. Essa fadinha no pezinho, os dedinhos... deixe-os respirar nus, do alto de um salto. Essa tornozeleira, engatilhe-a. Ria do jeito que você quiser. Dance seu funk moralmente descansada. Desça na boquinha da garrafa soberana.  Pisque e sorria da maneira mais fatal. Seduza, mostre a língua, morda os lábios, faça charme, doce. Seja coquete, vulgar, afinal, você já leu Nietzsche e Blake em demasia, passou anos no mofo das bibliotecas, perdeu horas demais longe do espelho...

Adriana Calcanhoto - Uns versos

quinta-feira, 23 de junho de 2011

verso tanto / tanto verso


 


verso sonso
tonto verso
verso pranto
e acalanto
verso novo
velho verso
verso ninho
e passarinho
verso reto
torto verso
verso louco
e natimorto
verso canto      
decanto verso
verso manto
e pirilampo
verso espanto
manso verso
verso santo
e sacrossanto
verso (in-)verso
invento verso
verso penso
o universo

Izabel Lisboa

Eric Clapton- Wonderful Tonight

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vento no Litoral

dias de vento

cabelos ao vento/por Maria R. Vilela

aguardo pacientemente
     por aquela rajada de
                      vento norte
      que pelos cabelos me
                     agarre forte
  e me arranque à força
 das garras da inércia...

                  Izabel Lisboa



sexta-feira, 17 de junho de 2011

anjo puro...anjo indecente

anjo - imagens Google
num desses dias assim ele me apareceu
dias azuis
azuis turquesa
trazia seu céu
dizendo com alma a sorrir
que aquele céu era meu

linguagem inaudita era a sua
proscrita indecente e bem dita
qual silêncio de sereia
que seduz mais que seu canto
e conduz o feliz delirante
a se entregar desejante

como não dar-me inteira
ao meu puro e doce anjo do amor
como não dar-me inteira
ao meu puro
doce e indecente
anjo do amor...

deixou em mim o seu cheiro
doce perfume de eros
gotas e gotas de amor
bálsamo eficaz curador
tirou-me a dormência da alma
tirou-me o terrível torpor

Izabel Lisboa


terça-feira, 14 de junho de 2011

COMO DEIXAR DE RESPIRAR PELAS PALAVRAS

Por António Cabrita

Escritor e jornalista português, residente em Maputo/Moçambique
In: http://raposasasul.blogspot.com
***
(«Quando um indivíduo perde contacto com o universo mítico, encontrando-se a sua existência reduzida ao domínio dos factos, a sua saúde mental encontra-se em grande perigo», Jung)
A literatura é um «fazer-mundo» e não um mero patamar para o entretenimento.
Por isso Gabriela Llansol não é ensinada nas escolas. Não é possível fazê-lo. Não é possível dar aulas sobre Herberto Helder, ou sobre o Fluxo-Floema de Hilda Hilst. A dificuldade de pegar em António Ramos Rosa ou em Vicente Franz Cecim decorre de serem autores que abrem janelas para «outra realidade», e segui-los obriga a um gaguejar. Que professor de literatura admite o atrito nos seus patins? Não há aporias para o professor de literatura, que amêndoa todas as palavras na sua língua até ficarem inteligíveis.
Daí que nas festas da Comunidade Portuguesa, no dia 10 de Junho, pelo mundo, se continuem a VOMITAR poemas de Régio e Torga, de Sophia e de Jorge de Sena. Coitada da Sophia, que odiaria que em seu nome silenciassem a sua filha, Maria Andresen, excelente poeta, mas que coitada sofre do crime de só ter começado a editar há dez anos. E o Sena não tem culpa de ser misturado entre o Fado da Canoa e as danças de salão pelos representantes de um povo que não o respeitou nem entendeu em vida e a quem ele devidamente azucrinou em O Reino da Estupidez. Mas como os responsáveis das festas do 10 de Junho não o leram… continuam a abusar-lhe da paciência.
Vem isto a propósito de como me subiu a mostarda ao nariz quando uma amiga, inocentemente, me perguntou, visto que eu escrevia com facilidade (outra ilusão a fustigar um dia destes), porque é que eu não escrevia “adaptações de clássicos”.
Primeiro ter de explicar que não se macaqueia o Dickens, o Homero ou a Agustina Bessa Luís, é um cansaço.
O que nos separa, a mim e à minha amiga, é um defeito de geração. Ela é séria, amiga, boa professora e uma leitora atenta, mas já cresceu numa geração em que a literatura não é uma vaca sagrada mas apenas um modo de contar histórias. Enquanto para mim é absolutamente e ainda uma vaca sagrada, um modo de respirar, uma gnoseologia. Uma vaca sagrada entrega-se à brincadeira como nenhuma outra – mas nessa brincadeira está em auto-reflexão e não em lassidão auto-complacente.
Hesito entre os filósofos que, como Leibniz, diziam que deus está no detalhe, e os que prescrevem que é a arte que está no detalhe. Ou antes, hesitava: agora escolho o detalhe.
A arte de Dickens, Homero ou Agustina está no detalhe, no desenho da tubulação em que conectam derivação e mito. É aí que se tornam trans e paradoxalmente se distinguem uns dos outros. O resto é a trama, a anedota – cuja suficiência, embora não pareça, não faz a literatura, tal como no cinema uma boa história não garante um bom filme.
Como é que se faz uma adaptação? Metendo a plaina no veio, matando o pormenor, o devaneio, para restituir intacta, num terço das páginas, o fio da trama.
Ademais, a literatura não é uma lotaria de sinónimos, mas aquilo a que Gadamer chamava, ironicamente, «a palavra conformada», para sublinhar que uma conformação desenvolve a sua própria forma, que emana de dentro e se apresenta aí (no texto, no poema) como ela mesmo e só ela mesmo, o que está no oposto da construção, que se faz de fora para dentro, consoante um plano, pelo que é indiferente usar um tijolo ou outro.
Experimente-se mudar um sinónimo numa novela de Raduan Nassar, num livro de Borges Coelho. A frase desmancha-se, só existia em função dessa formulação, como na antiga proporção áurea. Já é indiferente num best-seller. Pode-se pegar na informação contida numa página de Dan Brown e mudar tudo, tanto fazia escrever assim ou assado. Uma vez fiz este exercício numa sala de aula de português com um livro da Colecção Uma Aventura, de Isabel Alçada… Reescrevi completamente a primeira página do livro. E no fim perguntei à professora de português, que estava presente, como é que ela esperava transportar os alunos para o entusiasmo da língua apoiando-se em livros onde a narração se serve de palavras absolutamente desmotivadas, tão desmotivadas que todas se podem substituir por sinónimos. Nunca mais fui convidado para falar de literatura nas escolas, enquanto a Isabel Alçada continua no currículo das escolas portuguesas. Pior: a Isabel Alçada continua a ser responsável (ou era-o antes de ser ministra) pelos livros que entram ou não no Plano Nacional de Leitura. Talvez me falte ambição para ser ministro…
Mas continuando, bem sei que existem pilhas, colecções de resumos, de adaptações, que há editoras que vivem disso – e as escolas promovem-nas, sem que haja um professor que venha à boca de cena explicar que, primeiro é desonesto, e que, segundo, a única vantagem em ler os resumos de As Metamorfoses de Ovídio é a de deixar de respirar pelas palavras.
E esta não é uma matéria de opinião.
Deixar de respirar pelas palavras pode ser uma forma de entrar no princípio da realidade mas paralelamente mata a ciência com que a literatura nos obriga a respirar em todos os elementos, mediante o detalhado escafandro das palavras. Porque a literatura, meus queridos professores de português, não é o guarda-chuva mas o dilúvio.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

do lodo...a flor


salve arte poética
que brota dos esgotos
dos ralos
das fossas existenciais
***
uma roseira há de brotar do lodo
lírios haverão de florir no limbo
um jardim surgirá do lixo
flores miúdas cobrirão o escorregadio limo
***

ah! poesia salvífica!
faxineira bendita das almas
dos poetas ditos malditos
das meretrizes devassas
***
poesia carpideira
que vela sobre almas moribundas
que penetra frestas e rachaduras
de feridas abertas sem brandura
***
salve arte poética adubada pela dor...!

Izabel Lisboa