sexta-feira, 15 de julho de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Andrômeda
Andrômeda
a vaidade gerou vingança
e sede de devastar...
em oferta de sacrifício
um talismã de carne e sangue
atado ao rochedo em Jaffá...
e sede de devastar...
em oferta de sacrifício
um talismã de carne e sangue
atado ao rochedo em Jaffá...
Izabel Lisboa
segunda-feira, 11 de julho de 2011
deus está nu
- deus está nu no
parapeito do precipício
deus está nu...
- despiu-se de sua divindade
e de sua eternidade...
- perpétuo penúltimo ato
[estamos salvos]
deus está nu...
- despiu-se de sua divindade
e de sua eternidade...
- perpétuo penúltimo ato
[estamos salvos]
Izabel Lisboa
domingo, 10 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Porque não aceitei o prêmio do PNBE
Blog da Professora Amanda Gurgel: http://blogdaamanda.com.br/
____________________________________
Oi,
Nesta segunda,o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio "Brasileiros de Valor 2011". O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio.
Mandei essa carta aí embaixo para a organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra.
Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações e campanhas que se dizem "amigas da escola".
Amanda
_______________________________
Natal, 2 de julho de 2011
Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,
Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.
Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald's, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.
A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.
Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.
Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.
Saudações,
Professora Amanda Gurgel
_______________________________-
Bravo!!!
E parafraseando
Gonçalves Dias:
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui Amanda Gurgeiam,
não Amanda Gurgeiam como Lá
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui Amanda Gurgeiam,
não Amanda Gurgeiam como Lá
Bravíssimo!!!
Izabel Lisboaquinta-feira, 7 de julho de 2011
Infâncias & Lembranças
[Texto
atualizado/reeditado – 07/11/2009]
Conheci no
Colégio de freiras, as tais vias pedagógicas
à antiga de mandar criança “lavar a
boca” quando o desajuizado órgão proferia palavreado de baixo calão; que por
descuido nosso, ou não, feriam os ouvidos santos das devotadas mestras. O
interessante é o uso que fazíamos disso! Quando entediadas (o colégio só
aceitava meninas) com a rígida disciplina de sala de aula proferíamos
propositalmente os tais palavrões, para sermos encaminhadas ao pátio no andar inferior
do colégio para lavarmos a maldita
boca e salvar a alma do fogo da Geena! Bons tempos aqueles! Infringir a “lei”
é excitante, e criança sabe bem disso! Chama-se: fazer arte! Perfeito!!! Uma criança arteira é uma criança esperta!
Contei isso para a turma do 8º ano do ensino fundamental onde concluí um de meus estágios vinculados ao curso de Licenciatura em Filosofia, os alunos arregalaram os olhos espantados e nada disseram, provavelmente riram por dentro, afinal esse é um tipo de infração fichinha diante das infrações que ocorrem hoje em dia em algumas escolas!
Contei isso para a turma do 8º ano do ensino fundamental onde concluí um de meus estágios vinculados ao curso de Licenciatura em Filosofia, os alunos arregalaram os olhos espantados e nada disseram, provavelmente riram por dentro, afinal esse é um tipo de infração fichinha diante das infrações que ocorrem hoje em dia em algumas escolas!
Não narro esse fato por saudosismo,
afinal a violência do “vigiar e punir”, apesar de suas sutilezas, deixou marcas
e traumas terríveis incrustados na alma de gerações inteiras. Mas, como disse
anteriormente, infringir a lei é excitante. É justamente desse impulso de questionar
e transgredir o estabelecido que nascem as revoluções e as significativas mudanças
históricas. Há no jovem, e na criança especialmente, uma energia que impulsiona
a alterar uma determinada ordem vigente. É próprio da juventude questionar e
buscar implantar uma nova ordem permeada por novos valores e desejos de novos
horizontes. O ímpeto dos Movimentos Estudantis, por exemplo, sempre foi fator
decisivo em inúmeras revoluções no mundo inteiro.
No entanto, essa energia, se
canalizada apenas para a violência destrutiva e nada mais, sem ter a reboque
uma reflexão politizada que, além de derrubar valores e dogmas vislumbre e
construa essa almejada nova ordem,
pode levar, não à destruição da ordem vigente que se questiona, mas à própria autodestruição,
à implosão daquilo que é imprescindível para saltos qualitativos na história de
um povo: a força da juventude.
E pelo andar da carruagem...
Matéria de
capa do Jornal A Tribuna de hoje, 07/07/2011:
Pancadaria e ameaça de morte em escolas da grande Vitória.
Um estudante foi agredido por 50 colegas em Cariacica
e, em Vitória, uma menina foi atacada por 15 pessoas. Os casos foram parar na
polícia. Na Serra sindicato afirma que
professores e alunos foram ameaçados de morte.
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Izabel
Lisboa
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Slavoj Zizek - Entrelinhas 19/06/2011
["Os poetas são perigosos"]
- Slavoj Zizek é professor, sociólogo, filósofo e teórico
crítico esloveno. Estudou Psicanálise na Universidade de Paris.
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Teoria: o real, o simbólico e o imaginário
Teoria: o real, o simbólico e o imaginário
O real
Segundo Žižek, o
"real" resulta ser um termo bastante enigmático, e não deve ser
equiparado com a realidade, uma vez que a nossa realidade está construída
simbolicamente; o real, pelo contrário, é um núcleo duro, algo traumático que
não pode ser simbolizado (isto é, expressado com palavras). O real não tem existência
positiva; só existe como abstracto.
Para Žižek, a realidade pode
ser desmascarado como uma ficção; basta ter presente certos aspectos - pontos
indeterminados - que têm que ver com o antagonismo social, a vida, a morte, e a
sexualidade. Temos que enfrentar com estes aspectos se quisermos simbolizá-los.
O real não é nenhuma espécie de realidade atrás da realidade, mas sim o vazio
que deixa a própria realidade incompleta e inconsistente. É o espectro do
fantasma; o próprio espectro em si é o que distorce a nossa percepção da
realidade. A trilogia do simbólico/imaginário/real se reproduz dentro de cada
parte individual da subdivisão. Há também três modalidades do real:
- O "real simbólico": o significante reduzido a uma fórmula sem sentido (como em física quântica, que como toda ciência parece arranhar o real mas só produz conceitos apenas compreensíveis)
- O "real real": uma coisa horrível, aquilo que transmite o sentido do terror nas películas de terror.
- O "real imaginário": algo insondável que permeia as coisas como um pedaço do sublime. Esta forma do real torna-se perceptível na película Full Monty, por exemplo, no facto de que na nudez dos protagonistas desempregados, estes devem despir-se por completo; noutras palavras, através deste gesto extra de degradação "voluntária", algo da ordem do sublime se faz visível.
A psicanálise ensina que a
realidade (pós-moderna) precisamente não deve ser vista como uma narrativa, mas
como o sujeito o há de reconhecer, suportar e ficcionar o núcleo duro do real
dentro de sua própria ficção.
O simbólico
Žižek afirma que o simbólico
inaugura-se com a aquisição da linguagem; é mutuamente relacional. Assim,
sucede aquilo de que "um homem só é rei porque os seus súbditos se
comportam perante ele como um rei". Ao mesmo tempo, permanece sempre uma
certa distancia no que diz respeito ao real (excepto na paranóia): nem só é
louco o mendigo que pensa que é rei, também aquele rei que verdadeiramente crê
que é um rei. Uma vez que efectivamente, este último só tem o "mandato
simbólico" de rei.
- O real simbólico é o significante reduzido
a uma fórmula sem sentido.
- O imaginário simbólico qual símbolos
jungianos.
- O simbólico simbólico como o falar e a
linguagem como sentido em si.
- O visor do monitor como forma de comunicação no ciberespaço: como um interface que nos leva a uma mediação simbólica da comunicação, a um abismo entre quem seja que fala e a "posição de falar" em si (p.ex. a alcunha, ou a direcção de correio). "Eu" nunca "de facto" coincido exactamente com o significante, não me invento a mim mesmo; em contrapartida, a minha existência virtual foi, em certo sentido, já confundida com o surgimento do ciberespaço. Aqui cada um, deve chegar a entender-se com uma certa insegurança, mas não pode ser resolvida como num simulacro de contingente pós-moderno.
Aqui também, como na vida
social, as redes simbólicas circulam á volta dos núcleos do real, deste modo,
as redes simbólicas, são a nossa realidade social.
O imaginário
O imaginário, segundo Žižek,
encontra-se situado ao nível da relação do sujeito consigo mesmo. É como o
olhar do Outro na etapa do espelho, a falta em esse reconhecimento ilusório,
como conclui Jacques Lacan citando a Arthur Rimbaud: "Eu sou um
outro" ("Je suis un autre"). O imaginário é a fantasia
fundamental que é inacessível á nossa experiência psíquica e se eleva do
espectro fantasmático em que encontramos objectos de desejo. Aqui também
podemos dividir o imaginário entre um real (o fantasma que assume o lugar do
real), um imaginário (a imagem/espectral em si que serve como isco) e um
simbólico imaginário (os arquétipos de Jung e o pensamento New Age). O
imaginário nunca pode ser agarrado, já que todo discurso sobre ele sempre
estará localizado no simbólico.
Todos os níveis estão interligados,
de acordo com Jacques Lacan (desde o seminário XX para a frente), numa forma de
nó gordiano, como três anéis enlaçados juntos de maneira que se um deles se
desenlaçar, o resto também cairia.
__________________________________sábado, 2 de julho de 2011
celeiros abarrotados
e quem te pediu o sol
para inquietares tu'alma
para inquietares tu'alma
e a chuva
para perderes o tino
para perderes o tino
e quem te pediu o vento
para estremeceres em sobressaltos
para estremeceres em sobressaltos
e o céu
para importunares os deuses
para importunares os deuses
nada te foi pedido
nada me foi negado
nada me foi negado
sobre todos velam os
deuses
com brandura...e com furor
com brandura...e com furor
a cada um: fardos e dádivas
árvores serão eternamente prisioneiras do solo
e do fogo quando esse se alastra...
mas...a cabeleira do vento dança
sobre a magnífica copa das árvores
e carrega sementes e faz promessas...
em metáforas de liberdade
rege a orquestra da natureza em regozijo
mas...assusta e faz calar tambores...
árvores serão eternamente prisioneiras do solo
e do fogo quando esse se alastra...
mas...a cabeleira do vento dança
sobre a magnífica copa das árvores
e carrega sementes e faz promessas...
em metáforas de liberdade
rege a orquestra da natureza em regozijo
mas...assusta e faz calar tambores...
Izabel Lisboa
quarta-feira, 29 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
da visão
Não me canso de lançar a vista até onde a vista alcança
Vejo chegar de lá estrondosos
ecos de adormecidos sonhos...
A nostalgia vem junto aguar as sementes
A nostalgia vem junto aguar as sementes
Izabel Lisboa
pintor_iraniano/ imagem google
sábado, 25 de junho de 2011
dos meus (des)equilíbrios...e paradoxos
amo a imensidão do desconhecido cuja metáfora o mar e a poesia encarnam
amo o amálgama com que o poeta entrelaça e vivifica as palavras
a trama dos arranjos com que dispõem no poema os versos
sim
eu amo...e disseram-me que há um enorme perigo em amar assim
- a alma dos poetas trilha a bamba corda dos habilidosos (des)equilibristas
a ginga do cai não cai dos malabaristas e trapezistas...
- a alma dos poetas trilha a bamba corda dos habilidosos (des)equilibristas
a ginga do cai não cai dos malabaristas e trapezistas...
[ai
de mim...que almejo a lua...mas tenho pavor das alturas]
Izabel
Lisboa
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Quero você...
por Paulo Jonas de Lima Piva
Quero você perigueti.
Quero você perigueti sim, o máximo de perigueti que você conseguir ser.
Quero você perigueti também. Com minissaia, com microshort e decote,
vestido curto apertado, com a barriga de fora e o peircing do umbigo
fazendo o universo girar em torno dele. Quero você maquiada, perfumada,
os cabelos selvagens, tudo em exagero. Esqueça o pudor. Quero você com
aquele batom, aquele que depois de bêbada faz você deixar pistas. Essa
tribal nas costas, esse beija-flor na cintura, pode deixá-los à mostra.
Essa fadinha no pezinho, os dedinhos... deixe-os respirar nus, do alto
de um salto. Essa tornozeleira, engatilhe-a. Ria do jeito que você
quiser. Dance seu funk moralmente descansada. Desça na boquinha da
garrafa soberana. Pisque e sorria da maneira mais fatal. Seduza, mostre
a língua, morda os lábios, faça charme, doce. Seja coquete, vulgar,
afinal, você já leu Nietzsche e Blake em demasia, passou anos no mofo
das bibliotecas, perdeu horas demais longe do espelho...
quinta-feira, 23 de junho de 2011
verso tanto / tanto verso
verso sonso
tonto
verso
verso
pranto
e
acalanto
verso
novo
velho
verso
verso
ninho
e
passarinho
verso
reto
torto
verso
verso
louco
e
natimorto
verso
canto
decanto
verso
verso
manto
e
pirilampo
verso
espanto
manso
verso
verso
santo
e
sacrossanto
verso
(in-)verso
invento
verso
verso
penso
o
universo
Izabel
Lisboa
quarta-feira, 22 de junho de 2011
dias de vento
cabelos ao vento/por Maria R.
Vilela
aguardo pacientemente
por aquela rajada de
vento norte
que pelos cabelos me
agarre forte
e me arranque à força
e me arranque à força
das garras da inércia...
Izabel Lisboa
sexta-feira, 17 de junho de 2011
anjo puro...anjo indecente
anjo - imagens Google
num desses dias assim ele me apareceu
dias azuis
azuis turquesa
trazia seu céu
dizendo com alma a sorrir
que aquele céu era meu
linguagem inaudita era a sua
proscrita indecente e bem dita
qual silêncio de sereia
que seduz mais que seu canto
e conduz o feliz delirante
a se entregar desejante
como não dar-me inteira
ao meu puro e doce anjo do amor
como não dar-me inteira
ao meu puro
doce e indecente
anjo do amor...
deixou em mim o seu cheiro
doce perfume de eros
gotas e gotas de amor
bálsamo eficaz curador
tirou-me a dormência da alma
tirou-me o terrível torpor
Izabel Lisboa
terça-feira, 14 de junho de 2011
COMO DEIXAR DE RESPIRAR PELAS PALAVRAS
Por António Cabrita
Escritor e jornalista português, residente em Maputo/Moçambique
In: http://raposasasul.blogspot.com
***
(«Quando um indivíduo perde contacto com o universo mítico, encontrando-se a sua existência reduzida ao domínio dos factos, a sua saúde mental encontra-se em grande perigo», Jung)
A literatura é um «fazer-mundo» e não um mero patamar para o entretenimento.
Por isso Gabriela Llansol não é ensinada nas escolas. Não é possível fazê-lo. Não é possível dar aulas sobre Herberto Helder, ou sobre o Fluxo-Floema de Hilda Hilst. A dificuldade de pegar em António Ramos Rosa ou em Vicente Franz Cecim decorre de serem autores que abrem janelas para «outra realidade», e segui-los obriga a um gaguejar. Que professor de literatura admite o atrito nos seus patins? Não há aporias para o professor de literatura, que amêndoa todas as palavras na sua língua até ficarem inteligíveis.
Daí que nas festas da Comunidade Portuguesa, no dia 10 de Junho, pelo mundo, se continuem a VOMITAR poemas de Régio e Torga, de Sophia e de Jorge de Sena. Coitada da Sophia, que odiaria que em seu nome silenciassem a sua filha, Maria Andresen, excelente poeta, mas que coitada sofre do crime de só ter começado a editar há dez anos. E o Sena não tem culpa de ser misturado entre o Fado da Canoa e as danças de salão pelos representantes de um povo que não o respeitou nem entendeu em vida e a quem ele devidamente azucrinou em O Reino da Estupidez. Mas como os responsáveis das festas do 10 de Junho não o leram… continuam a abusar-lhe da paciência.
Vem isto a propósito de como me subiu a mostarda ao nariz quando uma amiga, inocentemente, me perguntou, visto que eu escrevia com facilidade (outra ilusão a fustigar um dia destes), porque é que eu não escrevia “adaptações de clássicos”.
Primeiro ter de explicar que não se macaqueia o Dickens, o Homero ou a Agustina Bessa Luís, é um cansaço.
O que nos separa, a mim e à minha amiga, é um defeito de geração. Ela é séria, amiga, boa professora e uma leitora atenta, mas já cresceu numa geração em que a literatura não é uma vaca sagrada mas apenas um modo de contar histórias. Enquanto para mim é absolutamente e ainda uma vaca sagrada, um modo de respirar, uma gnoseologia. Uma vaca sagrada entrega-se à brincadeira como nenhuma outra – mas nessa brincadeira está em auto-reflexão e não em lassidão auto-complacente.
Hesito entre os filósofos que, como Leibniz, diziam que deus está no detalhe, e os que prescrevem que é a arte que está no detalhe. Ou antes, hesitava: agora escolho o detalhe.
A arte de Dickens, Homero ou Agustina está no detalhe, no desenho da tubulação em que conectam derivação e mito. É aí que se tornam trans e paradoxalmente se distinguem uns dos outros. O resto é a trama, a anedota – cuja suficiência, embora não pareça, não faz a literatura, tal como no cinema uma boa história não garante um bom filme.
Como é que se faz uma adaptação? Metendo a plaina no veio, matando o pormenor, o devaneio, para restituir intacta, num terço das páginas, o fio da trama.
Ademais, a literatura não é uma lotaria de sinónimos, mas aquilo a que Gadamer chamava, ironicamente, «a palavra conformada», para sublinhar que uma conformação desenvolve a sua própria forma, que emana de dentro e se apresenta aí (no texto, no poema) como ela mesmo e só ela mesmo, o que está no oposto da construção, que se faz de fora para dentro, consoante um plano, pelo que é indiferente usar um tijolo ou outro.
Experimente-se mudar um sinónimo numa novela de Raduan Nassar, num livro de Borges Coelho. A frase desmancha-se, só existia em função dessa formulação, como na antiga proporção áurea. Já é indiferente num best-seller. Pode-se pegar na informação contida numa página de Dan Brown e mudar tudo, tanto fazia escrever assim ou assado. Uma vez fiz este exercício numa sala de aula de português com um livro da Colecção Uma Aventura, de Isabel Alçada… Reescrevi completamente a primeira página do livro. E no fim perguntei à professora de português, que estava presente, como é que ela esperava transportar os alunos para o entusiasmo da língua apoiando-se em livros onde a narração se serve de palavras absolutamente desmotivadas, tão desmotivadas que todas se podem substituir por sinónimos. Nunca mais fui convidado para falar de literatura nas escolas, enquanto a Isabel Alçada continua no currículo das escolas portuguesas. Pior: a Isabel Alçada continua a ser responsável (ou era-o antes de ser ministra) pelos livros que entram ou não no Plano Nacional de Leitura. Talvez me falte ambição para ser ministro…
Mas continuando, bem sei que existem pilhas, colecções de resumos, de adaptações, que há editoras que vivem disso – e as escolas promovem-nas, sem que haja um professor que venha à boca de cena explicar que, primeiro é desonesto, e que, segundo, a única vantagem em ler os resumos de As Metamorfoses de Ovídio é a de deixar de respirar pelas palavras.
E esta não é uma matéria de opinião.
Deixar de respirar pelas palavras pode ser uma forma de entrar no princípio da realidade mas paralelamente mata a ciência com que a literatura nos obriga a respirar em todos os elementos, mediante o detalhado escafandro das palavras. Porque a literatura, meus queridos professores de português, não é o guarda-chuva mas o dilúvio.
Escritor e jornalista português, residente em Maputo/Moçambique
In: http://raposasasul.blogspot.com
***
(«Quando um indivíduo perde contacto com o universo mítico, encontrando-se a sua existência reduzida ao domínio dos factos, a sua saúde mental encontra-se em grande perigo», Jung)
A literatura é um «fazer-mundo» e não um mero patamar para o entretenimento.
Por isso Gabriela Llansol não é ensinada nas escolas. Não é possível fazê-lo. Não é possível dar aulas sobre Herberto Helder, ou sobre o Fluxo-Floema de Hilda Hilst. A dificuldade de pegar em António Ramos Rosa ou em Vicente Franz Cecim decorre de serem autores que abrem janelas para «outra realidade», e segui-los obriga a um gaguejar. Que professor de literatura admite o atrito nos seus patins? Não há aporias para o professor de literatura, que amêndoa todas as palavras na sua língua até ficarem inteligíveis.
Daí que nas festas da Comunidade Portuguesa, no dia 10 de Junho, pelo mundo, se continuem a VOMITAR poemas de Régio e Torga, de Sophia e de Jorge de Sena. Coitada da Sophia, que odiaria que em seu nome silenciassem a sua filha, Maria Andresen, excelente poeta, mas que coitada sofre do crime de só ter começado a editar há dez anos. E o Sena não tem culpa de ser misturado entre o Fado da Canoa e as danças de salão pelos representantes de um povo que não o respeitou nem entendeu em vida e a quem ele devidamente azucrinou em O Reino da Estupidez. Mas como os responsáveis das festas do 10 de Junho não o leram… continuam a abusar-lhe da paciência.
Vem isto a propósito de como me subiu a mostarda ao nariz quando uma amiga, inocentemente, me perguntou, visto que eu escrevia com facilidade (outra ilusão a fustigar um dia destes), porque é que eu não escrevia “adaptações de clássicos”.
Primeiro ter de explicar que não se macaqueia o Dickens, o Homero ou a Agustina Bessa Luís, é um cansaço.
O que nos separa, a mim e à minha amiga, é um defeito de geração. Ela é séria, amiga, boa professora e uma leitora atenta, mas já cresceu numa geração em que a literatura não é uma vaca sagrada mas apenas um modo de contar histórias. Enquanto para mim é absolutamente e ainda uma vaca sagrada, um modo de respirar, uma gnoseologia. Uma vaca sagrada entrega-se à brincadeira como nenhuma outra – mas nessa brincadeira está em auto-reflexão e não em lassidão auto-complacente.
Hesito entre os filósofos que, como Leibniz, diziam que deus está no detalhe, e os que prescrevem que é a arte que está no detalhe. Ou antes, hesitava: agora escolho o detalhe.
A arte de Dickens, Homero ou Agustina está no detalhe, no desenho da tubulação em que conectam derivação e mito. É aí que se tornam trans e paradoxalmente se distinguem uns dos outros. O resto é a trama, a anedota – cuja suficiência, embora não pareça, não faz a literatura, tal como no cinema uma boa história não garante um bom filme.
Como é que se faz uma adaptação? Metendo a plaina no veio, matando o pormenor, o devaneio, para restituir intacta, num terço das páginas, o fio da trama.
Ademais, a literatura não é uma lotaria de sinónimos, mas aquilo a que Gadamer chamava, ironicamente, «a palavra conformada», para sublinhar que uma conformação desenvolve a sua própria forma, que emana de dentro e se apresenta aí (no texto, no poema) como ela mesmo e só ela mesmo, o que está no oposto da construção, que se faz de fora para dentro, consoante um plano, pelo que é indiferente usar um tijolo ou outro.
Experimente-se mudar um sinónimo numa novela de Raduan Nassar, num livro de Borges Coelho. A frase desmancha-se, só existia em função dessa formulação, como na antiga proporção áurea. Já é indiferente num best-seller. Pode-se pegar na informação contida numa página de Dan Brown e mudar tudo, tanto fazia escrever assim ou assado. Uma vez fiz este exercício numa sala de aula de português com um livro da Colecção Uma Aventura, de Isabel Alçada… Reescrevi completamente a primeira página do livro. E no fim perguntei à professora de português, que estava presente, como é que ela esperava transportar os alunos para o entusiasmo da língua apoiando-se em livros onde a narração se serve de palavras absolutamente desmotivadas, tão desmotivadas que todas se podem substituir por sinónimos. Nunca mais fui convidado para falar de literatura nas escolas, enquanto a Isabel Alçada continua no currículo das escolas portuguesas. Pior: a Isabel Alçada continua a ser responsável (ou era-o antes de ser ministra) pelos livros que entram ou não no Plano Nacional de Leitura. Talvez me falte ambição para ser ministro…
Mas continuando, bem sei que existem pilhas, colecções de resumos, de adaptações, que há editoras que vivem disso – e as escolas promovem-nas, sem que haja um professor que venha à boca de cena explicar que, primeiro é desonesto, e que, segundo, a única vantagem em ler os resumos de As Metamorfoses de Ovídio é a de deixar de respirar pelas palavras.
E esta não é uma matéria de opinião.
Deixar de respirar pelas palavras pode ser uma forma de entrar no princípio da realidade mas paralelamente mata a ciência com que a literatura nos obriga a respirar em todos os elementos, mediante o detalhado escafandro das palavras. Porque a literatura, meus queridos professores de português, não é o guarda-chuva mas o dilúvio.
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