sábado, 4 de junho de 2011

A METAMORFOSE (FRANZ KAFKA)

[um olhar]

Em sua obra, A Metamorfose, Franz Kafka delineia a condição de desamparo e deslocamento existencial com as quais os seres humanos, uns mais intensamente, outros menos, uns com mais freqüência, outros nem tanto, se deparam no percurso de suas vidas.
Com Kafka e sua A Metamorfose percorremos a dimensão deserta da alma humana, vislumbramos através do olhar do escritor o irracional, dimensão que extrapola a ratio. Essa dimensão deserta que se expande na alma pode ser experimentada como sentimentos de vazio, inquietação, e obscuridade interior. O ser humano, mergulhado nessa experiência, experimenta na vida ordinária, através dos vários relacionamentos que trava em família, no ambiente de trabalho, enfim, em sua convivência social, uma profunda insegurança, não encontrando, psiquicamente e emocionalmente, apoio, amparo algum, sente-se “deslocado”.
E como um ser deslocado, independente do espaço físico em que vive, experimenta a condição de estrangeiro numa terra árida, terra que não lhe pertence nem o acolhe. No caso especifico do protagonista da novela, Gregor, esse deslocamento se dá tanto no âmbito familiar, como no social. No âmbito familiar é fundamental a presença opressora do pai, figura por demais austera que lhe incute medo e frustração. No âmbito social o personagem é massacrado por um sistema burocrático, opressor, que praticamente reproduz em Gregor os mesmos sentimentos de medo e frustração que são experimentados através da figura paterna. Duplo deslocamento, duplo desamparo.
“Quando certa manhã Gregor Samsa despertou [...]” (p.1). Profundamente significativo é o despertar de Gregor. Após esse despertar o protagonista se vê transformado em um terrível e asqueroso inseto. O inseto que sempre fora e não se dava conta. Gregor arrastava como um enfadonho peso uma vida tão monótona e vazia, como a vida de um insignificante inseto. Caixeiro viajante, provedor das necessidades da família, explorado e humilhado pelo patrão calculista e arbitrário, sem perspectiva alguma de um salto qualitativo e significativo em sua medíocre existência de inseto disfarçado de ser humano. Se vê trancafiado. Mais do que dentro de um diminuto quarto, encontra-se trancafiado dentro de si mesmo. Impressiona sua dificuldade de locomoção, sua dificuldade de alto-reconhecimento e adaptação ao corpo daquele estranho inseto. A princípio, e mesmo durante todo o desenrolar da novela, Samsa não se adapta ao estranho corpo, locomove-se desajeitadamente, “mudar de direção” lhe é terrivelmente penoso, machuca-se e fere-se com freqüência. Essa inadaptação desconfortavelmente nos parece familiar. É como que o retrato do desconforto que ordinariamente experimenta o homem. Não qualquer homem, mas aquele que se vê enredado por uma vida sem sentido, aquele que desperta, como Samsa, e enxerga horrorizado sua real condição de estrangeiro, de refém de uma paralisia que o aprisiona dentro de si mesmo. Homens que experimentam um profundo desespero ante o absurdo da existência que não comporta sentido.
É necessário espaço. Isso é imediatamente percebido e providenciado pela irmã e pela mãe de Gregor, ávidas por darem uma condição de vida mais digna para aquele medonho ser para o qual nem podiam olhar. Adiantam-se a retirar do quarto de Gregor tudo o que não é mais necessário. Necessário, apenas, é o velho sofá, esconderijo propício, esconderijo psíquico para um rastejante inseto... Espremido sobre aquele familiar esconderijo Gregor “passa seus dias”. O quarto vazio não fez o efeito desejado, ao contrário, acentua o vazio existencial, envolve Gregor em profunda melancolia. Sente-se cada vez mais solitário. Seu contato com a família limita-se a escutar furtivamente atrás da porta suas conversas na sala de jantar ao lado de seu quarto. É rejeitado pela família por ser frágil, diferente e repulsivo. Ao se dar conta de que ninguém mais se aproxima dele, nem mesmo sua irmã, que a princípio demonstrava solicitude para com ele, Gregor deixa-se morrer lentamente. Morre de solidão, abandono e tristeza.
Após sua morte é desconcertante observar certo alívio por parte da família, que já estava prestes a, de alguma forma, livrar-se do incômodo traste.
Interessante notar que apesar de o texto de Kafka estar repleto de elementos universais, isto é, que dizem respeito a características encontradas nos seres humanos em geral, a experiência descrita em A Metamorfose refere-se a um momento histórico específico, ou seja, é algo pessoal vivido pelo autor. Se conferirmos os vários resumos bibliográficos existentes sobre o autor veremos que impressiona a semelhança existente entre o personagem protagonista de A Metamorfose, Gregor Samsa, e o autor da obra, Franz Kafka:

"Romancista novelista e contista austríaco judeu nascido em Praga, então pertencente ao império austro-húngaro e hoje capital Checa, um dos mais admirados e traduzidos intelectuais da literatura mundial, cujas obras tornaram-se proféticas das perseguições que os judeus passaram a sofrer poucos anos após sua morte. Filho de um pequeno comerciante teve infância e adolescência marcadas pela figura dominadora do pai, para quem apenas o sucesso material contava. Estudou direito na Universidade de Praga (1901-1906), onde conheceu seu grande amigo e posterior biógrafo, Max Brod. Começou então a freqüentar os círculos literários e políticos da pequena comunidade judaico-alemã, na qual circulavam idéias e atitudes críticas e inconformistas, com que se identificava. Na sua formação intelectual tiveram peso especial a leitura de Heinrich Von Kleist, Flaubert, Pascal e Kierkgaard e o ambiente de Praga, cidade medieval gótica dotada de elementos eslavos, alemães e de barroco sombrio. Concluído o curso, empregou-se (1908) numa companhia de seguros, como inspetor de acidentes de trabalho e viveu obscuramente e inconformado como empregado, pois o mesmo o impedia de se dedicar totalmente à atividade literária. Com uma série de fracassos amorosos, entregou-se ao sentimento de solidão e desamparo que nunca o abandonaria. Escreveu seu primeiro livro, Beschreibung eines Kampfes (1909), publicado na íntegra postumamente (1936), onde ele próprio manifestou essas circunstâncias. Suas obras-primas seriam Der Prozess (1925) e Das Schloss (1926), publicadas postumamente por Max Brod. Durante sua vida nunca conseguiu atingir grande fama com seus livros, porém o escritor deixaria uma obra literária que teria enorme influência sob as futuras gerações e que é cultuada por quase todo o planeta. Atacado pela tuberculose (1917) submeteu-se a longos períodos de repouso.
Deixou definitivamente o emprego (1922) e, excetuadas breves temporadas em Praga e Berlim, passou o resto da vida em sanatórios e balneários. Vinte anos após sua morte em um sanatório, em Kierling, perto de Viena, onde se internara, conquistou inédito prestígio mundial. Com um estilo sobriamente realista, alguns críticos consideram suas obras como símbolos do comportamento humano. Como escritor tcheco de expressão alemã, vários de seus livros foram transformados em filmes [...]. Contra o desejo expresso do escritor, que queria que seus inéditos fossem queimados após sua morte,
Max Brod publicou romances, textos em prosa, correspondência pessoal e diários. Sua obra teve profunda influência sobre movimentos artísticos como o surrealismo, o existencialismo e o teatro do absurdo. [...]"

A Metamorfose é profundamente exuberante em sua simbologia. Coloca o leitor diante do assombro e da estranheza da condição humana e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, diante da docilidade, ou mesmo resignação e falta de assombro (ou seria uma forma de revolta?) com a qual alguns homens aceitam tal estranheza e desamparo.
Complicado seria tentar desvelar, de forma radical e unilateral, o significado de tão densa e rica simbologia contida na referida obra. Albert Camus, poeta do absurdo, com extrema lucidez observa:
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"A Metamorfose, [...], representa certeiramente a terrível iconografia de uma ética da lucidez. Mas é também produto do assombro incalculável que o homem experimenta ao sentir o animal em que ele se transforma sem muito esforço. Nessa ambigüidade fundamental reside o segredo de Kafka. Essas vacilações perpétuas entre o natural e o extraordinário, o indivíduo e o universal, o trágico e o cotidiano, o absurdo e o lógico se apresentam ao longo de toda a sua obra e lhe dão ao mesmo tempo sua ressonância e sua significação. São paradoxos que é preciso enumerar, contradições que é preciso reforçar para compreender a obra absurda.Um símbolo, de fato, supõe dois planos, dois mundos de idéias e de sensações, e um dicionário de correspondências entre um e outro. Esse léxico é o mais difícil de estabelecer. Mas tomar consciência dos dois mundos presentes significa enveredar pelo caminho de suas relações secretas. Em Kafca esses dois mundos são da vida cotidiana, por um lado, e a inquietude sobrenatural, por outro lado.
Parece que assistimos aqui a uma interminável exploração da frase de Nietzsche: “Os grandes problemas estão na rua”.
Na condição humana, e isto é lugar-comum de todas as literaturas, há uma obscuridade fundamental ao mesmo tempo que uma implacável grandeza. Ambas coincidem, como é natural. Ambas refletem, repitamos, no divórcio ridículo que separa as nossas intemperanças da alma e as alegrias perecedouras do corpo. O absurdo é que a alma desse corpo o ultrapassa tão desmedidamente. Para representar esse absurdo, será preciso dar-lhe vida num jogo de contrastes paralelos. Assim Kafka expressa a tragédia pelo cotidiano e o absurdo pelo lógico. (Camus, 2007, p.147/148)."

Mais justo, talvez, fosse lançarmos um olhar sobre A Metamorfose, de Franz Kafka, buscando focar puramente o aspecto estético, vislumbrando, no entanto, como sugere Camus, a cumplicidade secreta que une no trágico o lógico e o cotidiano.
De que homem Kafka fala? Quais são seus arranjos? Como descrever esse homem antropologicamente?
Franz Kafka, pensador Absurdista, utiliza-se do Realismo fantástico, recurso literário rico em simbologia e pontilhado pelo fantástico e pelo absurdo, para falar da dimensão humana e de uma antropologia construída através de uma realidade cotidiana em que “o autor esteve lá” e esse é o diferencial que marca a dimensão antropológica de Franz Kafka. Ele fala do que viveu e experimentou. O que Kafka escreveu não está somente em seu imaginário, toda a simbologia da obra refere-se a um fantástico verdadeiro, ou seja, a construção de sua ficção se faz a partir do vivenciado, a partir de sua própria experiência de vida, de sua história com sua família, da influência da região geográfica onde está inserido (ambiente de Praga, cidade medieval gótica dotada de elementos eslavos, alemães e de barroco sombrio), como também das nuances sociais que o circundam. O resultado dessa veracidade latente é que a trama nos atinge em cheio, nos faz refletir sobre nosso mundo, comparando-o com o mundo do outro, questão básica da antropologia.
Ao utilizar como argumento central da novela uma metamorfose pela qual passa um caixeiro viajante, que, da noite para o dia, transforma-se em um inseto, Kafka demonstra que o corpo humano é muito mais que a soma de seus órgãos. Pela via do sofrimento [poderia ter sido pela via da satisfação] Gregor toma consciência que tem um corpo. Porém, por causa de todas as vicissitudes sofridas, a consciência que Gregor tem de seu corpo é profundamente distorcida e ele não o vê com características de um corpo humano, mas se vê como um estranho inseto. Essa metáfora central na obra aponta para o fato de que o corpo, sem dúvida, é parte significativa na experiência existencial humana e, muitas vezes, instrumento da expressão da “vida emocional” de seu dono(a). Ou seja, para além das leis mecânicas, fisiológicas, bioquímicas, etc., o corpo é palco onde são representados muitos dos conflitos existenciais. Portanto, comporta uma linguagem, a linguagem corporal.
Resta-nos fazer, diante das semelhanças entre protagonista e autor, uma importante comparação entre os diferentes rumos e escolhas feitas por ambos:
O que Gregor Samsa faz quando desperta para sua existência medíocre como a de um insignificante inseto? Deixa-se morrer, vítima de sentimentos de inquietação, culpa e isolamento. Ou seja, fecha-se e assim definha até a morte. Morte que, em sentido figurado, já experimentava em vida.
O que faz Kafka quando passa em sua vida cotidiana pelo mesmo despertar? Desenvolve, e é impulsionado a desenvolver, o processo criativo. Em seu caso específico, a literatura.
Portanto, apesar das experiências de vida do protagonista e do autor coincidir, os arranjos que fazem vão em direções opostas: o primeiro fecha-se e morre, o outro, o autor, abre-se e transcende para o processo criativo inerente a dimensão humana.


Concluo confessando que a obra me fascinou e perturbou profundamente. Afinal, não é tão raro fazer a experiência de despertar pela manhã, de vez em quando, sentindo-se um asqueroso e medonho inseto?!

Izabel Lisboa


BIBLIOGRAFIA
KAFKA, Franz. A Metamorfose / Um Artista da Fome / Carta a Meu Pai. São Paulo: Martin Claret, 2004.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo: Apêndice: A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka. 4, ed. Rio de janeiro: Record, 2007.