terça-feira, 31 de agosto de 2010

leveza























pura delicadeza
amar-se é bom
sentir-se feliz
amar os espelhos
feliz ao refletir-se neles
ser assim
do jeito que se quer
amar-se assim
do jeito que se é
permitir-se
dizer sim
sem ponderações
sem esconderijos
nem rupturas
respirar fundo
sempre
de corpo e alma
o doce frescor de viver
agitar-se
cantar-se
encantar-se
amar-se é bom...
***
Izabel Lisboa

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Antonio Banderas - Take the Lead - Tango scene

fala

não te cales
por favor não te cales
é desse amor que tu falas que eu conheço
sem metáforas exuberantes
sem aristocracias ou erudições
tu falas uma linguagem nossa
é sobre nós que tu falas
essa é a nossa língua
inventamos juntos nossos conceitos
apenas te peço para não sufocarmos nosso recíproco desejo
é a densidade de Eros em ti e em mim que eu almejo
que transpareçam escancarados em nossa fala
o amor o lirismo e o desejo
eunucos e vassalos da linguagem em nada nos trarão proveito
sob o fogo de tua ardente fala eu me aqueço
meu corpo inflama-se
eu também não emudeço
meu corpo entende tua linguagem
em ti me reconheço
e se partilhas comigo o veneno que fabricas em tua língua
inebriados ambos morreremos satisfeitos
de amor... de lirismo... e de desejo
***
Bel Lisboa

terça-feira, 24 de agosto de 2010

eu...

Boca Livre e Roberta Sá

Janela aberta para o mundo...


Tem dias que a gente amanhece meio assim, mais pra lá do que pra cá. Parece que a cama é um ímã poderoso. Se deixar a gente vai ficando... Esse negócio de férias nos acostuma muito mal, pra pegar no tranco de novo não é moleza, justamente por causa da moleza! Mas o que ameniza a minha culpa é o fato de ficar lendo até tarde... Aí, pela manhã, dá uma preguicinha!!!

Mas as frestas de sol entrando através da persiana vêm reclamar atenção, instigam nossa mente e nosso corpo a reagir. Afinal o astro rei é poderoso mesmo, impossível permanecer alheia àqueles delicados, mas incisivos raios de luz! Sem contar a cantoria que os bem-te-vis aprontam em minha janela... Esplendido!

E num salto me ponho de pé. Kafka que me perdoe, mas recuso deixar-me metamorfosear. Se eu ficar deitada até tarde, aí sim, vou me sentir uma barata medonha!

Como sempre faço vou até a cozinha pegar um copo de água para tomar meu Euthirox 75, rotina farmacológica que, segundo o médico endocrinologista, me acompanhará por toda minha doce vida. O que seria de nós sem os avanços da medicina! Minha tireóide agradece.

Ainda com o copo na mão vou até a sala e ligo a TV, essa janela aberta para o mundo!

Dizem algumas almas, muito voltadas à praticidade, que olhar para o céu é um desperdício e que olhar para o lado será bem mais proveitos... Eu hoje cheguei à conclusão que assistir televisão, dependendo daquilo que você assiste na televisão, é da ordem de buscar a liberdade e se aprisionar mais ainda, é buscar na superficialidade suprir necessidades profundas... Bate uma frustração!

Há tempos atrás eu era mais paciente em me colocar diante da TV. Agora, talvez pela idade, acho que estou mesmo ficando velha (ta bom, mais madura!) e isso é ótimo, perdi a paciência, e descobri que perder a paciência às vezes é ótimo, agora faço isso sem culpa, igual criança. Tenho a impressão, que se eu me puser a assistir certas programações de TV, minha vida estará indo pelo ralo e que a televisão é uma máquina de moer vidas. Talvez o termo melhor seja sugar vidas.

Sei que temos o abençoado controle remoto e com ele podemos escolher o canal e a programação que pretendemos deixar entrar em nossa privacidade doméstica. O problema é que às vezes, dependendo do horário, não temos opção. E tome programas que misturam de tudo, culinária, fofoca sobre a vida de artistas, telejornalismo sensacionalista, tele-shopping onde vendem de tudo, até a mãe em 10 parcelas sem juros, e sem necessidade de consultar o seu cadastro.

E os desenhos animados então! Já notaram como estão medonhos! Monstros e mais monstros! Horrorosos! Fico imaginando que se a historinha do Chapeuzinho Vermelho é tida por alguns como nociva ao desenvolvimento saudável das crianças, o que dizer então desses desenhos produzidos hoje?!

Estou mesmo sem paciência... Graças a Deus!

Mas não quero radicalizar minha negatividade sobre a programação da TV. Existe uma programação em canais como a TV Educativa, TV Cultura, Canal Futura, TV Senado, TV Câmara, TV Assembléia e algumas outras, que têm colocado no ar uma gama de reportagens, entrevistas e documentários que além de boa informação têm resgatado a memória política, cultural, cinematográfica, literária, social, do País. Além de não seguirem a linha sensacionalista, característica dos canais ditos “comerciais”.

Acompanhei recentemente uma reportagem, na TV Câmara, com a ex-guerrilheira brasileira Vera Silvia Magalhães, militante revolucionária no período do regime militar. Ela sofre até hoje com as várias sequelas deixadas pela tortura a que foi submetida no decorrer de meses consecutivos após sua prisão durante o regime.

Fiquei aterrorizada e ao mesmo tempo encantada. Aterrorizada com o testemunho vivo de uma vítima da tortura e do exílio político, e encantada por ter a oportunidade de assistir através da TV entrevista extremamente importante para resgatar a história política de nosso País.

Na mesma linha de programação assisti em outra oportunidade um documentário sobre o “suicídio/assassinato”, em outubro/1975 no DOI/CODI/SP, do jornalista, professor e teatrólogo, Wladimir Herzog, acusado de possíveis ligações com o PCB.

Portanto, tenho tido a oportunidade de assistir matérias de qualidade, e não vou agora somente jogar pedras na programação televisiva com a qual podemos contar.

Porém, não percamos de vista que os canais comerciais são um grande filão econômico explorado por poderosas organizações. Mantêm uma hegemonia que, em se tratando de mídia televisiva, são grandes responsáveis pela formação da opinião pública. Se esse tipo de mídia dita que, o que está em voga no momento é um determinado caso policial, esse caso policial é o que será notícia por um bom tempo; até o momento em que essa mesma mídia resolva mudar o prato do dia em matéria de notícia. E o termômetro para mudar o tal prato do dia é a AUDIÊNCIA. Enfim, é o antigo, mas eficiente, TUDO POR DINHEIRO! Sem contar os interesses políticos que com certeza, por trás das câmaras, ditam as regras do jogo!

Assistindo a programação dos canais comerciais de TV, tem-se a constatação de como a mídia televisiva foi, e ainda é, instrumento de manipulação, alienação e dominação da grande massa da população. Sua programação tendenciosa em busca de melhores índices de audiência denuncia isso abertamente...

Enfim, desliguei a TV na cara da Ana Maria Braga e seu pudim de claras. Fechei bem as persianas e, ao som dos bem-te-vis, dormi mais um pouquinho, afinal estou de férias, o quê é que tem acordar uma baratinha uma vez na vida...?!

Quem quer casar com a senhora baratinha, que tem fita no cabelo... zzzzzzzz....

Izabel Lisboa

Amistad - O navio negreiro - Caetano Veloso

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

o peito de Pedro

o peito de Pedro é pranto
lamento
saudade
dor e
acalanto


o peito de Pedro é leito
sol
torrão
céu e
paixão


o peito de Pedro é ônix
ouro
negro
sangue e
bronze


o peito de Pedro é pátria
verde
amarelo
azul e
África


o peito de Pedro é luta
muralha
batalha
vitória e
labuta


Izabel Lisboa

sábado, 21 de agosto de 2010

Tango Dance with new Music

pistas




















você nem notou
não viu a luz em meu olhar
no momento em que eu era feliz
não viu a lágrima brotar
da solidão onde eu me escondi


você precisa me redescobrir
vasculhar meus meandros
conhecer meus segredos e novos encantos
desvendar mistérios em meus recantos
reencontrar-se em mim


arrumemos juntos nossas gavetas
limpemos a poeira de nossas estantes
abrirei as janelas e deixarei a luz entrar
e invadir cada cômodo do nosso lugar
deixemos pistas para nos reconduzir até lá


não deixe a tardinha cair
o sol da vida minguar
o vento frio da morte soprar
faça você mesmo suas trilhas
e percorra ao encontro do nosso lugar


lá você vai me encontrar


Izabel Lisboa

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Belchior canta "Divina Comédia Humana" - 1982

O velho lençol

O velho lençol da enfermaria guarda muitas histórias. Apresenta-se meio desbotado,
experimentou noites de dor e silêncio,
acalentou frio e medo.
Noutras circunstâncias, aparou vômitos, fezes e sangue.
O velho lençol, hoje, parece fatigado,
Tem manchas e descosturas.
Nestas noites indômitas,
muitos gemidos contidos.
No último serviço fez-se embrulho, pacote lacrado, fechado, envolvendo um corpo inerte que era vida.
O velho lençol da enfermaria tem a sabedoria do vivido:
nem chora, nem reclama. Acha que é destino.

Antonio Mourão Cavalcante
(médico e poeta)

In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/12/a-morte-como-encantamento-antonio-mourao-cavalcante/
eu...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vinicius de Moraes & Toquinho - A Rosa Desfolhada

Natureza morta

O cravo brigou com a rosa debaixo d’uma sacada! Tá certo que o cravo saiu ferido, mas a rosa – triste fim – saiu despedaçada! O príncipe, desalmado e sem coração, encerrou a pobre coitada numa redoma e foi viajar pelos mundos! Acho que é por isso que o tal do príncipe era “pequeno”!
O enamorado, romântico e apaixonado, no intento de agradar a sua amada, se achou no direito de mutilar a pobre rosa retirando-lhe os espinhos, única proteção para seu frágil e delicado corpo! Hediondo isso!
Os amantes que antes viviam só de: “receba as flores que lhe dou, em cada flor um beijo meu”, agora enciumados e em pé de guerra, não se contentando apenas em se agredirem reciprocamente, investem contra a pobre infeliz que é lançada no frio mármore da morte, desfolhada e esmagada pela ira e pelo pérfido ciúme...
E, para não ficar só nas desventuras da rosa, vale lembrar o quanto deve ter sofrido a desvalida camélia para chegar ao ponto que chegou! Cair do galho, dar dois suspiros e depois morrer?! Dar cabo da própria vida, ainda tão jovem e bela? Isso é doloroso demais!
Afinal, alguém pode me dizer o que está acontecendo?! Por que tamanha insensibilidade?! É guerra, é?
Depois não venham reclamar que estão se alastrando por aí “Marias sem vergonha”, “trepadeiras”, e várias espécies de plantas carnívoras! Toda paciência tem limite, né não?!


Izabel Lisboa

hora capital

caiu a tarde
garoa fria
vespertina melancolia
uma vida cinza
dispensou o elevador
subiu as escadas
degrau por degrau
como a velar por si mesmo
[velório antecipado]
oitavo andar
a lágrima caiu primeiro
última gota de angustia
depois o corpo...
o transito ficou interditado na Jerônimo Monteiro
por uma hora
após a perícia fluiu livremente...

Izabel Lisboa

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

serial killer





















a traça comeu

o Pessoa
o Machado
o Rosa
o Bandeira
a Lispector
e após comer o Aurélio
morreu
deve ter ido para o inferno
a maldita
e eu
comprei de novo
o Pessoa
o Machado
o Rosa
o Bandeira
a Lispector
o Aurélio
e naftalinas


Izabel

domingo, 15 de agosto de 2010

aprendiz de Jó

amarrei o ódio num canto de mim
tranquei a sete chaves
algemei amordacei...
queria calar o mal[dito]


mas o bicho era tinhoso
tinha caraminholas na cachola
e foi fervendo e tentando
derreter as amarras


debateu-se sangrou
grunhiu vociferou
reprimi resisti
algo em mim era contrário a isso



desejos contraditórios
fervilhavam por dentro
forçavam as portas...
desejos de arrombamento


[era o ódio tramando agir]


fingi que não vi
ignorei
cantarolei um blues
e parti


quando voltei...
nem sinal do infeliz...
[se não abriu feridas
não deixou cicatriz]


Izabel Lisboa

Gota d'água (Sub. español) - Chico Buarque

sábado, 14 de agosto de 2010

do lodo, a flor...

















do lodo, a flor...

salve arte poética!
que brota dos esgotos
dos ralos
das fossas existenciais

uma roseira há de brotar do lodo
lírios haverão de florir no limbo
um jardim surgirá do lixo
flores miúdas cobrirão o escorregadio limo

ah! poesia salvífica!
faxineira bendita das almas
dos poetas ditos malditos
das meretrizes devassas

poesia carpideira
que vela sobre almas moribundas
que penetra frestas e rachaduras
de feridas abertas sem brandura



salve arte poética adubada pela dor...!

 
Izabel Lisboa

saudades de mim




















ando com umas saudades...
com um não sei quê que me aperta o peito...


desejos de realizar sonhos e concretizar promessas
preparar para minh’alma uma grande festa
na clareza de não viver prisões
na certeza de não ser cativa
expandir o coração e abraçar a vida
abrir portas e janelas sem medo e sem medida
mergulhar nos mistérios que me fazem viva
buscar no fundo de minh’alma a esperança que não foi perdida


ando com umas saudades...
com um não sei quê que me aperta o peito...


Izabel Lisboa

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O conceito de tempo, do misticismo aos dias modernos

Elcio Abdalla Professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo

In: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-99892009000200005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt#tx01

Desde que o homem se percebeu como inteligência, ele olhou para os céus e perguntou-se sobre a origem de todas as coisas, inclusive de si mesmo. Viu-se também compelido a olhar para os céus como modo de previsão de fenômenos.
Os céus nos dão razões de sobra para que o examinemos. Há uma vertente prática no quotidiano do homem, qual seja, a da marcação do tempo, previsão das colheitas, antecipação meteorológica. O ciclo de verões e de invernos era de vital importância para o homem antigo e uma eventual perda de tal antecipação poderia levar à morte de uma sociedade pela fome.
Há, no entanto, uma segunda vertente, independente e aparentemente longínqua da primeira, mas, ainda assim, indissociável dela, posto que será o outro lado da inquirição científica. Refere-se esta à mitologia e à pergunta sobre a origem do universo e do homem. Essa vertente mística seria a origem da pergunta científica sobre a origem do cosmos, sobre a compreensão do início do mundo e fazia parte, na época, da religiosidade e da mitologia.
Os mitos de criação falam do tempo de uma forma bastante direta e têm uma imagem direta nas diversas interpretações de tempo da física.
Assim, Caos e Noite geraram Érebo (escuridão). Depois vieram Éter (luz) e Hemera (dia). Hemera e Eros criaram Ponto (Mar) e Gaia (Terra), que gerou o Céu (Urano). Essa é a fase análoga ao tempo caótico, sem início ou fim, sem interpretação direta.
Gaia e Urano geraram os doze Titãs, entre eles Cronos e Rhea, três ciclopes e três gigantes. Farta do apetite sexual de Urano, Gaia pediu ajuda aos filhos. Cronos decidiu-se a ajudá-la. Esperou Urano com uma foice, com a qual o castrou, jogando os testículos ao mar, de onde nasceu Afrodite. Do sangue, nasceram as Erínias. Urano amaldiçoou o filho, vaticinando que os filhos de Cronos o trairiam. Cronos casou-se com Rhea. Comia seus filhos por temor de que eles cumprissem a maldição de Cronos. Cronos personifica o tempo, aquele que cria para posteriormente destruir. Representará o tempo da relatividade geral, assim como o tempo das religiões monoteístas, com um início, com uma criação a partir de algo desconhecido, caótico.





















De seus filhos, Rhea salvou Zeus dando a Cronos uma pedra embrulhada como se fora o novo filho. Cronos comeu a pedra pensando ser a criança. Zeus foi criado às escondidas, no Monte Ida.
Zeus retorna, exila Cronos e os Titãs no Tártaro, casa-se com Hera. Zeus gerou filhos e filhas, deuses e mortais, abrindo a época dos deuses olímpicos. É a era do tempo clássico, o tempo sem início ou fim, como o tempo de Newton, absoluto.
As religiões monoteístas tiveram, também, suas sugestões quanto à criação do universo e do homem, espelhadas, por exemplo, na arte renascentista. Essa visão de tempo, advinda dos gregos, é bastante ilustrativa e muito característica do pensamento filosófico grego, em que o psíquico e o científico se juntam de modo profundo. O tempo é, de fato, simultaneamente, substância psicológica intrínseca ao homem, que pensa dentro do tempo, e algo científico, aparentemente independente do observador humano, presente em qualquer experiência física realista.
Será interessante observarmos, ao final, que, depois de uma separação entre o tempo psicológico, desprezado pela ciência por séculos, e o tempo físico, realista, presente objetivamente, chegaremos a uma situação em que a própria existência objetiva do tempo fica colocada em questão. Vejamos como isso ocorre.
A metafísica do tempo já foi estudada em profundidade por grandes mentes. Entre os pitagóricos, e para Platão, há uma imagem divina para a origem do tempo. Nessa medida, teria havido a criação do tempo em moldes parecidos com a ideia bíblica. Conforme o dito pitagórico, "[…] Ele resolveu ter uma imagem móvel da realidade, então colocou ordem nos céus, fez desta uma imagem eterna mas não móvel, de acordo com os números, enquanto a eternidade restava em sua unidade, é a esta imagem que damos o nome de tempo". Para Aristóteles, tempo é movimento que admite enumeração.
Em uma interessantíssima série de diálogos públicos na década de 80 entre o físico David Bohm e o pensador indiano Jiddu Krishnamurti, a questão do tempo foi discutida de modo bastante particular, qual seja, no que tange ao tempo psicológico. Na opinião do pensador, o homem deve, de alguma forma, deixar o tempo para sair de seus conflitos e ter um novo começo. Algumas correntes psicológicas falam de um inconsciente irracional fora do tempo, atemporal. As duas opiniões, de origens diferentes, parecem convergir no que diz respeito ao tempo psicológico que poderia correr de modo diferente para cada ser diferente. Perguntaríamos, então, se o tempo poderia ser algo tão sutil, abstrato, a ponto de fugir de nossa interpretação e de ser diverso daquele tempo clássico, medido por um relógio independente do observador.
Dividamos nossa discussão em partes, analisando em primeiro lugar como a ciência viu a evolução do conceito de tempo até seus últimos desenvolvimentos.
Os primeiros conhecimentos científicos, no que tange ao cosmos, vieram dos filósofos gregos. Na Antiguidade, a Terra era tida como plana, como entre os babilônios, ou mesmo entre os primeiros gregos, que pensavam que Apolo levava o Sol diariamente em sua carruagem, de leste para oeste. Há indícios, entre os gregos, já na época de Homero, do conhecimento de dias extremamente longos, o que dá uma indicação da esfericidade da Terra. Posteriormente, segundo Heródoto, os fenícios, ao circum-navegarem a África, viram o Sol à sua direita ao caminharem em direção ao poente, o que indica, conforme a interpretação de Terra esférica, que eles estavam abaixo da linha do equador. As primeiras interpretações mais diretas e incisivas sobre a esfericidade da Terra deram-se com os pitagóricos. Ainda entre os gregos, formou-se a ideia de que a Terra, redonda, seria o centro do universo, as estrelas se moveriam em uma esfera exterior, a esfera celeste, com período fixo1. Os movimentos foram conhecidos através da sombra de uma vara vertical fixa ao solo, vara esta denominada gnomon. O movimento da sombra indicava não apenas o horário durante o dia, mas o movimento do sol durante o ano.
O conhecimento mais detalhado e científico do cosmos evoluiu bastante. As medidas de tempo através da observação da sombra do gnomon e o conhecimento das estações do ano permitiram as primeiras medidas de tempo. Os babilônios introduziram um ano de 360 dias, corrigido para 365 pelos egípcios. O calendário juliano foi introduzido por Júlio César com a ajuda de astrônomos egípcios e apresentava a novidade do ano bissexto, um ano de 366 dias a cada quatro anos. Tal calendário durou cerca de 1.500 anos.
O calendário foi de grande importância histórica em nossa compreensão da física e da medida do tempo. Não o foi de modo intrínseco, mas sua compreensão levou a descobertas muito importantes. Por volta do século XVI, a data da Páscoa havia se adiantado no calendário juliano. Essa data é definida através de uma combinação dos calendários lunar e solar. O calendário solar é melhor para as colheitas, pois segue o curso natural das estações do ano, mas o calendário lunar é de mais fácil apreciação pelo homem. O domingo de Páscoa é definido como o primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio de primavera do hemisfério norte. Portanto, depende de fenômenos solares e lunares. É claro que o período solar não era necessariamente comensurável com o período de 365 dias e um quarto definido pelo calendário juliano; uma revisão era necessária. Nicolau Copérnico, astrônomo polonês nascido em 1473 e falecido em 1643, fez essa revisão. Apesar de anteriormente a ele sábios gregos, indianos e árabes terem proposto um sistema heliocêntrico, tal hipótese ganhou força com o calendário proposto por Copérnico. Copérnico usou o heliocentrismo como método de trabalho, mas posteriormente essa hipótese foi vista como realidade física.
O calendário de Copérnico foi instituído pelo papa Gregório XIII em 1582, tendo sido então chamado de calendário gregoriano2. A grande vantagem dessa nova era, no que tange à marcação de tempo, não foi o calendário em si, mas o fato de que o sistema heliocêntrico, com observações posteriores do dinamarquês Tycho Brahe, foi utilizado por Johannes Kepler para formular as três leis de Kepler do movimento planetário. Subsequentemente, Descartes e Galileu formularam o método científico, utilizado por Galileu e por Newton para descrever a mecânica. Dentro da mecânica temos o conceito clássico de tempo.
O tempo clássico é o tempo absoluto, um fluir perpétuo de algo que não sabemos definir, mas que bem podemos intuir. O tempo newtoniano clássico é o tempo de Zeus, um perpétuo movimento observado pelos deuses de seu assento olímpico. É a passagem inexorável associada ao movimento eterno das coisas. Foi também a definição do determinismo clássico, com a previsão de todos os fenômenos, desde que saibamos a configuração atual do mundo. Conforme Laplace, se um ser for capaz de saber todos os detalhes do universo hoje, assim como as leis da mecânica, todo o futuro estará, para aquele ser, determinado.
No entanto, a visão determinista da física sofre um impacto brutal vindo de uma outra teoria física bem conhecida, o eletromagnetismo. Conhecidos desde a Antiguidade, os fenômenos elétricos e magnéticos foram, no século XIX, reunidos em uma só teoria por James Clerk Maxwell, corroborada pela experiência e que trazia em seu bojo algo preocupante do ponto de vista clássico: a velocidade da luz é a mesma para todos os observadores, ou seja, se eu correr atrás da luz jamais a alcançarei, e se for em direção a ela, não a encontrarei mais rápido. Albert Einstein teve a grande ideia de interpretar o resultado dizendo que o tempo e o espaço estão reunidos de forma inseparável, ou seja, o mundo físico é um contínuo quadridimensional espaço-tempo. Era a teoria da relatividade especial, formulada no anus mirabili de 1905, quando Einstein escreveu nada menos que três trabalhos que revolucionaram a física.
Com o conhecimento das leis do eletromagnetismo vieram os primeiros abalos da física clássica: o eletromagnetismo parecia incompatível com o conceito de tempo absoluto, especialmente com as conclusões tiradas da experiência de Michelson e Morley e com a confirmação das equações de Maxwell através das ondas hertzianas (as ondas eletromagnéticas). De fato, concluiu-se então que as verdadeiras leis de transformação são as de Lorentz, que se tornaram uma das pedras angulares da nova física por se iniciar. O significado físico era grande. Em primeiro lugar, o tempo já não era absoluto, e observadores em movimento tinham escalas de tempo diferentes, uns com respeito aos outros. Objetos físicos também se comportavam de modo estranho, passando a se comprimir ao se moverem com velocidades muito grandes. Essa é a nova física da teoria da relatividade, e de um modo muito simples, uma das mais conhecidas novidades é que o tempo não se move da mesma maneira para os vários observadores3.
De modo concomitante, outros problemas, ainda tidos como pequenos, escapavam a uma solução. O que não se sabia é que, no final do século XIX, começava-se a avistar a pequena ponta de um enorme iceberg em rota de colisão com a titânica física clássica. Se nos for permitido um desvio de assunto, podemos dizer que se via uma falsa calma da passagem do século, calmaria essa representada pela era vitoriana, mas que continha uma monumental tempestade que varreria toda a face da Terra, mudando de modo completo e sem volta os contornos planetários, com uma mudança fundamental na visão de mundo e na interpretação filosófica.
Mas, no que diz respeito ao tempo, uma revolução maior ainda estava por acontecer. Durante alguns anos, Einstein estudou como estender os resultados obtidos para o caso de haver forças gravitacionais, o que conseguiu ao formular a teoria da relatividade geral, que foi bem estabelecida do ponto de vista observacional pelas suas previsões sobre a órbita do planeta Mercúrio e principalmente pelo desvio de luz das estrelas pelo Sol, observado em um eclipse solar na cidade de Sobral, no Ceará, em 1919.
O resultado positivo da relatividade geral para o movimento planetário permitiu que se pudesse aplicar a teoria para se descrever o cosmos. Procurou-se então uma chamada solução cosmológica da teoria. O que se procurava, na relatividade geral, seria uma chamada métrica, ou seja, uma régua e um relógio específicos4 para a descrição do cosmos. Tal problema foi resolvido supondo-se um chamado princípio cosmológico, que diz que não há lugares privilegiados no universo. A solução para a métrica é aquela de Friedmann-Lemaître-Robertson-Walker, e descreve um espaço em evolução, com uma régua que se alonga com o tempo. Ou seja, o universo expande-se continuamente!
Einstein não se satisfez com a solução, pois esperava um universo estático. Tentou modificar suas equações introduzindo a chamada constante cosmológica, que posteriormente qualificou como o maior erro de sua vida5. A solução cosmológica acima foi confirmada pelas observações do astrônomo Edwin Hubble cerca de 80 anos atrás.
Como o universo encontrava-se em expansão, olhando-se para trás podemos antever um instante em que todo o universo estaria concentrado em um só ponto: seria o instante inicial do universo, a criação do próprio espaço-tempo, o instante da criação do universo! É a própria criação do tempo, o tempo de Cronos, o tempo de Agostinho, o instante anterior ao qual não havia tempo! É interessante a argumentação de Santo Agostinho. Argumentava-se, na época, que a criação, sendo perfeita, deveria ter ocorrido antes, e Deus não poderia ter simplesmente esperado. A resposta do santo é que o tempo não existia antes da criação. Sendo eterna, a divindade transcende o próprio tempo, e para Ele tudo é presente, não existindo ordem temporal. Assim, no século IV, Agostinho usou conceitos que amadureceram apenas com o advento da teoria da relatividade no século XX.
Assim, após o tempo de Zeus, o tempo clássico, olímpico, compreendemos o tempo criado, o tempo de Cronos. O tempo da relatividade geral aproxima-se da noção de criação, da ideia de ciclo, tal como espelhada na arte católica da Capela Sistina. Contrapõe-se ao tempo de Zeus, que, sem início ou fim, concorda melhor com as ideias clássicas de determinismo.
No entanto, outra revolução científica se dá no início do século XX, que fará mudar nossas concepções de espaço-tempo. Trata-se da mecânica quântica. A mecânica quântica nasceu com a tentativa de explicar os fenômenos associados ao muito pequeno, às partículas elementares, âmbito no qual a teoria clássica, abarcando a mecânica clássica e o eletromagnetismo, tem dificuldades intrínsecas insuperáveis. A teoria quântica evoluiu, para explicar todos os tipos de fenômenos associados ao muito pequeno, para uma concepção totalmente nova na explicação dos fenômenos físicos, com a inclusão do observador que passa a ser parte do fenômeno a ser estudado. Tal concepção é totalmente estranha à física clássica, em que o observador é completamente externo e estranho ao fenômeno estudado, devendo assim permanecer de modo a não borrar os resultados experimentais. Na mecânica quântica isso é impossível! Os fenômenos, na ausência de observador, são probabilísticos, e uma das possibilidades só ocorre na presença do observador ou, melhor ainda, no caso de uma observação.
A mecânica quântica tem um formalismo muito rico e pode ser descrita de diversas maneiras diferentes. Em particular, há uma maneira elegante e instrutiva de se definir a mecânica quântica. Como tudo são probabilidades em mecânica quântica6, a trajetória de um ponto pode ser qualquer uma, e a trajetória real será uma média ponderada, sendo a ponderação definida através de uma constante fundamental introduzida por Max Planck quando do primeiro trabalho histórico que trouxe a teoria quântica para a física.
A mecânica quântica entra na história do universo em dois pontos importantes. O primeiro diz respeito à evolução cósmica dentro do âmbito da relatividade geral através da teoria das partículas elementares. Isso decorre do fato de que quanto mais próximas as partículas (o que ocorre no universo primordial devido à contração do espaço) mais quente o universo, e a descrição das partículas será eminentemente quântica.


















Mostra-se que a história cósmica tem fases e pode, de modo simplificado, ser descrita em termos de três épocas fundamentais. A primeira, chamada de fase de radiação, contém uma sopa quentíssima de partículas a uma temperatura tão alta que as diferentes interações elementares se confundem. No final dessa fase, certas marcas foram deixadas nos céus e somos capazes de corroborar certas facetas das teorias das partículas elementares. Posteriormente, temos a fase da matéria, mais fria, em que as estruturas cosmológicas (aglomerados de galáxias, galáxias, estrelas) foram formadas. Finalmente, temos a fase moderna, de expansão acelerada através da energia escura.
A mecânica quântica foi essencial para essa descrição e para as previsões que levaram os físicos a afiançar a teoria padrão do início do universo. A essa descrição chamaremos de descrição de Cronos, sendo a mesma da relatividade geral vista anteriormente, mas muito mais sofisticada.
No entanto, há outra faceta da descrição do universo que será ainda mais elaborada e chega a ser quase mitológica, na medida em que não há, dentro da tecnologia atual, possibilidade de corroborar os detalhes dessa teoria. O fato é que a teoria da relatividade e a mecânica quântica pareciam, até um quarto de século atrás, misteriosamente imiscíveis. A descoberta da teoria das cordas em um contexto de física nuclear foi singularmente interessante. A teoria foi reinterpretada em termos da relatividade geral e se descobriu que ela descrevia a teoria quântica da gravitação, ou seja, a relatividade geral quântica, pela primeira vez depois de três quartos de século!
A teoria das cordas (de fato, teoria das supercordas7) tem características peculiares. Em particular, ela está definida em um espaço-tempo com várias dimensões: a teoria das supercordas está definida em nove dimensões de espaço e um tempo. Assim sendo, como na arte e na ficção, temos um universo multidimensional! Em particular, como na mecânica quântica temos criação de partículas e antipartículas e várias trajetórias multiprováveis, podemos ter vários universos com tempos independentes e não-relacionados.
Assim, temos não somente um universo multidimensional, mas uma infinidade de universos com tempos e espaços diferentes e independentes. Nosso conceito de tempo se esvai e relativiza-se, pois diferentes observadores em diferentes universos não podem se comunicar visto que seus tempos são incompatíveis. Temos, então, a volta de um tempo caótico, antes de Cronos! O tempo de Cronos não passa de uma pálida faceta de tempo, entre tantos e tantos tempos que povoam o Multiverso, agora bem mais maiúsculo. O Multiverso contém uma infinitude de diferentes universos, alguns chamamos de pântanos ou brejos, onde a vida não é possível, e outros que chamamos de paisagens, onde a vida é possível.
Caso essa teoria seja realmente correta em seus detalhes, talvez tenham razão Edward Witten e David Gross, que afirmam: "Maybe space-time is doomed", ou seja, talvez os conceitos de espaço e de tempo estejam fadados à ruína.
Discussões envolvendo a mecânica quântica são extremamente complexas e de difícil interpretação. Na teoria quântica da gravitação tal como proposta pela teoria das cordas, o tempo é uma das variáveis físicas e, da maneira como o conhecemos, só existe como um epifenômeno. Dessa maneira retornamos às dúvidas dos filósofos do século XVIII, como David Hume, que colocava em dúvida a própria causalidade. Essa interpretação empírica da realidade deve ser comparada seriamente com a teoria quântica: embora a mecânica quântica seja descrita por equações diferenciais bem definidas, com previsões exatas, essas previsões referem-se a uma densidade de probabilidade, e apenas depois de feita uma medida podemos dizer o resultado do experimento. Assim, uma realidade física fica por debaixo de um véu, e não temos uma ideia precisa de seu significado. Conforme dizia Niels Bohr sobre a realidade do mundo quântico, "não há um mundo quântico. Há apenas uma descrição abstrata da mecânica quântica. É errado pensar que a meta da física seja descobrir como é a Natureza. Física concerne ao que sabemos dizer sobre a Natureza".
Assim, especialmente quando chegamos ao âmago do espaço-tempo, podemos afirmar que de fato não sabemos, ao certo, o que é o tempo. Essa é uma das mais fascinantes questões da física, e talvez jamais possamos, dentro desta geração, ter uma resposta definitiva e final. No entanto, poderíamos dizer que esses conceitos estão em um domínio metacientífico, tal como a questão da efetividade da matemática como descrição da natureza. São questões que talvez não possam ser respondidas dentro da ciência, podemos apenas intuir sobre sua veracidade e corroborar sua acurácia na descrição dos fenômenos naturais. Certamente outras questões se colocam com tão grande veemência, como a possibilidade de se viajar no tempo ou, no caso de outros espaços-tempos, termos que interpretar o significado desses diferentes espaços e tempos para os diferentes mundos.
É claro que essas questões são, no momento, mais da metafísica que propriamente da física. Voltamos a ter opiniões, e não só provas e demonstrações, quanto ao que concerne a assuntos de tamanho vulto. A questão nem mesmo é quando conseguiremos compreender esses mistérios, mas até mesmo se a civilização humana é capaz de resolvê-los através da capacidade intelectual do homem moderno, ou se seria necessário outra civilização intrinsecamente mais adiantada para fazê-lo.
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1 Esse período é de 23 horas e 56 minutos, 4 minutos a menos que o dia solar médio, em vista do movimento de translação da Terra. É claro que os gregos não conheciam todos esses detalhes.

2 O calendário gregoriano é definido da seguinte maneira: ao dia 4 de outubro de 1582 seguiu-se o dia 15 de outubro de 1582. Os anos bissextos múltiplos de 100, mas não de 400, foram eliminados (assim, 1900 não foi bissexto, mas 2000 o foi, enquanto 2100 não o será.)

3 Não é verdade, no entanto, que a física não seja a mesma, apenas as aparências são outras.

4 Devemos, neste ponto, nos lembrar que agora não descrevemos a física pela velha geometria de Euclides, mas por uma nova geometria que inclui o tempo. Denominamos o procedimento de se achar a geometria apropriada, ou seja, a régua e o relógio apropriados para cada problema físico, de se achar a métrica do problema.

5 É de se notar aqui que hoje a constante cosmológica é frequentemente utilizada para uma possível explicação da chamada energia escura que parece permear todo o universo fazendo-o acelerar sem parar.

6 Na verdade, a situação é um pouco mais complicada, pois as probabilidades quânticas não se somam como as probabilidades clássicas. Por essa razão elas se chamam amplitudes de probabilidade. Podem inclusive ser negativas ou mesmo números complexos. No entanto, este é um ponto técnico que não nos interessa neste momento.

7 A supersimetria é uma importante simetria relacionada às partículas elementares, essencial para uma descrição consistente da teoria das cordas, daí o nome, teoria das supercordas.

Curta Metragem - Musica Edith Piaf - Pra que serve o Amor

CASAMENTO RELATIVO

Fofoca histórico-biográfica. Imaginem se Ratinho, Sonia Abrão. Marcia Goldsmith ou Cristina Rocha ficam sabendo do babado!!! Daria ótimo tema para um "CASOS DE FAMÍLIA"! rs
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CASAMENTO RELATIVO

Em 1914, às vésperas da primeira guerra mundial, Einstein se mudara a pouco de Zurique para Berlim com a primeira esposa Mileva Maric e os dois filhos crianças. Sua vida profissional e financeira melhorara muito com a mudança para Berlim - a capital mundial da ciência - porém, o casamento há muito tempo já estava desgastado e nesse ano de 1914, à beira de um ataque de nervos.
Foi nesse estado de pressão psicológica, alienação emocional, hostilidade pessoal, um novo amor, como é tão humano nas relações desde Shakespeare... que Einstein, 35 anos, já amante da prima de primeiro grau Elsa, 36, em Berlim, escreveu este bilhete proposta contratual e "brutal ultimato de cessar-fogo" para a esposa Mileva Maric:

Condições:

A. Você garantirá

1. que minhas roupas sejam mantidas em ordem;
2. que receberei três refeições regularmente, em meu quarto;
3. que meu quarto e meu escritório sejam mantidos em ordem, e sobretudo que minha escrivaninha seja
deixada apenas para meu uso.

***
B. Você renunciará a qualquer relacionamento pessoal comigo que não seja completamente necessário por razões sociais. Especificamente, você se absterá de

1. minha companhia em casa;
2. sair ou viajar comigo.

***
C. Você obedecerá aos seguintes pontos em seu relacionamento comigo:

1. não esperará nenhuma intimidade de mim, nem me censurará de nenhum modo;
2. parará de falar comigo quando eu assim exigir;
3. deixará meu quarto ou meu escritório imediatamente, sem protestar, quando eu assim exigir.

***
D. Você aceitará não me hostilizar na presença de nossos filhos, nem com palavras nem com atitudes.

"Mileva Maric aceitou os termos. Quando Haber ( um cientista amigo do casal) entregou a resposta a Einstein, este insistiu em escrever a ela outra vez, "para que você fique completamente esclarecida sobre a situação". Ele estava preparado para viver de novo com ela, "porque não quero perder meus filhos e não quero que eles se percam de mim". Estava fora de questão ter um relacionamento "amigável" com ela, então procuraria uma relação "profissional". "Os aspectos pessoais devem ser reduzidos ao mínimo indispensável", disse. "Em troca, asseguro um comportamento adequado de minha parte, o qual eu teria com qualquer estranha."

in "Einstein - sua vida, seu universo", de Walter Isaacson, 2007
In: http://versoeprosa.ning.com/profiles/blogs/casamento-relativo
Café Filosófico



- A morte como ritual – Eduardo Viveiros de Castro:
In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/10/a-morte-como-ritual-eduardo-viveiros-de-castro/  


- A morte como Encantamento – Antônio Mourão Cavalcante:
In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/12/a-morte-como-encantamento-antonio-mourao-cavalcante/  


- A morte como um acontecimento – Daniel Lins
In: http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/08/13/a-morte-como-um-acontecimento-daniel-lins/  

quarta-feira, 11 de agosto de 2010


eu...

O AMOR E A POESIA SÃO AS ÚLTIMAS TRINCHEIRAS CONTRA A ANESTESIA GERAL DAS CONSCIÊNCIAS E A DOMESTICAÇÃO

Ainda que pouca gente saiba, o amor e a poesia são as últimas trincheiras contra a mercantilização de tudo –inclusive das pessoas. Mas não é fácil visualizar com clareza essa questão. Afinal, existe toda uma orquestração que procura disfarçar o aspecto revolucionário do amor e da poesia. E não adianta dizer que o amor é pros trouxas e pros otários e o sexo é pros espertos.
É preciso não esquecer que o amor proporciona um contato revitalizador entre as pessoas, potencialmente transformador, já que os apaixonados são desobedientes e menos susceptíveis às barganhas e às propostas de renúncia da liberdade em troca de segurança. Os apaixonados estão na chuva pra se molhar , pois o amor potencializa os amantes para a rebeldia e para a criação.
É nessa direção que o livro de André Gorz, Carta a D, História de um amor , abre um hiato, restabelecendo essa vibração afetiva, incontida, desmesurada. Algo que nos faz lembrar de Tristão e Isolda, matriz das histórias de amor em que os apaixonados se amam loucamente e morrem de amar, contra tudo e todos, contra o mundo.
O livro abre com estas palavras: você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
Confesso jamais ter lido algo semelhante em toda a minha vida. Fiquei literalmente de ponta cabeça. Imediatamente lembrei de Alvaro de Campos(um dos heterônimos do Pessoa) ironizando: Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Lembrei, também, do deplorável lugar reservado aos velhos em um mundo regido pelos princípios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.
Desfilaram pela minha cabeça certas noções indissociáveis da velhice: doenças, solidão, desânimo, dependência, asilo, preconceito--e o banco preferencial no ônibus. Mas os idosos, embora relegados, marginalizados e acusados de não entenderem nada, nao são refratários ao amor. E já foi provado: não se verifica na velhice a suposta desistência da vida sexual e amorosa, pois essas energias são pulsionais e, portanto, inesgotáveis. Claro que uma declaração de amor aos 80 anos só pode provocar estranheza, admiração, perplexidade. Na verdade, fiquei estupefacto, encantado –e muito, muito emocionado.
O imperdível Carta a D, História de um amor, é o último livro de André Gorz(2006). Antes dele, nos anos de repressão da ditadura militar brasileira, quando a polícia fazia a devassa de materiais subversivos, ter na estante um livro de Gorz era considerado delito especial, que merecia pena especial -- conforme depoimento de Ecléa Bosi.
Mas vamos situar melhor este autor que sempre esteve envolvido com temas relevantes da teoria social e da política contemporânea. André Gorz foi filósofo, discípulo e amigo de Sartre, e atuou como jornalista em Le Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. Foi considerado um dos principais inspiradores do movimento de Maio de 68 na França. E já nos anos 70 escreveu três livros e diversos artigos que se tornaram referência para os movimentos ecológicos. Isso sem falar da campanha que fez contra as usinas nucleares.
Apesar de tudo isso, do engajamento ideológico, da fama mundial e das proposições de políticas públicas que apontam uma solução radical para a crise social atual, André Gorz confessou desejar a morte dessa sociedade que agoniza para que uma outra que possa nascer de suas cinzas. Textualmente diz: é preciso aprender a enxergar , por detrás das resistências, das disfunções, dos impasses de que é feito o presente, os contornos de uma outra sociedade.
Voltando ao livro, Carta a D, História de um amor , veja o que o André Gorz diz: você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda: meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei palavras que nunca soubera pronunciar: palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre...
Não estávamos unidos apenas em nossa vida privada, mas também por uma atividade comum, na esfera pública...
Na primavera de 1950, quando os Citoyens du Monde me deixaram desempregado, você me disse, de maneira bem simples: A gente vai conseguir se virar sem eles. E, depois disso, encarou quase alegremente um longuíssimo ano de dureza. Você era o rochedo sobre o qual nós dois, nossa união podia ser construída...
Nosso espaço de vida em comum nunca tinha sido tão ampliado como passou a ser a partir da minha entrada nessa revista. Nós éramos complementares. Nós tínhamos , eu e você, adquirido a fama de inseparáveis obsessivamente dedicados um ao outro como escreveria Jean Daniel mais tarde.
Pra finalizar é necessário dizer que em torno da casa onde queria envelhecer com Dorine, Gorz plantou duzentas árvores. Aquela casa era mágica. Na primeira noite, nós não dormimos. Um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol se pôs a cantar, e um segundo, mais longe, a lhe responder.
Tudo indicava uma velhice serena para os dois lutadores apaixonados. Mas uma doença, contraída por Dorine, atrapalha todos os planos e eles vivem anos a fio procurando vencer essa batalha. Gorz deixa o jornalismo, aprende a cozinhar e cuidar da casa. E em 22 de setembro de 2007, o suicídio de André Gorz e Dorine confirma que ele não seria capaz de viver um segundo sequer sem a presença dela.


***
Publicado por Rubens Jardim em 08/08/2010 às 20h07
In: http://www.rubensjardim.com/blog.php  

terça-feira, 10 de agosto de 2010

que bom!
















que bom!

os rios estão nos leitos
a água continua matando a sede
o sol brilhará amanhã
tudo que sobe tem descido
a sujeira está sob o capacho
Kierkeggard Sartre e Nietzsche estão mortos
e bem enterrados
os macacos evoluíram
os pingos estão nos is
os pecadores irão para o inferno
os escolhidos para o céu
reina a paz na terra do nunca
todos seremos [?] para sempre
gozemos...

que bom!
              eu...

Vanessa Mae : Fantasy on a theme from Caravans

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

mercado[livre?]

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Izabel Lisboa

fiat lux

derrama-se a lua sobre a rua nua
tênue véu da noite
entrecortado tão somente
pelo frêmito das asas
e o voo trêmulo
de mariposas excitadas
em torno às indiferentes incandescentes
no mais
a rua está muda e imóvel
a madrugada arrasta-se pesadamente
e pacientemente aguarda
até que o tempo ditador implacável
artífice derradeiro
decida-se emoldurar em tons vibrantes
a ensolarada paisagem matinal...
entrarão em cena novos atores:
madames e totós babás e bebês
padeiros e pães carteiros e cartas
pedreiros e pedras jardineiros e jardins
porteiros e portas jornaleiros e jornais
burburinhos matinais...
***
Izabel Lisboa

tempo morto




















definhava dia após dia
macerado o corpo
em dores [i]lícitas
e [i]morais

mendigava olhares
migalhas de salvação
para o inferno
sabia que não iria
já estava nele

agarrou-se à missão
impossível
de matar o tempo
munido apenas
de ressentimento

tentativas metódicas
apesar do esforço
e da boa vontade
conseguiu apenas
quebrar três relógios...
***
Izabel Lisboa

áurea lei

o teu olhar
sim
esse teu olhar
que agora me lê
é olhar outro
único biográfico [livre]
capaz de fazer dos textos
e dos contextos
a leitura que bem
[ou mal] entender
***
Izabel Lisboa
eu...


ser poeta

tênue idéia
lançar um olhar lírico sobre dores e amores
sorver e absorver a essência das aparências
abismar-se diante dos abismos existenciais
pontuar as possibilidades [ou a falta de]
arremeter a alma ao céu quando for impossível pousar
pousar quando for imprescindível
deixar espaços em branco nas margens e entrelinhas.
abusar das exclamações interrogações e reticências...
um eterno não dar conta...
***
Izabel Lisboa

Stand By Me | Playing For Change | Song Around the World


Algumas canções tem a força de verdadeiros TRATADOS DE PAZ!!!
Vídeo esplendido!!! Músicos de rua de várias partes do mundo reunidos numa MARAVILHOSA gravação
!

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos pais

MEU PAI
Quando pequena eu tinha muito medo de chuva forte. Meu pai me acalmava dizendo que não precisava ter medo, pois a chuva lavava tudo, e levava embora todos os males e as dores da terra... Perto dele aprendi a não ter mais medo da chuva forte... Longe dele aprendi a sentir saudades...
Izabel Lisboa
08/08/2010

Paternidade animal


Ache outros vídeos como este em Academia Feminina Espirito-santense de Letras

Essas coisas de lamber a cria, catar piolho, fazer cafuné, é bom demais e eu sou adepta fervorosa! Tenho um filho que já está com 22 anos e mesmo ele não sendo mais criança pequena quando vi o vídeo senti essa vontade animal de abraçá-lo e beijá-lo!

A violência contra a criança é chocante. A disparidade entre a inocencia da criança e a perversidade do adulto que pratica contra ela o ato de violência é pavorosa e infelizmente é uma realidade que deixa marcas terríveis para o resto da vida. É preciso denunciá-la e combatê-la. Apesar do vídeo se restringir aos maus tratos paternos no âmbito doméstico, a violência no que concerne ao descaso público com a saúde, educação, lazer, etc. da criança, não só no Brasil, mas no mundo todo, é outra face terrível dessa realidade.

Izabel Lisboa

Mulher - Flor de Jardim

Lógica do perdão, texto de Jacques Derrida

Conferência do autor de ‘A farmácia de Platão’, em agosto passado, no Rio, em uma de suas últimas aparições públicas. Derrida discute o processo de reconciliação na África do Sul pós-Aprtheid e no Chile depois de Pinochet.
*** ***
Estaríamos, portanto, no teatro, dentro de um teatro, nele, mas também perante uma corte, no momento em que não se resolveu a questão de saber se o tribunal, a comissão, a instância do veredicto é humana ou divina, se se trata do julgamento dos homens ou do Juízo Final.

Não é certo que o perdão ainda faça parte de uma lógica do julgamento, mas, se fizesse, seria e continua sendo difícil saber quem perdoa a quem, o quê, a quem e se Deus é ou não a última instância de apelação.

Há sempre essa dualidade das ordens: humana ou divina. Tal dualidade compartilha ou disputa o conceito mesmo de perdão e sobretudo o momento de reconciliação.

A reconciliação pode acontecer entre os homens e Deus, mas é verdade que na maior parte das vezes a temática da reconciliação, embora se faça pela mediação de Deus, tende sempre a humanizar as coisas, a abrandar a dureza do veredicto ou do dever.

Provavelmente nada disso é fortuito: o tema da reconciliação, que certamente não está ausente de nenhuma tradição abraâmica, parece mais cristão do que judeu ou muçulmano; a mediação de Cristo ou do ‘homem Deus’ desempenha um papel que lembrávamos há pouco ao evocar Lutero ou Calvino (o calvinismo marcou profundamente a comunidade branca da África do Sul) e ao recordar que nossos quatro personagens em cena – Hegel, Mandela, Clinton, Tutu – eram cristãos e protestantes, a despeito das diferenças mais ou menos discretas que os opõem e de alguns diferendos que não demoraram a aparecer, por exemplo, entre Tutu e Mandela.

Exceção absoluta

Em ‘O Mercador de Veneza’ [de Shakespeare], assiste-se à astúcia que consiste em fingir colocar o perdão acima do direito:

‘When mercy seasons justice’, como dizia Portia, a mulher disfarçada de advogado, representando os interesses do monarca, do doge e do Estado teológico-político cristão.

Ela (ele) tencionava, a um só tempo, convencer, fingir convencer, na verdade vencer, enganar e converter o judeu etc.

Como em certo texto de Kant, que inscreve a exceção metajurídica do direito de indulto na lei e no fundamento da lei, quisemos assim reconhecer um lugar (o direito de indulto concedido ao soberano, o indulto concedido pelo soberano) em que se juntavam o teológico e o político, o divino e o humano, o celeste e o terrestre.

Esse lugar permanece tanto mais notável por situar a um só tempo uma exceção absoluta – a inscrição do não-jurídico no jurídico, do para-além-da-lei na lei, a transcendência na imanência, e uma exceção que funda a unidade do corpo social e do Estado-nação.

Certamente isso é verdade, ainda hoje, em toda parte o¬nde o direito de indulto continua existindo, mesmo fora das monarquias (na França ou nos EUA, por exemplo), mas também, ‘a contrario’, como uma lei acima das leis, por meio da própria noção de imprescritibilidade.

Quando a noção de imprescritibilidade é inscrita na lei -como é o caso na França, desde 1964, para os crimes contra a humanidade-, ela se torna assim, para além da temporalidade jurídica e portanto humana, um conceito jurídico.

Este leva a compreender que nenhuma lei dos homens, no tempo dos homens, pode subtrair o criminoso ao julgamento.

Não é o oposto do direito de indulto, já que o chefe de Estado ainda pode agraciar um homem condenado por crime contra a humanidade (como acredito que fez Pompidou com Touvier, em nome da reconciliação e da reconstituição da unidade da nação).

Instância transcendente

A imprescritibilidade tem de análogo com o direito de indulto, com o indulto a que parece se opor, o fato de em ambos os casos a ordem humana da lei e o tempo humano do julgamento serem ultrapassados por uma instância transcendente.

Os homens não têm o direito de subtrair o – ou de se subtrair ao – julgamento, qualquer que seja o tempo decorrido após cometer a falta.

A esse respeito, do mesmo modo que o direito de indulto imita o poder divino, de que emana e com que se autoriza, a idéia de imprescritibilidade (algo bastante moderno, enquanto fenômeno jurídico e contemporâneo apenas, ao que saiba, do conceito igualmente moderno de crime contra a humanidade, que é seu correlato na França desde 1964) imita o Juízo Final.

Ele se dirige a um ‘até o final dos tempos’, portanto até um ‘para além do tempo’: um tempo até o final dos tempos.

Mas, como a ordem do prescritível ou do imprescritível não é a do perdoável ou do imperdoável – os quais não têm mais nada a ver, em princípio, com o judiciário ou o penal -, então essa hipérbole do direito sinaliza contudo para um perdão, a saber, um excesso no excesso, um suplemento de transcendência (pode-se, ao mesmo tempo em que se condena perante a corte de Justiça, perdoar o imperdoável) ou ainda para uma reapropriação humanizadora, uma reimanentização da lógica do perdão.

Essa reimanentização, essa reapropriação humanizadora organiza sempre o que está em jogo num debate religioso, o qual não pode deixar de passar pela sacralidade, pela indenidade, pela imunidade (‘Heiligkeit’) religiosa.

Debate religioso também entre as religiões que, como cada uma das religiões abraâmicas, trata diferentemente da reconciliação, da mediação humana na relação com Deus, da encarnação, dos profetas, do messias e do profeta.

Jesus, intercessor junto de Deus para que perdoe os que não sabem (pelo menos segundo Lucas), não é o messias para todo mundo. Não é o messias para os judeus e é somente um profeta para os muçulmanos.

Redenção de Pinochet

Sabemos que também foi notória no Chile essa dimensão cristã ou cristianizadora do processo em curso.

Pinochet foi redimido no começo da democratização e depois das eleições, mas redimido no sentido de Hegel, ‘aufgehoben’, conservado e ao mesmo tempo deslocado, já que continuou sendo chefe das Forças Armadas e uma grande voz do país, quando já havia cedido o poder.

Ora, no começo da era pós-Pinochet, no instante de uma anistia geral, é a mais alta hierarquia da igreja que hoje apregoa a reconciliação nacional.

É verdade que, em 1973, após o assassinato de [Salvador] Allende, o cardeal Raul Silva Henríquez tinha corajosamente declarado que ‘os direitos do homem são sagrados’, opondo-se em seguida a Pinochet, à sua maneira.

Porém, velho e doente, ele foi hoje rendido por um arcebispo de Santiago, monsenhor Francisco Javier Errazuriz, que insiste na ‘necessidade de perdoar’.

Será excessivo lembrar que esse arcebispo teve um cargo no Vaticano e na Alemanha, que pertence a uma das famílias mais ricas do país e que seu irmão é um militante do partido de direita chamado Renovação Nacional?

Cabe sempre lembrar, pois se trata de uma situação típica, que, se a Igreja chilena é predominantemente conservadora (o Chile faz parte dos países cristãos o¬nde o divórcio é proibido), também houve padres que lutaram contra a ditadura, pagando com a própria vida.

O mesmo aconteceu na África do Sul: se certa ‘ideologia’ teológica calvinista contribuiu em profundidade para o estabelecimento, justificação e manutenção do apartheid, é preciso, em contrapartida, saudar alguns teólogos e todo um movimento cristão, que corajosamente lutaram contra o racismo de Estado.

Que a Igreja cristã, portanto, em sua fala autorizada, sustente hoje o discurso da reconciliação, que ela ofereça a ‘palavra de reconciliação’, que a reconciliação seja não apenas sua língua mas a língua em que se traduzem - com o conhecimento ou não dos sujeitos envolvidos, todos os discursos mundiais da reconciliação - é algo que nos é confirmado de mil maneiras.



Tradução de Evandro Nascimento.

In: http://www6.ufrgs.br/idea/?page_id=188