terça-feira, 14 de junho de 2011

COMO DEIXAR DE RESPIRAR PELAS PALAVRAS

Por António Cabrita

Escritor e jornalista português, residente em Maputo/Moçambique
In: http://raposasasul.blogspot.com
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(«Quando um indivíduo perde contacto com o universo mítico, encontrando-se a sua existência reduzida ao domínio dos factos, a sua saúde mental encontra-se em grande perigo», Jung)
A literatura é um «fazer-mundo» e não um mero patamar para o entretenimento.
Por isso Gabriela Llansol não é ensinada nas escolas. Não é possível fazê-lo. Não é possível dar aulas sobre Herberto Helder, ou sobre o Fluxo-Floema de Hilda Hilst. A dificuldade de pegar em António Ramos Rosa ou em Vicente Franz Cecim decorre de serem autores que abrem janelas para «outra realidade», e segui-los obriga a um gaguejar. Que professor de literatura admite o atrito nos seus patins? Não há aporias para o professor de literatura, que amêndoa todas as palavras na sua língua até ficarem inteligíveis.
Daí que nas festas da Comunidade Portuguesa, no dia 10 de Junho, pelo mundo, se continuem a VOMITAR poemas de Régio e Torga, de Sophia e de Jorge de Sena. Coitada da Sophia, que odiaria que em seu nome silenciassem a sua filha, Maria Andresen, excelente poeta, mas que coitada sofre do crime de só ter começado a editar há dez anos. E o Sena não tem culpa de ser misturado entre o Fado da Canoa e as danças de salão pelos representantes de um povo que não o respeitou nem entendeu em vida e a quem ele devidamente azucrinou em O Reino da Estupidez. Mas como os responsáveis das festas do 10 de Junho não o leram… continuam a abusar-lhe da paciência.
Vem isto a propósito de como me subiu a mostarda ao nariz quando uma amiga, inocentemente, me perguntou, visto que eu escrevia com facilidade (outra ilusão a fustigar um dia destes), porque é que eu não escrevia “adaptações de clássicos”.
Primeiro ter de explicar que não se macaqueia o Dickens, o Homero ou a Agustina Bessa Luís, é um cansaço.
O que nos separa, a mim e à minha amiga, é um defeito de geração. Ela é séria, amiga, boa professora e uma leitora atenta, mas já cresceu numa geração em que a literatura não é uma vaca sagrada mas apenas um modo de contar histórias. Enquanto para mim é absolutamente e ainda uma vaca sagrada, um modo de respirar, uma gnoseologia. Uma vaca sagrada entrega-se à brincadeira como nenhuma outra – mas nessa brincadeira está em auto-reflexão e não em lassidão auto-complacente.
Hesito entre os filósofos que, como Leibniz, diziam que deus está no detalhe, e os que prescrevem que é a arte que está no detalhe. Ou antes, hesitava: agora escolho o detalhe.
A arte de Dickens, Homero ou Agustina está no detalhe, no desenho da tubulação em que conectam derivação e mito. É aí que se tornam trans e paradoxalmente se distinguem uns dos outros. O resto é a trama, a anedota – cuja suficiência, embora não pareça, não faz a literatura, tal como no cinema uma boa história não garante um bom filme.
Como é que se faz uma adaptação? Metendo a plaina no veio, matando o pormenor, o devaneio, para restituir intacta, num terço das páginas, o fio da trama.
Ademais, a literatura não é uma lotaria de sinónimos, mas aquilo a que Gadamer chamava, ironicamente, «a palavra conformada», para sublinhar que uma conformação desenvolve a sua própria forma, que emana de dentro e se apresenta aí (no texto, no poema) como ela mesmo e só ela mesmo, o que está no oposto da construção, que se faz de fora para dentro, consoante um plano, pelo que é indiferente usar um tijolo ou outro.
Experimente-se mudar um sinónimo numa novela de Raduan Nassar, num livro de Borges Coelho. A frase desmancha-se, só existia em função dessa formulação, como na antiga proporção áurea. Já é indiferente num best-seller. Pode-se pegar na informação contida numa página de Dan Brown e mudar tudo, tanto fazia escrever assim ou assado. Uma vez fiz este exercício numa sala de aula de português com um livro da Colecção Uma Aventura, de Isabel Alçada… Reescrevi completamente a primeira página do livro. E no fim perguntei à professora de português, que estava presente, como é que ela esperava transportar os alunos para o entusiasmo da língua apoiando-se em livros onde a narração se serve de palavras absolutamente desmotivadas, tão desmotivadas que todas se podem substituir por sinónimos. Nunca mais fui convidado para falar de literatura nas escolas, enquanto a Isabel Alçada continua no currículo das escolas portuguesas. Pior: a Isabel Alçada continua a ser responsável (ou era-o antes de ser ministra) pelos livros que entram ou não no Plano Nacional de Leitura. Talvez me falte ambição para ser ministro…
Mas continuando, bem sei que existem pilhas, colecções de resumos, de adaptações, que há editoras que vivem disso – e as escolas promovem-nas, sem que haja um professor que venha à boca de cena explicar que, primeiro é desonesto, e que, segundo, a única vantagem em ler os resumos de As Metamorfoses de Ovídio é a de deixar de respirar pelas palavras.
E esta não é uma matéria de opinião.
Deixar de respirar pelas palavras pode ser uma forma de entrar no princípio da realidade mas paralelamente mata a ciência com que a literatura nos obriga a respirar em todos os elementos, mediante o detalhado escafandro das palavras. Porque a literatura, meus queridos professores de português, não é o guarda-chuva mas o dilúvio.

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